Mídia

Mídia e liberalismo consequente

 

12/03/2020 13:19

 

 

Haveria no cenário político do Brasil uma configuração nítida situando um radicalismo de esquerda, outro de direita, e uma posição centrista, mais sensata e racional, de índole conciliatória, suscetível de governar pacificando a sociedade. Interessante é que os meios de comunicação, ao instalar essa divisão e divulgar essa imagem tripartite, localizam-se a si mesmo no justo meio ou na boa medida, identificada por muitos com a sabedoria.  Como a mídia faz parte do jogo, tornou-se mais dificultoso encontrar o rumo isento na tentativa de localizar onde se encontram os radicalismos e sob que forma se manifestam; inevitável, além do mais, pensar conjuntamente o radicalismo econômico e o político, verificar como se conjugam.  Bem curioso é o Brasil ter entrado em ultra liberalismo praticamente por acaso, pois, o único critério que o atual presidente, capitão afastado Jair Bolsonaro, possuía capacitação de definir quanto à escolha de um ministro da economia é que jamais tivesse servido ao PT; Paulo Guedes, um economista das margens, respondia ao requisito sem que se pudesse saber ao certo até onde praticaria o fundamentalismo ultraliberal anunciado. Anti-estatizante a mídia da política “de centro” sempre se declarou, mas não ultraliberal. Não dá, de forma alguma, na mesma. A questão seria esta: na defesa do que hoje se apresenta como ultra liberalismo econômico - imediatamente danoso para a população de baixa renda e de modo geral economicamente bem aventureiro – até onde querem ir os meios de comunicação?

A forte propensão em aceitar os riscos da aventura ultraliberal será compatível com os melhores interesses de uma política de centro? Hoje, constate-se, o presidente e o portentoso ministro encontram-se bem afinados, atrelados um ao outro, o presidente terá a ditadura que deseja se o povo nas ruas recusar a política econômica que Paulo Guedes e o dito “mercado” desejam. Fome e vontade de comer se completam.  Irá a “mídia do meio termo” preferir o capitalismo selvagem à democracia que professa defender?  Porquanto a alternativa está posta.  Nas declarações de Paulo Guedes ouve-se que não haverá alternativa:   a convicção de que a política econômica tem o direito de se impor e o desejo de ditadura concorrem juntos agora, o ministro pode ir longe pois que o presidente já mostra boa disposição para reprimir os que a economia irá oprimir. Estarão já os meios de comunicação do professado justo meio decididos a sacrificar junto com a paz nas ruas os princípios constitucionais que protestam defender acima de tudo?  Desde a eleição do ex-paraquedista, uma espada de Damocles foi suspensa sobre as cabeças brasileiras; que se aceite conviver com ameaças aos direitos humanos, políticos e civis, já é em si vergonhoso; não pode haver situação mais esdrúxula para a cidadania brasileira do que o contínuo deboche do que os atuais governantes fazem dela.  Não se diz (desdizendo) que a nova economia não admitirá o protesto das ruas recorrendo, se preciso for, à promulgação de novo ato AI-5?    

 Fica evidente, entre os mais importantes veículos de comunicação, a dicotomia entre a apreciação negativa da condução política stricto sensu do atual governo e a torcida pela linha econômica do ministro.  Dois polos, então, se contrapõem: uma política econômica agressivamente fundamentalista, isto é, um progressivo e cruel abandono da projeção social do Estado como garantia de bem-estar comum (função que, salvo engano, está inscrita na Constituição) e um outro que, atento à chocante anomalia política em que o Brasil sobrevive, exercita a denúncia cotidiana da despudorada insuficiência política do atual governo e dos seus anseios ditatoriais.

