Mídia

Na cobertura da posse, cada revista retratou seu presidente

Nunca um país teve tanta gente na Presidência. Praticamente um novo governante para cada órgão que cobriu a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 1º de janeiro. Uma simples comparação entre 'Veja', 'Época', 'Isto É' e 'Carta Capital' evidencia as diferenças

06/01/2003 00:00

(Agência Brasil)

Créditos da foto: (Agência Brasil)

 

Quatro Lulas e uma lembrança

Nunca um país teve tantos presidentes. Praticamente um para cada órgão de mídia que cobriu a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, em 1º de janeiro. Por razões de economia me limitarei a comentar quatro desses presidentes e dessas posses. Escolhi quatro revistas semanais, o que permite uma paridade de veículos de informação. Essa paridade ressalta melhor as comparações e as diferenças entre os “Lulas” promovidos. As revistas são, da direita para a esquerda: Veja, Época, Isto É e Carta Capital.

As capas

Poucas vezes as capas das revistas foram tão expressivas em relação a seus conteúdos e escolhas editoriais. Na capa de Veja os protagonistas - dado que Lula em companhia de Da. Marisa são lugares comuns de cobertura - são os inúmeros papéis picados que caem em volta, à guisa de confete. Estamos diante, portanto, de algo parecido com um desfile carnavalesco. A manchete - “Lu[l]a de Mel (agora começa a cobrança)” - sublinha, na verdade, a fugacidade do encontro feliz do presidente com seu povo.

A capa de Época põe também o esperado Lula, em companhia de Da. Marisa, mas o destaque vai para a cerimônia. Alguns papéis picados esvoaçam em volta, mas a foto ressalta a presença do aparato do poder - o Rolls Royce e os seguranças, de vestimenta negra como o carro, e de camisa branca, o que espelha o prateado dos faróis e do pára-brisa. Ao fundo, uma massa indistinta de cavalarianos e bem ao fundo, à direita, algumas bandeiras em riste. A manchete espelha a foto: “Mudança na história (Lula toma posse e o povo se aproxima do poder)”.

Isto É pôs em destaque o povo, e o povo petista. O carro em que Lula aparece coberto por um guarda-chuva, atravessa os espelhos d´água, onde populares brincam. Os espelhos estão margeados de gente, e pelo meio passa a caravana. O contexto rebrilha em vermelho e, não esqueçamos, a aproximação de água e povo é uma imagem de tradição romântica que indica transformação. A manchete acompanha a mesma linha: [Brasília, 1 de janeiro de 2003] “O Povo no Poder”.

Carta Capital optou por uma fotomontagem. Aparece Lula com a faixa presidencial, de braço direito erguido e punho fechado, na tradicional saudação de esquerda. Ao fundo estão os rostos do quadro modernista de Tarsila do Amaral que simbolizam os trabalhadores do novo Brasil operário que, num tempo hoje mítico, se edificava. A manchete sublinha o tom simbólico, apontando para o futuro: “[Especial] O Brasil Que Virá [Por Gilberto Gil, Juca Kfouri, etc.]”.

Os conteúdos - Veja e a farsa

Pelas capas já se pode ver que estamos falando de presidentes e posses muito diferentes entre si. Mas vamos aos conteúdos internos, onde a ciranda se adensa. Já no Editorial (pág. 7), chamado de “Um bom começo”, Veja avisa. Em seu discurso, Lula fez uma série de necessárias, compreensíveis e naturais “concessões retóricas” às “forças mais à esquerda de seu partido”. Afinal, esclarece a revista, muitos petistas estavam se sentindo “desamparados” pelo “choque de realismo” da equipe governante. Mas tudo isso tem algo semelhante a um jogo de cena. O que conta mesmo é que Lula vai dar continuidade ao governo de FHC nas finanças públicas e até mesmo no campo social. É esse o bom começo de que trata a sua “Carta ao Leitor”.

Veja tem uma vantagem. É uma revista cujos textos são editoriais em sua esmagadora maioria, assinados ou não. Têm a mesma linguagem, reservam os mesmos adjetivos depreciativos para seus inimigos e assim por diante. Assim já sabemos que vamos encontrar ditos como os de que “militantes petistas” (o termo “militantes” aí não é acaso) sentirão “engulhos” diante de medidas de Palocci; ou de que Lula pode aproveitar sua aura “popular” para tomar medidas “impopulares”; ou ainda de que “Dirceu fez um discurso para a platéia”; ou de que frases de esquerda no discurso de Lula são “uma cantilena que afaga os ouvidos radicais”, “concessões aos lugares-comuns do esquerdismo”.

O próprio Palocci foi vítima da síndrome da concessão, uma vez que em seu discurso de posse citou poesia (!) e logo de quem, de João Cabral de Melo Neto, um notório comunista [aqui o grifo é meu]. Enfim, poupemos as retinas já fatigadas do nosso leitor: o que Veja descreve é uma “peça bem feita”, uma farsa teatral, pomposa, para enganar petista. Haveria um Lula de palco, e outro de bastidor, e é este que interessa. Este Lula é o que aparece na última página (como sempre, não importa a assinatura), um Lula duro, meio mau, que deve negar aumentos de salário entre outras medidas purgativas.

