Mídia

Glenn Greenwald demitiu-se do Intercept

O jornalista acusou os editores de censura. Os editores responderam que foi ele ''quem se desviou de suas raízes jornalísticas originais''

30/10/2020 17:24

Glenn Greenwald (Getty Images)

Créditos da foto: Glenn Greenwald (Getty Images)

 
O jornalista Glenn Greenwald demitiu-se do Intercept, sete anos depois de cofundar a publicação online, citando a censura de seus próprios editores a um artigo sobre o ex-vice-presidente Joe Biden.

O jornalista de 53 anos compartilhou sua carta de demissão em um tuíte para seus mais de 1,5 milhão de seguidores na tarde de quinta-feira (29), no qual acusou os editores de se recusarem a publicar um artigo que ele escreveu, a menos que ele removesse "todas as partes críticas ao candidato democrata à presidência, Joe Biden , o candidato veementemente apoiado por todos os editores do Intercept de Nova York envolvidos neste esforço de supressão."

Greenwald, que ganhou destaque por ajudar a divulgar as notícias sobre documentos confidenciais vazados pelo ex-colaborador externo da NSA, Edward Snowden, construiu uma reputação como uma das vozes mais combativas e habitualmente discordantes da mídia. Ele tem, frequentemente, entrado em grandes discussões online, com outros jornalistas que criticaram suas aparições na Fox News, onde declinava sua rejeição à teoria de intromissão russa nas eleições de 2016.

Ele também emergiu como um crítico vigoroso da grande mídia, acusando-a de reprimir visões alternativas quando se trata da cobertura de certas notícias. Em sua carta de demissão, Greenwald acusou os editores do Intercept em Nova York de se tornarem "cada vez mais autoritários" e "repressivos".

"O artigo censurado, baseado em e-mails revelados recentemente e depoimentos de testemunhas, levantaram questões críticas sobre a conduta de Biden. Não contentes em simplesmente impedir a publicação deste artigo no meio de comunicação que sou cofundador, esses editores do Intercept também exigiram que eu me abstivesse de exercer um direito contratual separado de publicar este artigo em qualquer outra veículo", escreveu ele em sua carta.

"Todo esse tempo, à medida que as coisas pioravam, raciocinei que, enquanto o Intercept permanecesse um lugar onde meu próprio direito de independência jornalística não estivesse sendo violado, eu poderia conviver com todas as suas outras falhas", concluiu Greenwald. "Mas agora, nem mesmo esse direito mínimo, mas fundamental, está sendo honrado para meu próprio jornalismo, reprimido por uma equipe editorial cada vez mais autoritária, movida pelo medo e repressiva em Nova York, empenhada em impor suas próprias preferências ideológicas e partidárias a todos os que lá escrevem, garantindo que nada seja publicado no Intercept que contradiga suas próprias visões ideológicas e partidárias estreitas e homogêneas: exatamente o que o Intercept, mais do que qualquer outro objetivo, foi criado para evitar."

O ex-advogado nascido em Nova York escreveu para o jornal Salon and The Guardian, com sede em Londres.

O Intercept respondeu em um comunicado ao site The Hill qualificando a acusação de censura feita por Greenwald como "absurda".

"A decisão de Glenn Greenwald de demitir-se do Intercept deriva de uma disparidade fundamental sobre o papel dos editores na produção de jornalismo e a natureza de censura", diz o comunicado. "Glenn exige o direito absoluto de determinar o que publicará. Ele acredita que qualquer um que discorde dele é corrupto, e qualquer pessoa que pretenda editar suas palavras é um censor."

"Daí, a acusação absurda de que os editores e repórteres do Intercept, com a única e nobre exceção de Glenn Greenwald, traírmos nossa missão de nos engajarmos em um jornalismo investigativo destemido porque fomos seduzidos pela atração de uma presidência de Joe Biden. Um breve olhar para as histórias que o Intercept publicou sobre Biden será suficiente para refutar essas afirmações", continua o comunicado.

“Temos o maior respeito pelo jornalista que Glenn Greenwald costumava ser e continuamos orgulhosos de muito do trabalho que realizamos com ele nos últimos seis anos. Foi Glenn quem se desviou de suas raízes jornalísticas originais, não o Intercept", acrescenta o comunicado.

“Não temos dúvidas de que Glenn lançará um novo empreendimento de mídia onde não enfrentará a colaboração de editores - tal é a era de Substack e Patreon. Nesse contexto, faz sentido para os negócios que Glenn se posicione como o último verdadeiro guardião do jornalismo investigativo e difame seus colegas e amigos de longa data como inescrupulosos partidaristas", conclui. "Nós entendemos. Mas fatos são fatos, e o histórico de jornalismo destemido, rigoroso e independente do Intercept fala por si mesmo."

A demissão ocorre um mês depois de Greenwald dizer a Megyn Kelly em seu podcast que ele foi "formalmente banido" da MSNBC por causa de suas críticas à cobertura da rede sobre a interferência da Rússia nas eleições presidenciais de 2016. A MSNBC negou que ele tenha sido banido de sua programação.

*Publicado originalmente em 'The Hill' | Tradução de César Locatelli



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