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Michael Jordan era um ícone capitalista. 'Arremesso Final' é seu comercial de criação de mitos

 

15/05/2020 15:24

Michael Jordan descansa na quadra durante um jogo, em 1988 (Mike Powelll / Allsport)

Créditos da foto: Michael Jordan descansa na quadra durante um jogo, em 1988 (Mike Powelll / Allsport)

 
“Arremesso Final” (“The Last Dance”), a série altamente elogiada da ESPN sobre Michael Jordan, não é um documentário. É um exercício de dez horas de criação de mitos, que dá a Jordan mais uma chance de vender o produto corporativo que sempre foi o que mais importou para ele: ele próprio.

“Arremesso Final”, o comercial de dez horas da ESPN - perdão, o documentário - sobre o último ano de Michael Jordan como um Chicago Bull em 1997–98, apresenta uma sequência inicial, de 1984, de um então novato Jordan se aquecendo antes de um jogo. Ele é mais magro, com uma vasta cabeleira. O arremesso dele parece estranho, não a perfeição da forma que conheceremos mais tarde. O jovem Michael é indagado sobre o futuro. O futuro dele. Isso foi há tanto tempo que os dois ainda não tinham se concatenado. O que ele quer de sua carreira?

"Eu só quero que a franquia e o Chicago Bulls sejam respeitados como um time."

“Arremesso Final” traz entrevistas com a família de Jordan, seus colegas de equipe e suas famílias, treinadores, executivos da NBA, adversários, amigos, celebridades e, principalmente, o próprio Jordan para mostrar o quanto conseguiu ir além de ser "respeitado".

A série de dez capítulos estava originalmente agendada para ser lançada em junho. Mas a ESPN - reconhecendo que seria um colosso de audiência assim que o viu - adiantou a data de lançamento para 19 de abril para aproveitar a escassez de esportes ao vivo. Os dois episódios finais serão transmitidos neste domingo.

Com “Arremesso Final”, a ESPN e o próprio Jordan - MJ manteve a palavra final sobre a edição definitiva - estão vendendo relações públicas como verdade, criando mitos como se fossem registros históricos. A série está sendo promovida como um documentário. Não é. Depois de ganhar quase US$ 2 bilhões endossando produtos em comerciais, ao longo de sua vida, Jordan está apregoando tudo o que lhe resta para vender: ele próprio.

As filmagens de “Arremesso Final” ficaram paradas na biblioteca de Nova Jersey por quase vinte anos, sem uso. Quando Jordan deu luz verde ao projeto? Em 23 de junho de 2016 - o dia em que LeBron James e o Cleveland Cavaliers realizaram seu desfile de vitória depois de vencer o campeonato da NBA. Dado que Jordan admite na série que ele tem uma "questão competitiva", não é difícil imaginá-lo concordando com um projeto que aumenta sua criação de mitos, exatamente quando seu rival histórico está construindo o seu próprio.

Jason Hehir, o diretor, teria, supostamente, ficado "chocado" com a inclusão de cenas e histórias sobre os conflitos de Jordan com colegas de equipe, como a vez em que ele deu um soco em Steve Kerr, em “Arremesso Final”. Ele não deveria ficar “chocado”. Não há riscos em compartilhar essa história porque ela não contraria a mitologia de Jordan – essa história ampara o mito. Quando Jordan fala sobre a agressão sofrida por ele, pelo Detroit Pistons, no final dos anos 80, a implicação é clara: os Pistons foram violentos e essa violência era ruim para o basquete. Mas quando Jordan deixa Kerr de olho roxo, na prática, ele é um heroico competidor que se esforça e incentiva o esforço de todos ao seu redor, porque ele se importa muito [com a competitividade de seu time]. O mito está sempre, sempre à venda.

