Mídia

Igreja e poder nas favelas de Buenos Aires

19/02/2013 00:00

Oscar Guisoni

Buenos Aires - Existem alguns filmes que têm o poder de colocar o dedo na ferida e se dar bem. 'Elefante Branco', de Pablo Trapero (Argentina, 2012), é um bom exemplo disso. Introduzir a realidade no cinema é algo sempre complexo, ainda mais quando não se deseja cair no melodrama.

E abordar a questão das favelas de Buenos Aires - ou vilas, como se diz por aqui -, sem derrapar no panfleto, é uma dificuldade ainda maior. Com inteligência, o filme consegue evitar essas armadilhas e descobre uma realidade que ainda dói na Argentina contemporânea.

A história é protagonizada pelo padre Julian (Ricardo Darín), um sacerdote comprometido com os pobres e que trabalha em uma favela na cidade de Buenos Aires. Ele é acompanhado em suas obrigações por Nicolás (Jeremie Renier), um padre francófono que acabara de sobreviver a um massacre de ribeirinhos na Amazônia, cometido por um grupo de paramilitares. Ambos são apoiados por Luciana (Martina Gusman), uma assistente social que trabalha na dura realidade do bairro.

O "elefante branco" em questão é um prédio abandonado, que se trata em si de um símbolo da trágica história argentina: é o esqueleto de um hospital destinado a ser o maior da América Latina, cuja construção iniciou-se há meio século e nunca foi concluída, fruto das idas e vindas das políticas nacionais. Ao lado do esqueleto, cresceu uma enorme favela.

Os dois padres e a assistente social tentam transformar essa dura realidade. E, ao longo do caminho, eles enfrentam a hierarquia católica, que, fiel à sua tradição, é surda aos problemas dos mais pobres. O tráfico de drogas e seu consumo envolvem os jovens com o crime organizado, algo comum da Argentina contemporânea.

Como costumeiro em algumas regiões do Brasil, aqui também a polícia entra na favela como um ator agressivo, buscando consolidar a subordinação social de uma comunidade que tenta resistir. Diante disso, os protagonistas lutam com suas próprias dúvidas éticas e morais sobre a fé, o amor e a razão.

O filme, ambientado na Argentina de hoje, é dedicado ao padre Carlos Mugica, uma figura emblemática na Argentina dos anos setenta e que foi identificada com o Movimento de Sacerdotes para o Terceiro Mundo. Ele foi assassinado a mando da organização direitista Triple A (Aliança Argentina Anticomunista) em 11 de maio de 1974, em um contexto de radicalização política que terminou com a chegada da ditadura militar do general Videla, em 24 de março de 1976.

Entre suas repercussões, o filme reabriu o debate sobre as relações entre a hierarquia da igreja e setores poderosos do país. Foi um grande sucesso cinematogrático de 2012. A ficção também serviu para colocar no centro da discussão pública as dívidas pendentes de uma Argentina que tem crescido a taxas chinesas durante a última década, mas não deixou para trás as graves desigualdades sociais e nem reconstruiu o tecido social destruído pela sangrenta ditadura, entre 1976 e 1983.

Filmado com uma poderosa estética do documentário, com cuidadosa fotografia, o filme de Pablo Trapero é também uma ode ao cinema comprometido com a realidade, uma tradição cinematográfica que tem, felizmente, boa saúde na América Latina.


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