  Pelo visto, deixou de ser função estatal proteger o trabalhador do desequilíbrio essencial que o capitalismo reproduz entre os que dispõem da oferta de empregos (incluindo as diversas instituições estatais) e os que precisam para sobreviver de alguma segurança no mercado do trabalho. O fato é que, não mais do que de repente, empresas e patronato encontram–se em boa medida liberados dos encargos trabalhistas e que para o trabalhador assalariado não existe mais muito para onde correr. Por outro lado, resulta insultante fazer de conta que, com os baixos salários da enorme maioria dos brasileiros, se possa cuidar da aposentadoria pelos próprios meios; tampouco, a terceirização generalizada dos serviços na indústria e a precarização dos empregos contribuirão muito para a manutenção do nível de vida das maiorias, já ultrajantemente baixo. Assim, nesse apoio praticamente incondicional ao ultra liberalismo, os principais meios de comunicação fazem uma opção drástica e dificilmente “inocente”. Sacrificam sem contemplação por um prazo indeterminado os assalariados de baixa renda e tendem a eternizar o desemprego de treze milhões de brasileiros, o que não parece ser de boa prudência econômica nem, aliás, favorecer a médio e longo prazos os interesses empresariais. Permanece felizmente, no outro polo, o reiterado comprometimento com a legalidade republicana e o pluralismo político que tomamos em seu valor de face, consequente, de resto, com a liberdade de expressão, reserva fundamental dos princípios liberais-democráticos. Na crítica frontal à propensão golpista e às ofensas ameaçadoras à dignidade de coletividades e pessoas, publicistas em geral e colaboradores contribuem de maneira inestimável à formação da opinião pública. 

Se existem possibilidades razoáveis de que a atual política econômica, pelas manifestações  populares que há de provocar, possa proporcionar boas oportunidades de violência repressora por parte de quem, dia após dia, expressa, em frases e diretivas de ódios ressentidos, incontestável pendor ditatorial, não será o caso de aquilatar novamente onde e como se distribuem os radicalismos no Brasil, tendo em conta  que hoje uma economia ultra e uma política ultra se afinaram tendendo a exasperar contradições?

Eis em sumárias linhas o que se delineia para nós, no atual patamar das discussões, como posicionamentos radicais: 1) privar a sociedade do seu papel de agente motor primeiro na função econômica, o que não implica a privatização ilimitada; 2) desconsiderar o papel indispensável do Estado na orientação definidora das políticas econômico-sociais; 3) colocar obstáculos à estrutura institucional de obediência democrática-liberal (como também ao respectivo sistema político).

Forçoso a partir dessas premissas ser incisivo. O ultra liberalismo econômico (no campo trabalhista inclusive) é um radicalismo; conduz forçosamente à insatisfação popular (mais ainda em países pobres e de rendas altamente desiguais), eventualmente a manifestações de ruas. Há quem babe na expectativa de reprimi-las.

 Em segundo lugar, diria, para continuar a ser direto, que a acusação do extremismo petista tanto na área econômica quanto na área política não possui fundamentos empíricos probantes, mesmo do ponto de vista liberal centrista. Bem ou mal, em termos gerais, os governos petistas se esforçaram em contribuir para o desenvolvimento capitalista do país, tentando reforçar a indústria nacional, pondo ao seu serviço, da maneira a melhor que soube, financiamentos do BNDES, atribuindo às estatais mais importantes a obrigação lucrativa.  Do ponto de vista comparativo, em termos internacionais de gerenciamento econômico, não se leu no passado brasileiro recente nada de extraordinariamente radical. Lula pode tranquilamente continuar gozando da fama de pai dos pobres e mãe dos ricos. Os lucros apreciáveis dos bancos instalados no Brasil, até onde se sabe, não baixaram durante os governos petistas, houve esforços continuados para que empresas brasileiras pudessem investir, produzir e crescer no exterior. Na realidade, empresariado e petismo no governo estiveram de bem até o ano 2014, isto é, até a contestação, sem dúvida radicalizada, à presidência de Dilma Rousseff.

Considerando inclusive o período final do seu governo, a presidente nomeou deus e o diabo para diversos cargos e ministérios numa tentativa desesperada e vã de composição com uma oposição legislativa cada vez mais alastrada; aconselhada pelo líder petista a nomear Francisco Meirelles (radical do estatismo?) Ministro da Fazenda, escolhe Joaquim Levy, que ninguém consideraria um ferrenho estatizante, tanto que chegou a ser chamado para presidir o BNDS pelo atual ministro da Fazenda; os titubeios da Presidente levaram-na finalmente a priorizar o ajuste fiscal confrontando o seu próprio partido.  Assim, vemo-la, com certeza bastante desnorteada, mas no oposto da radicalização.

