Mídia

Mais Uma do Joãozinho

06/02/2002 00:00

As crianças estão cada dia mais precoces mesmo! Outro dia, na sala de aula do Joãozinho, a tia cobrava o dever de casa:



- Fizeram o que pedi? Um texto intitulado “Para o meu pai”. Quem vai ler a redação primeiro?



Como não poderia deixar de ser, o Joãozinho logo se apresentou:



- Eu leio, fessora!



A classe mergulhou naquele estranho silêncio de cumplicidades que só os pequenos sabem conduzir nestas ocasiões solenes. Joãozinho levantou-se, aprumou-se, tomou o papel e leu:


“Na primeira noite, eles se aproximam,
matam o prefeito de Campinas
e não dizemos nada


Na segunda noite, já não se escondem:
descarregam a arma no Celso Daniel
e não dizemos nada


Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta,
e porque não dissemos nada antes já não podemos dizer mais nada”


- Mas Joãozinho – diz a professora aflita – esse é um poema famoso e não vejo como ele pode se relacionar com seu pai.


- Não é não, fessora. O poema famoso é outro, isso é uma paráfrase que fiz. Alguns atribuem este poema ao poeta russo Maiakovisk, outros sabem que é de um brasileiro, Eduardo Alves da Costa, mas a polêmica não vem ao caso. O que interessa é que meu pai é um destes sonhadores à antiga, um romântico utópico.


- Um o quê?


- Utopista. Um cara que defende situações nas quais vigorem normas e instituições políticas altamente aperfeiçoadas que possibilitem...


- Joãozinho, eu sei o que é utopista...


- É, mas tem muita gente que não sabe!


- Mas e o que isso tem a ver com o que eu pedi de trabalho de casa?


- Como eu ia dizendo, meu pai era um comunista, marxista, leninista, com uma quedinha pelo Trotsky. Vivia querendo derrubar o muro de Berlim para o lado oriental invadir a barbárie ocidental. Sonhava em ter sido guerrilheiro em Cuba, espalhava pôsteres do Guevara por toda casa. Tinha um punhado de amigos chilenos exilados que chegaram a morar na casa dele quando ainda solteiro. Aí, tudo isso, de uma hora para outra, deixou de ser um sonho para se transformar em memórias. No dia que a senhora pediu a redação, eu vi meu pai arrancar, da porta do guarda-roupa, com os olhos cheios de lágrimas, uma impressão rota e amarelada deste poema que estava presa por um durex ressecado. Amassou-a com dor no peito e arremessou a bolinha de papel quase esfarelando no cestinho de lixo. Não demorou muito, todos as televisões e rádios estavam falando do assassinato do Prefeito Celso Daniel. Numa patética e frustrada tentativa, ele quis resgatar o poema jogado fora. Não conseguiu, o papel se desfez ao ser desdobrado. Corri para a internet, imprimi o poema colorido e colei-o de novo em sua moldura de anos. Não existe melhor lugar para ele do que o lado interno da porta do guarda-roupa do meu pai. Ali, ele parece ter um sentido ainda mais forte. Aí aproveitei e escrevi esta paráfrase em homenagem ao meu pai e à sua reação diante da morte de seus companheiros de velhas lutas.


- Não adianta me enrolar não, Joãozinho. Você parece um garotinho bem esperto, mas não me engana não. Você tirou zero neste exercício, pois não escreveu nada, copiou um poema e mudou só uma ou duas palavrinhas. Isso não é uma redação.


O Joãozinho fez uma carinha de certo desdém diante da impossibilidade daquela mulher entender algo do que ele dizia. Voltou a sentar-se com um certo alívio. Pensou: “enquanto eu continuar tirando zero, ninguém presta atenção em mim e, assim, não corro o risco de ser a vítima da terceira noite! O problema vai acontecer no dia em que, sob outra bandeira, eu realizar tudo aquilo com que meu pai apenas sonhou.”


As crianças voltaram à costumeira balbúrdia. A professora fez suas anotações no diário. Joãozinho permaneceu em silêncio, sem dizer nada. Ainda!






Conteúdo Relacionado

Carta Maior é o Portal da Esquerda brasileira e referência de informação de qualidade na internet. O que veicula é fruto de uma consciência e visão coletiva de mundo assumida, o que faculta ao leitor formar sua própria opinião.