Mídia

História de Uma Quarta-feira de Cinzas

13/02/2002 00:00

Aquela fila enorme e meu tio, lá na frente, em vez de colocar na boca das pessoas uma hóstia, enfiava seu polegar direito dentro de um cálice e o retirava de lá sujo de alguma coisa indefinida. Com essa coisa, marcava a testa das pessoas com uma cruz. Meu tio era padre em Agudos, perto de Bauru, e eu tinha uns dez anos. Era lá em Agudos que passávamos a maioria dos feriados. As famílias de minha mãe e de meu pai eram de lá. Eu estava começando a ligar o nome da quarta-feira pós carnaval com seu nome: "de cinzas".


"- Pai, o que é aquilo que o tio padre está fazendo nas pessoas?"- perguntei, enquanto nossa vez não chegava.


"- Está perdoando as pessoas pelos pecados do carnaval."


"- Carnaval é pecado, pai?"


"- Olha para frente e vê se para de falar..."


Na minha vez meu tio sorriu, fez a tal cruz e balbuciou alguma coisa em latim. Eu espionei dentro do cálice e, para mim, aquilo parecia mais um cinzeiro. Minha primeira reação, ao voltar ao banco da igreja, foi a de passar a mão na testa, para tentar tirar aquela marca. Meu pai segurou minha mão e disse que de maneira nenhuma podíamos tirar aquela marca. Era pecado.


"- Que nem morder hóstia, pai?"


"- Que nem..."- meu pai respondeu, num resmungo.


À noite, na cama, a tal cruz começou a coçar. Com o passar do tempo, aquilo tornou-se um suplício. Meus olhos lacrimejavam mas resisti bravamente. Eu não dormi aquela noite. E não encostei na minha testa. Porém, ao me levantar de manhã e ir até o espelho do banheiro, a cruz não estava mais lá.


"- É assim mesmo, filho. A cruz some sozinha para mostrar que a gente não tem mais pecados." - meu pai me disse, sorrindo.


Vinte e seis anos depois, ateu convicto, fico pensando naquela cruz. E te falo uma coisa: eu não limpei minha testa naquela noite. Juro por deus.


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