Mídia

Meu Candidato a Presidente

14/04/2002 00:00

Ele, ou ela, tem entre 40 e 60 anos, talvez um pouco menos ou um pouco mais, a chamada meia-idade, em que já se fez algumas besteiras e por conta delas sabe-se o que vale a pena e o que não vale nessa vida.


Nasceu no norte ou no sul, não importa, desde que tenha estudado, e se foi em escola pública ou privada, também não importa, desde que tenha lido muito na juventude e mantido o hábito até hoje, e que através da leitura tenha descoberto que o mundo é injusto mas não está estragado para sempre, que um pouco de idealismo é necessário, mas só um pouco, e que coisas como bom senso e sensibilidade não precisam sobreviver apenas na ficção.


Ele, ou ela, é prático, objetivo e bem-humorado, mas não é idiota. Está interessado em ter parceiros que governem como quem opera, como quem advoga, como quem canta, como quem leciona: com profissionalismo e voltado para o bem do outro, e que o dinheiro seja um pagamento pelos serviços prestados, não um meio ilícito de enriquecer. Alianças, ele quer fazer com todos os setores da sociedade, e basta, e já é muito.


Ele, ou ela, sabe se comunicar porque seu ofício exige isso, mas comunicar-se é dizer o que pensa e o que faz, e como faz, e por que faz, e se ele possui ou não carisma, é uma questão de sorte, se calhar, até tem. Mas não é bonito nem feio: é inteligente. Não é comunista nem neoliberal: é sensato. Não é coronelista nem ex-estudante de Harvard: é honesto.


Meu candidato, ou candidata, é casado, ou solteiro, ou ajuntado, ou gay, pode ter filhos ou não: problema dele. Paga os impostos em dia, tem orgulho suficiente para zelar por seu currículo, possui um projeto realista e bem traçado,e não está muito interessado em ser moderno, mas em ser útil.


Meu candidato, ou candidata, é católico, evangélico, ateu, budista, não sei, não é da minha conta. É avançado quando se trata de melhorar as condições de vida das minorias estigmatizadas e das maiorias excluídas, e é retrógrado em questão de finanças: só gasta o que tem em caixa, e não tem duas.


Ele, ou ela, é uma pessoa que tem idéias praticáveis, que aceita as boas sugestões vindas de outros partidos, que não tem vergonha de não ser malandro e sim vergonha de pertencer a uma classe tão desprovida de credibilidade, e tenta reverter isso cumprindo sua missão que é curta, e sendo curta ele concentra nela todos os seus esforços.


Pronto. Abri meu voto.


14/04/02



Martha Medeiros nasceu em Porto Alegre e é formada em publicidade. Como poeta, publicou os seguintes livros: Strip Tease (Editora Brasiliense, 1985), Meia-Noite e Um Quarto (Editora L&PM, 1987) Persona Non Grata (L&PM, 1991), De Cara Lavada (L&PM, 1995), Poesia Reunida (L&PM, 1999) e Cartas Extraviadas (L&PM, 2001). Tem textos adaptados para peças teatrais encenadas em Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. Em maio de 1995 lançou seu primeiro livro de crônicas, Geração Bivolt (Artes & Ofícios), no qual reuniu artigos publicados em Zero Hora e textos inéditos. Em 1996, lançou o guia Santiago do Chile, Crônicas e Dicas de Viagem, fruto dos oito meses em que viveu na capital chilena e que será relançado nos próximos meses, atualizado. Seu segundo livro de crônicas, Topless (L&PM, 1997), ganhou o Prêmio Açorianos de Literatura. Suas publicações mais recentes são a coletânea Trem-Bala, que reúne 110 crônicas publicadas e é seu best seller, e o recente Non-Stop/Crônicas do Cotidiano. É cronista do jornal Zero Hora, com colunas assinadas às quartas e domigos e escreve uma coluna semanal sobre relacionamentos para o site Almas Gêmeas do Terra (Internet). Martha é casada e tem duas filhas.







Conteúdo Relacionado