E é aqui que as deficiências da série tornam-se mais pronunciadas: quando Jordan é isentado dos mesmos padrões de todos os outros. O episódio cinco apresenta clipes de entrevistas com Kobe Bryant antes de ele ser morto em um acidente de helicóptero em janeiro. Bryant e LeBron são os únicos sucessores da Jordan a obter comparações com MJ. Bryant tenta invalidar o debate, dizendo: “O que você atribui a mim é dele. Eu não ganharia cinco campeonatos ... sem ele. Porque ele me guiou muito. Ele me deu muitos bons conselhos”.

É comum, até mesmo para os maiores jogadores de basquete, darem crédito a quem os inspirou. No início da série, o companheiro de equipe de Jordan, Scottie Pippen, lista Julius Erving como seu herói. Mas nas primeiras oito horas de “Arremesso Final”, não há menção de quais jogadores inspiraram Jordan. Isso não é um descuido. Os mortais têm antepassados. MJ não.

A falta de objetividade cria ‘bocejantes’ brechas na narrativa, muitas vezes quando alguém, com interesses no sucesso de Jordan, tenta parecer crível, e falha. Ao entregar aos Bulls seu segundo troféu de campeonato, após a final de 1992, o então comissário David Stern proclama: “Um é ótimo. Dois é quase impossível”. No entanto, dois anos antes dos títulos de Chicago, Detroit venceu campeonatos consecutivos. Nos dois anos anteriores, o Los Angeles Lakers também. Mas a NBA dependia do mito de Jordan para sua explosão de lucros, então o que há de mais em uma mentira ostensiva entre os bilionários?

Depois que a equipe olímpica masculina de 1992 ganhou a medalha de ouro, Jordan, o porta-voz mais famoso da Nike, colocou uma bandeira americana no peito para esconder o logotipo da Reebok em seu uniforme olímpico oficial. Willow Bay, que trabalhava para a NBC quando ela transmitiu a NBA durante a estreia da Jordan, diz: “Michael era tão singular em sua competitividade e no impulso competitivo que imprimia a seus parceiros como a Nike que não suportava o pensamento de usar o logotipo da Reebok num palco global … Então ele cobriu o logotipo da Reebok com a bandeira dos Estados Unidos. Foi extraordinário.” Talvez não seja tão extraordinário quanto o legado de Jordan como um ícone corporativo e um vazio apolítico.

Uma crítica a MJ, que tem persistido ao longo das décadas, é sua recusa a endossar a candidatura ao Senado do democrata da Carolina do Norte, Harvey Gantt, em 1990, contra o republicano Jesse Helms, o candidato racista. (Jordan cresceu em Wilmington e frequentou a Universidade da Carolina do Norte.) A infame defesa da Jordan [para sua atitude] foi que "os republicanos também compram tênis".

Hoje Jordan diz que o comentário foi feito como uma piada informal para os companheiros de equipe. No entanto, ele continua a defender sua falta de envolvimento: "Eu não era político. Eu estava focado no meu ofício. Isso foi egoísta? Provavelmente. Mas essa era a minha energia. E era aí que estava minha energia." Nike, McDonald's, Gatorade, Hanes e várias marcas poderiam felizmente provar que Jordan estava errado nessa afirmação. Ele estava focado em seu ofício. Mas ele também estava focado em ajudar as empresas a movimentar mais mercadorias. Ali é onde, também, estava a energia dele.

Claro, “Arremesso Final” não se aprofunda nisso. Até os sucessos corporativos são cuidadosamente selecionados. David Falk (agente de MJ) e Sonny Vaccaro (o homem que assinou o primeiro contrato de MJ com a fabricante de tênis) são, destacados, dois dos maiores nomes na ascensão de Jordan, de atleta a ícone. Falk é entrevistado e discutido com frequência. Vaccarro nunca é mencionado. Adivinha qual deles a Nike demitiu em 1991?