De modo idiossincrásico, se algo o Presidente Inácio da Silva soube fazer com excelência é compor com a gente política. Lula, corporal antes de tudo, fez da figura outrora (nos tempos em que o PT era oposição) monstruosa e vil de José Sarney, um próximo, desse desafeto mais um “companheiro”, um ex-presidente a que se devia o devido respeito; também não se furtou a abraçar, pousando para posteridade, outro ex-execrável, o Pinóquio de nariz cada dia mais comprido, Paulo Maluf. Se alguém soube levar, para o bem ou para o mal, e aprofundar, com instintivo jogo de cintura, o presidencialismo de coalização, esse alguém é o talentoso aprendiz de feiticeiro que Lula foi. No fundo, entre as “elites” só havia um ente intragável e inassimilável, o seu único verdadeiro rival nas eleições presidenciais, o hoje infeliz PSDB. 

Onde pois os sinais do PT radical?

  1).  Como bem se sabe, para os meios de comunicação, a evidência do radicalismo petista revelou-se na recusa do impeachment cuja legalidade reputam incontestável.  2).  A campanha pela libertação do ex-presidente manteve o PT em estado de mobilização, o partido recusa a prisão do líder que considera injusta e ilegal. Mais uma vez, para a mídia “mediana”, o radicalismo exibe-se: o PT e seu líder manifestamente não reconhecem a legitimidade das instâncias jurídicas, sinalizando insuportável pendor a se considerar acima do juízo legal. 3). A recusa petista em participar da inculpação dos seus quadros no âmbito do processo sistêmico da corrupção apareceu para a mídia como falta redobrada, sinal de impudência obstinada face à opinião pública. 4) Enfim, aponta-se para outro traço de extremismo quando o PT se mostra incapaz de enxergar ditaduras onde existem.

 MAS: jamais, a não ser nas primeiríssimas horas do governo lulista, um radicalismo de âmbito socioeconômico com riscos de perigo para a Constituição republicana esteve em pauta.  A ave de Minerva já levantou voo há algum tempo: jamais o PT ameaçou matar e prender, nem discriminou órgãos de imprensa, nem os ameaçou de retaliação.  A presidente não desdenhou, não apelidou de ignorantes, os que contra ela manifestavam; foi quem entre os últimos governantes, incluindo o ex-presidente F. H. Cardoso, menos se queixou (publicamente) das críticas acirradas da imprensa.

 Não é difícil, assim, enxergar algo de insustentável na postura   que os órgãos de comunicação “centristas“ mais influentes assumiram desde a última campanha à presidência.  Como liberais, partidários de uma sociedade civil aberta, dão espaço crítico significativo às obtusas e sinistras ofensivas verbais e às comprovações de absoluta incompetência do atual presidente, filhos, ministros e ministra mais comprometidos com um insondável obscurantismo; por outro lado, festejando Guedes, firmam o poder de quem festejou a tortura e reclamou da brandura dos que não exterminaram a “gentalha comunista”. No âmbito das posturas democráticas, nada do que disseram e fizeram Luís Inácio da Silva, Dilma Rousseff  e Fernando Haddad pode ser comparado com ditos e feitos do atual Presidente, ignorante até do que são ideologias, ignorante de que  transpira por todos os poros  a mais retrógrada dentre elas quando, em termos baixos,  distingue entre mulheres as que merecem ser estupradas e as que não merecem o  “favor” de macho, quando afirma que quilombolas  nem para procriar servem; sem tirar nem pôr, um homem indigno na Presidência com alguns assessores de boçalidade explícita.

