Mídia

Herança

08/05/2002 00:00

Imagino que a mais triste das conclusões a que cheguei nessa já longa vida foi a de que eu não era um gênio. Sim. A maior parte da minha existência eu passei esperando que, de uma hora para outra, minha mente traria à luz uma idéia maravilhosa. Uma invenção. Uma fórmula matemática. Um livro. Qualquer coisa. E que, instantaneamente, essa idéia me alçaria à fama, à fortuna e ao Nobel. Quem sabe até a um Oscar.


Eu fui preparado para isso desde que nasci. Para você ver só uma coisa, o meu pai se orgulha até hoje do meu primeiro xixi. Diz a lenda que eu, logo após o parto, ao receber os tradicionais tapinhas no bumbum e ainda dependurado pelas pernas, teria esvaziado a minha bexiga bem na cara do médico. O que queria dizer, evidentemente, que o meu arguto espírito crítico já dava o ar de sua graças.


Assim foi também na primeira vez que peguei num lápis. Minha mãe guarda até hoje, entre suas fotografias antigas, uma página de caderno com alguns rabiscos meus. Ela diz que eu não tinha nem um ano de idade quando ela colocou um lápis e um papel na minha frente. E ficou esperando para ver o que eu fazia com aquilo. Eu, como já era de se esperar de um gênio, passei a desenhar imediatamente.


- Olha aqui, filho. É ou não é uma obra de arte? - minha mãe fala, me apontando aqueles rabiscos quase apagados sobre o papel amarelado. Para te falar a verdade, até bem pouco tempo atrás eu bem que concordava com ela. Eu olhava para aquelas linhas sinuosas e achava que elas deviam bem pouco a um bocado de obras de arte que a gente vê por aí, em bienais. Talvez eu já tivesse na época uma noção instintiva do que viria a se tornar a arte no final do século vinte ou qualquer coisa parecida.


Mas foi depois de que eu entrei na escola que a coisa foi saindo do controle. Quando terminei o segundo ano primário, meus pais emolduraram o meu boletim e penduraram na parede. Não podia entrar uma visita em casa, que eles levavam o coitado para ver minhas notas. - Só dez! - eles comentavam - Só dez!


Quando meu desempenho escolar começou a se nivelar ao restante da turma, meus pais tiveram uma pequena crise, mas não se abateram. O que será que podia estar acontecendo? Foi quando minha mãe descobriu, numa dessa revistas Seleções, que alguns dos maiores gênios da humanidade tiveram sérios problemas em algumas matérias.


- Você sabia que o Einstein era um péssimo aluno em matemática? - minha mãe explicava para as amigas - E que o Picasso foi expulso da escola com dez anos de idade?


- Isso sem contar o Garrincha - completava meu pai - Isso sem contar o Garrincha!


É claro que, com exemplos tão brilhantes como caução, meu futuro de gênio estava praticamente garantido. Só faltava mesmo era o estalo. O click. A idéia genial que provaria de vez à humanidade toda a minha genial e revolucionária capacidade de... hum... de... ham... oras, não importa, a minha genialidade em alguma coisa. Bem. A idéia não veio, e a única coisa que eu fiz na vida digna de nota foi mesmo a minha filha que, diga-se de passagem, promete. Precisa só ver as redações que ela tem feito na escola.


Nível de Clarice Lispector, meu amigo... Clarice Lispector!


A primeira imagem desta ilustração foi feita pelo autor especialmente para esta crônica.


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