Mídia

Foi-se...

05/09/2006 00:00

Nando Reis



A princípio, o que teríamos para oferecer às gerações bem futuras que estivessem a salvo da nossa íntima contaminação genética?

Apenas um legado intelectual. Meia dúzia de frases ou pensamentos disfarçados de novidades cada vez mais escassas neste tempo em que elas não sobrevivem a um parto. A novidade envelhece mais rápido do que um pão malfeito, estufado por bromato e perdido em pleno meio de tarde na cesta sem graça de uma esquina qualquer e vadia, onde se encontrasse uma padaria.

Mesmo os capazes de pensamentos originais têm dificuldade de acompanhar a velocidade da oferta das quinquilharias que a tecnologia põe na superfície das prateleiras do sucesso – ah, mas isso é coisa de uma outra era! Fomos superados pela rapidez da renovação das vitrines. Interessa mais aquilo que é janela para a submissão, perante a intangibilidade que desenha o fracasso, do que o toc-toc para a porta da propriedade sem matéria que não difere o sonho da ilusão.

Arqueólogo, eu diria que o tempo que hoje vivemos é o mais inescrupuloso, pois desdenha o valor da lentidão e do detalhe daquilo a que assistimos e que apreendemos e, portanto, torna-nos menos afeitos à contemplação do tesouro que dá o acúmulo dos retalhos da mobília do salão da memória.

A pressa hiperativa do mercado em nos saturar com tremendo excesso de oferta contra uma escassa capacidade real e social de absorção, criou o efeito mais deletério da contemporaneidade: a falta de herança, de transmissão, de conexão. Sequer há conexão entre o tempo dos olhos e o movimento dos lábios. Não há conexão entre a mecânica da persiana das pálpebras e o dínamo dos maxilares que deveriam promover a seresta do alimento em digestão. Não há templos porque não há nem mesmo sono que abasteça de sonhos um travesseiro - não há, portanto, arco para a promessa se não há chão suficiente para o arrependimento e a confissão.

Deveríamos voltar, ir atrás, e carregar conosco relógios com ponteiros. Dar corda aos despertadores barulhentos que embalariam nosso sono com o tic-tac das engrenagens entregues a checar os milímetros da exatidão em seus desenhos.

Gostaria de deixar, como imagem ao Arqeuólogo, na miragem do que seria sua investigação futura sobre a normalidade do funcionamento dos nossos tempos, a idéia de que houve, no meio desse furacão e funil do que fizemos antes de antigamente, a voltagem do amor que eu senti – e que se foi.

Sem conexão. O futuro é justamente o que a gente não vê: somente deseja; como é agora e sempre será. Desejo. O passado pode ser aquilo a que muita gente assistiu; mas que mais ninguém sentirá. Foi-se, só houve pra quem se foi. Foi-se... Como é agora e, em seu tempo, solitário Arqueólogo, também será!

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