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Meu caro amigo me desculpe

08/06/2007 00:00

Marcello Vitorino - Fullpress

Créditos da foto: Marcello Vitorino - Fullpress
Meu caro amigo me desculpe, por favor, mas não pretendo ser nem ao menos original.

Não sei como devem estar as coisas aí no seu mundão do futuro, mas, certamente, devem estar muito interessantes: eu, aqui, tentando te dizer alguma coisa e você, aí, tentando entender alguma coisa da nossa cordial conversa.

Bem, não sei quais são suas ferramentas de descobrimento, mas não creio que sejam muito diferentes das que usamos na atualidade desse meu registro. Aliás, nem imagino onde possa estar. Se na Terra, ou qualquer outro lugar da galáxia. Imagino que seja na segunda.

De toda maneira, aqui e agora, olhamos para o interior da urna mortuária dos que nos antecederam, igualzinho ao que está tentando fazer comigo. E tudo o que conseguimos decifrar é justamente nada. Nada por dentro, nada por fora.

O que dizem por aqui é que alguns comiam peixe, outros comiam frutas, tem até a história de um tal de pé-grande que andou por aí.

Bom, de verdade, ninguém nunca diz coisa com coisa e eu nunca entendo nada desse tudo. Aliás, sempre pensei que algum dia alguém fosse me explicar, mas, pelo jeito, eu é quem estou tentando explicar-lhe alguma coisa.

Bem, de qualquer forma, lá vão algumas dicas, e espero sinceramente que não estejam incrustadas em rochas, geleiras ou profundas escavações. Pretendo não lhe dar muito trabalho. Aliás, a palavra de ordem do meu tempo é trabalho. É trabalho para lá, trabalho para cá, ninguém pode parar. Não dá tempo nem de respirar. E ai de quem não trabalha; não consegue nem casar.

Quem não trabalha não come, quem não trabalha não casa, quem não trabalha não pode sequer amar. É que a cidade onde eu fico é muito grande e não dá para atravessar a pé. Então, para encontrar minha negrinha e dançar um xote rasgado, hei que ter dinheiro no bolso para o metrô poder pegar. E só tem dinheiro no bolso, quem consegue trabalhar.

A gente anda o dia inteiro pra lá, pra cá e pra acolá e, quando chega de noite, vamos pra casa descansar. Alguns descansam sentados, outros deitam para descansar, mas logo no dia seguinte, todos começam a andar.
Andam atrás de dinheiro, andam atrás de mulher, andam atrás de cachaça, andam em busca de fé. Andam, às vezes, de levinho, desembestam, outras vezes, a correr, mas sempre voltam devagarzinho, procurando descanso pros pés.

De noite, a gente senta esparramado olhando pro céu e pra lua, conversa sozinho com as estrelas e refaz um punhado de juras. A gente apaga o dia, de noite é cheio de magia, suspiramos bem fundo e apressados, só acordamos para começar outro dia.

A gente até passa na rua e os outros vem do outro lado, correndo atrasado e sem rumo, andamos de banda e de lado.

Agora estamos falando de meio-ambiente, sabe, tentando salvar o que resta do nosso mundo. É que jogamos toda porcaria que produzimos num líquido que se chama água e do qual dependemos para sobreviver, imagine só não podemos viver sem ele por mais que alguns dias. Mas é assim mesmo, a gente joga todo nosso lixo e excrementos no líquido de que precisamos para sobreviver.

Aliás, a gente aqui embaixo faz cada coisa! Antes, morávamos em buracos nos montes e montanhas. Hoje, construímos montes e montanhas e vivemos em buracos. Brigamos pela água, pela terra, por mulher, por política, pela fé e até por time de futebol.

Mas continuamos do mesmo jeitinho de quando tudo começou, não sabemos de onde viemos e nem sabemos para onde todos vamos e, enquanto caminhamos incertos, fazemos como você, procuramos respostas. Um grande abraço. Melhor sorte para você!



(*)José Vicente é presidente da Afrobras - sociedade afro-brasileira de desenvolvimento sócio-cultural




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