Época e Isto É - intermezzo popular

Já bem outro é o tom de Época e Isto É. A primeira também tem um mote de seu editorial na expressão “um bom começo”. Mas o sentido é bem outro. Situa Lula num contexto latino-americano e o vê navegando num oceano de naufrágios. O Lula de Época deve se basear numa espécie de “in medio virtus”. Alguns governos da vizinhança naufragaram porque nada mudaram; outros, porque quiseram mudar depressa demais. No discurso Lula manteve a esperança e o bom senso, eis aí o “bom começo”. O editorial, de Paulo Moreira Leite, assinala que ao usar várias vezes a palavra “mudança”, “Lula decepcionou uma torcida impiedosa para que se transforme num vira-casaca”.

O que lá é farsa vira moderada espera aqui. Não é, decididamente, o mesmo presidente nem a mesma posse. A cobertura segue o mesmo tom de uma radical moderação, se me permitem o aparente paradoxo. Destaca-se a presença retumbante da massa vermelha em Brasília, numa rara manifestação de tal porte em nosso país, uma vez que era “a favor”, e não “contra”, como costuma ser. Ao mesmo tempo, mais adiante, Guilherme Elvin sublinha em seu artigo “Por que pode dar certo” que Lula pode ousar mais que FHC na área social, no controle da crise, e poderá ter sucesso no que este falhou: a reforma da previdência. Permanece um tom geral de mudança sim, uma certa continuidade sim, “ma non troppo”.

Já o editorial de Isto É, de Ramiro Alves, começa dizendo que a posse de Lula já produziu mudanças inimagináveis, pelo menos nos “ritos do poder”. Como Veja, o editorial propõe que Lula está em lua-de-mel com seu povo, mas prevê que ela pode se transformar em casamento de fato, desde que o presidente empossado consiga retomar o crescimento econômico e propicie “mudanças radicais no quadro social do país”.

As matérias internas confirmam: a posse de Lula inaugura “uma outra história”, dá início “a uma nova ordem”. O “Consenso de Washington” cede espaço ao “Consenso de Caetés”. A ditadura do “economês” vai ceder espaço à prioridade social. Tudo isso, precisa a cobertura mais adiante, faz parte de uma “manobra”, o que dá um certo ar também teatral ao Lula de Isto É, ou pelo menos de estrategista militar. O objetivo da manobra é, segundo a revista, abrir uma “estratégia para evitar desgastes”, qual seja, a de “empurrar o debate econômico para debaixo do tapete”, “tirar o noticiário econômico do foco e centrar fogo nas ações sociais”. Ou seja, o remédio vai continuar ruim, mas sem alarde.

Assinale-se ainda que Isto É deu destaque às manifestações libertárias do passado, comparando a festa em Brasília a de Woodstock e dizendo que a geração de 68 “chegara lá”.

Carta Capital - a ópera do poder

Carta Capital fez uma das coberturas mais curiosas da posse. Abre com o registro das máscaras de Lula na Corrida de São Silvestre em São Paulo, no dia 31. Na cobertura da posse propriamente dita, começa com a narrativa do ensaio geral para a posse, onde avulta a disputa entre a Polícia Federal e o Comando Militar do Planalto sobre quem cuidaria do Presidente. Segue-se a descrição de algumas gafes no roteiro: cavalos caem, empacam, Lula e o vice caem sentados, um militante afoito dribla e segurança e abraça Lula.

Depois vêm as festas e as comparações com a Itália e seus líderes italianos presentes. Um acha a desordem linda, outro acha tudo “louco”, como em seu país nos anos 50, ao que um terceiro retruca que a Itália dos anos 50 foi a que deu o melhor de si. Tudo prossegue numa série de entrevistas com ministros de Lula, de artigos de personalidades prevendo o futuro, e numa entrevista longa com o socialista italiano Massemo D’Alema.

O epicentro desse coro de vozes nem sempre afinadas uma com a outra é o artigo-editorial de Mino Carta, “A esquerda está viva”, cujo título já diz tudo. Diz que o discurso de Lula foi forte e “de esquerda”, desafiando (como aponta Época) os que querem forçar a imagem de um Lula afeito à “moderação próxima do continuísmo”. A reportagem de Isto É nos dá a imagem de uma espécie de ópera do poder, com coreografia, cenário, roteiro e tudo o mais (seguido à risca ou não), e que Lula, de certo modo, transformou-se na “máscara” do povo que o elegeu. Uso máscara aqui não no sentido de disfarce, mas no sentido teatral mesmo, expressão do rosto que espelha o sentimento dominante. E o sentimento dominante, no caso, é descrito como o de uma “mudança abrupta”. Se ela vai se concretizar ou não, são outros 500.

A minha posse

Eis aí várias posses e vários presidentes, à escolha. Eu também tive a minha e o meu. Como na noite de 27 de outubro, na Paulista, uma serena emoção me dominou, convicto de que o golpe de 64 afinal chegara ao fim. Lembrei-me de uma noite de abril daquele ano, em Porto Alegre. A cidade estava virtualmente ocupada “manu militari”. Era noite, eu e meu pai estávamos à porta. Não havia luz nas ruas, a cidade fora literalmente apagada. “O que está acontecendo”, perguntei. Meu pai, que não era de poesias, comentou: “anoiteceu mais cedo. Vamos para dentro”.

Não, caro leitor ou leitora, não direi o lugar comum de que “le jour de gloire est arrivé”. Direi apenas que a madrugada já vai alta, e que a noite está estrelada. E que também me consola saber que entre os próceres de 64, os de antanho e os de hoje, e mesmo os que já estão no outro mundo, há choro, ranger de dentes, imprecações, praguejamentos, crises cardíacas, hepáticas, gastro-intestinais e outras. Mutatis mutandis, as reformas de base estão de volta.

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