 O “mito”, pois que isento da doença ideológica, torna-se insuspeito nos seus pronunciamentos. Preside para os “homens de bem”: os que não votam nele, os que o repudiam devem ser homens do mal; não ficou sabendo que quando se governa um país governa-se para todos os seus habitantes, feministas e artistas, índios e negros, comunistas e anarquistas, ateus e ateias, os que criam famílias e os que preferem o celibato; mas nós soubemos recentemente que uns 20 milhões de argentinos eleitores de   Alberto Fernandez são cidadãos desqualificados, de baixo calibre moral.  Nos longos anos de ócio que passou na Assembleia, sem aprender literalmente nada, o deputado federal chegou a sugerir o fechamento do Congresso, sempre isentou a ditadura militar de ser ditadura, alardeou durante a campanha presidencial que, caso não saísse vitorioso nas urnas, não acataria o resultado (ignora-se o que teria feito). É renitentemente, por constituição e fisiologia, militarista; desconhece a depreciação em que incorre a instituição militar quando é defendida por esse viés.   Convivemos com um antiliberal e um antidemocrata muito honestamente confesso, muito explicitamente convicto na sua celebração dos torturadores: é ele quem cuida da República liberal- democrática brasileira.

Insultas e agravos pessoais aos desafetos, ameaças graves à própria mídia, erosão gradual da sociedade civil e de instituições estatais através de intervenções e “reformas” onde houver resquícios de defesa dos direitos humanos e de participação administrativa popular, onde houver sinal de cultura e de civilidade. Com acusações malignas e manobras insidiosas, gosta de ver o circo pegar fogo (e também a floresta), intimidações, provocações, insinuações grotescas, retrações após investidas caluniosas, o próprio estilo é bestial e injurioso.

O presidente dará o golpe se puder, será apresentado, se for o caso, como medida de segurança nacional, procura por enquanto, generoso com o orçamento militar, ganhar o favor das Forças Armadas; aproxima-se de Paulo Skaf e da Federação das Indústrias de São Paulo numa óbvia contaminação recíproca dos extremismos políticos e econômicos.

Resta que o que aqui repudiamos vem a ser resultado da informação provida pela própria mídia centrista: a ultrajante partilha familial do governo, desconhecida dos usos políticos brasileiros (um dos rebentos recomendando “a cara de pau” como forma corajosa do agir político), a sugestão clara da necessidade de ditadura para governar como a Pátria, Deus, grileiros incendiários e milícias assassinas querem. O Deus cristão a favor da tortura?  O entorno do presidente já advertiu que um ato institucional AI-5, face a manifestações de rua “como no Chile”, não é de se desconsiderar.   O dia seguinte, o mesmo ministro Paulo Guedes, sorridente, afirma a força viva da nossa democracia, o estilo “cara dura” é contagioso.  Mas na advertência soturna do economista tudo está em jogo: se a política ultraliberal injuriar as massas populares, teremos, explica, que as reprimir:   é o jeito.  De modo que o ultra liberalismo econômico do ministro não pode ser separado do assanhamento ditatorial do presidente e tropas de choque.  O laço se estabeleceu e há empresários para se congratular com isso; se tal elo não era manifesto no momento da eleição presidencial, ficou agora.  Não se sabia ainda como Paulo e Jair iriam entender-se, agora se sabe, estão indo muito bem, abraçadinhos.

Não é verdade, em suma, que a mídia liberal esteja diante de dois radicalismos; para se apresentar como centro e continuar a apoiar Paulo Guedes, ela ressuscitou o radicalismo petista que, como foi dito, teve, antes de tudo, expressão conjuntural diante do impeachment da presidente e da prisão do líder; quem governou, no entanto, foi o Lula da paz e Dilma não se comportou propriamente como uma Pasionaria. Para se manter no centro conciliador, os editoriais dos meios de comunicação evitam juntar A e B, não sabem ir além do que o imediatismo empresarial anseia quando talvez fosse vocação da mídia liberal abrir os olhos aos que se precipitam com gula no mais selvagem dos capitalismos. É refletir melhor se a imoderação arriscada no amor ao lucro, por vezes puramente especulativo, pactuando com a pulsão de morte de Jair Bolsonaro não é se demitir de um autêntico liberalismo.  A dimensão econômica não constitui a última palavra, pode ser engolfada pelo que o poder é capaz de instituir: hoje já está em pauta, na rua e no governo, a destituição do Congresso. 

Fernando Kolleritz é professor livre-docente, aposentado pela Unesp (Franca)

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