Mídia

Lição dos Homens Simples

10/05/2002 00:00

Uma coisa que sempre me comoveu (e intrigou) é a alegria da rapaziada da coleta de lixo. Dia sim, dia não, o caminhão da SLU desce a minha rua e eles fazem aquela algazarra. Quase sempre estão brincando, tirando "sarro" uns com os outros, sorridentes e solícitos com os moradores. Mesmo na pressa de apanhar os sacos de lixo, encontram tempo para gritar "bom dia patrão!" ou para comentar a vitória do Galo, a derrota do Cruzeiro ou vice-versa.



Dia desses levantei de bom humor, o que nem sempre acontece nas manhãs quentes e chuvosas de verão. No momento em que saía de casa, vi surgir no topo da rua o grande caminhão amarelo. E eis que, de sua traseira, saltou um negão todo suado com um sorriso branco no meio da cara.



A vizinha do lado estava lavando o passeio, desperdiçando água como já é de costume. O sujeito limpou o suor na manga da camisa e a cumprimentou.



"Será que a senhora me deixa beber um pouco d’água?", foi logo perguntando sem rodeios.



"Essa água não é boa", ela disse. "Espera um pouco que eu busco água filtrada."



"Que é isso, madame? Precisa não. Água da mangueira já tá bom demais."



Ela estendeu o jato d’água e ele se deleitou. Depois de beber boas goladas, meteu a carapinha sob a água e se refrescou por completo. O sol no céu azul estava de arrebentar mamona e o alto da rua oscilava sob o efeito do calor, que anunciava mais chuva no final da tarde.



O afro-brasileiro (olha o politicamente correto aí, gente!) agradeceu a "caridade" da minha vizinha e seguiu correndo atrás do caminhão amarelo, dentro do qual atirava os sacos de lixo apanhados no passeio. Na esquina de baixo o caminhão parou, pois o condomínio em frente sempre produz lixo além da conta.



Quando passei pelos rapazes da coleta, eles atiravam os sacos de lixo no triturador do caminhão. Parei na sombra de uma árvore para observar o trabalho deles enquanto esperava o ônibus. O motorista saiu da boléia com um cigarro na boca e perguntou se eu tinha fósforo. Emprestei-lhe o isqueiro e, enquanto ele acendia o "mata-rato", comentei:



"Sempre admirei a alegria com que vocês trabalham."



O motorista soprou a fumaça para o alto, devolveu-me o isqueiro e comentou:



"E por que a gente devia de ser triste?"



"Não sei... Ganhar a vida recolhendo lixo não deve ser sopa."



"Claro que não", ele retrucou. "Mas duro mesmo é a vida das pessoas lá do lixão. Ficam lá, esperando a gente despejar a carga, e depois reviram tudo à procura de comida. No fim de ano, então, é aquele desperdício. E o pessoal deita e rola. Precisava ver no último Natal... A gente pelo menos tem um trabalho honesto e a marmita quentinha na hora certa."



Em seguida, ele entrou na boléia e acelerou o caminhão. Os dois homens de amarelo terminaram a coleta e subiram na carroceria. O caminhão arrancou e os homens da limpeza se afastaram fazendo a algazarra de sempre. Fiquei ali feito um dois de paus, pensativo, enquanto esperava o "busum".




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