Jordan reserva sua maior ira na série para Jerry Krause, o ex-gerente geral de Chicago que faleceu há três anos. "Eu nunca deixaria alguém que não estivesse vestindo uniforme e jogando todos os dias ditar o que fazemos em uma quadra de basquete", diz MJ sobre a ação ostensivamente exagerada de Krause. Jordan ressentiu-se das tentativas da gerência de interferir no produto em quadra.

Mas, e se aplicarmos suas palavras a outros contextos? A Nike não teve nada a ver com o Dream Team ganhar a medalha de ouro em 1992. Certamente Jordan não encobriu o logotipo da Reebok contrariando os desejos da Nike. Como o interesse da gerência sobre a equipe em quadra é menos apropriado do que uma empresa de calçados impactando uma cerimônia de premiação?

Uma das ironias do sucesso é como ele pode afastar alguém das mesmas condições necessárias para obter mais sucesso. Jordan foi implacável em seu esforço para ser o melhor jogador de basquete de todos os tempos, e alcançou esse status elevado. Mas seu sucesso nessa empreitada e as qualidades que o levaram a tais alturas podem ter criado pontos cegos no Jordan, aposentado e proprietário do Charlotte Hornets. De muitas maneiras, Krause é precisamente o que falta na franquia da Jordan.

Krause foi nomeado gerente geral após a temporada de estreia na Jordan. Ele orquestrou a negociação para adquirir Pippen recém-saído da faculdade. Ele contratou Doug Collins, um treinador que Jordan amava, em parte por concordar que a melhor estratégia era deixar Michael com a bola pelo maior tempo possível, e depois demitiu Collins, apesar do carinho de Jordan, porque sabia que o Bulls precisava de algo diferente. O primeiro contratado de Krause foi Tex Winter, que projetou o famoso "ataque triângulo" que Chicago executou durante as seis temporadas do campeonato. Collins foi substituído por Phil Jackson, que não estava no radar de nenhuma outra equipe e conquistou onze títulos, mais do que qualquer técnico da história da NBA.

Krause escolheu Toni Kuko%u00D em 1990, na segunda rodada do draft. Mais tarde, ele se tornou um membro chave do time, nos três últimos campeonatos de Chicago. Talvez o mais impressionante seja que Krause se opunha à ideia de negociar com Dennis Rodman, uma personalidade desafiadora que estivera em Detroit quando agrediram e espancaram o Bulls anos antes, mas Krause ouviu outras opiniões, dentro do grupo de definidores das políticas da equipe, e confiou nelas o suficiente para aprovar a transação. (A longa amizade de Jordan com Charles Barkley terminou alguns anos atrás, depois que Barkley disse: "Por mais que eu ame Michael, até que ele pare de contratar puxa-sacos e seus melhores amigos, ele nunca terá sucesso".)

Um dos momentos mais humanos de “Arremesso Final” ocorre quando Jordan reclama da busca de Krause por Kuko%u00D. "Krause … ele está disposto a colocar alguém na frente de seus filhos legítimos, que deram a ele tudo o que poderíamos dar". Muitos de nós lutariam contra o comportamento de Krause. Quando ele convocou o croata, o Bulls já era um dos melhores times da liga e, quando Kuko%u00D deixou a Europa para Chicago, o Bulls já havia conquistado três campeonatos. No entanto, aqui estava Krause, cortejando abertamente um estranho e pagando-lhe mais do que a Pippen. Por que arriscar balançar o barco?

Krause não estava contente em acomodar-se com um vencedor. Ele tinha herdado Jordan, a peça mais significativa do quebra-cabeça, à qual todos sempre podiam apontar e dizer: "É por isso que venceram". Um esforço incansável para vencer, fazer do seu jeito, para mostrar ao mundo que ele não estava satisfeito, mesmo depois de três títulos: isso mantinha Krause em ação.

Se alguém deveria apreciar essas qualidades em um competidor, seria Michael Jordan. Mas isso não se combina com o mito - e o mito, assim como o homem por trás dele, está agora e sempre à venda.

*Publicado originalmente em 'Jacobin' Tradução de César Locatelli



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