Mídia

Não podemos confiar nas gigantes tecnológicas para policiar discursos

O trabalho de regular discursos incendiários pertence a governos democraticamente eleitos, não a poderosos interesses privados

19/01/2021 19:52

O CEO do Facebook Mark Zuckerberg aparece em um monitor enquanto testemunha remotamente durante a audiência do Comitê de Comércio, Ciência e Transporte do Senado estadunidense em 28 de outubro de 2020. (Michael Reynolds-Pool / Getty Images)

Créditos da foto: O CEO do Facebook Mark Zuckerberg aparece em um monitor enquanto testemunha remotamente durante a audiência do Comitê de Comércio, Ciência e Transporte do Senado estadunidense em 28 de outubro de 2020. (Michael Reynolds-Pool / Getty Images)

 
Medidas emergenciais, criadas sob o estresse de situações urgentes, raramente levam a políticas ideais. O comportamento cada vez mais errático de Donald Trump desde a derrota na eleição presidencial, começando com uma série de mentiras sobre roubo na eleição e culminando com a incitação de uma multidão que atacou o Congresso, levaram a uma grande transformação entre os gigantes das redes sociais que, antes, toleravam – e lucravam diretamente com eles – o aumento do tráfego na internet gerado pela retórica racista e ameaçadora do presidente.

Trump e sua campanha estão atualmente proibidos de postar no Twitter, Facebook, Instagram, Snapchat, Reddit e Twitch. Na semana passada, o Youtube se tornou a plataforma de mídias sociais mais recente a congelar Trump.

 Mark Zuckerberg, CEO do Facebook declarou: “Os eventos chocantes das últimas 24 horas claramente demonstram que o presidente Donald Trump pretende usar o tempo que lhe resta no cargo para prejudicar a pacífica e legal transição de poder para seu sucessor eleito, Joe Biden”. Algumas dessas interdições são temporárias, mas ao menos uma, no Twitter, é permanente.

Não há motivo para chorar pela morte da conta de Trump no Twitter. Ele vem usando esses fóruns para disseminar chamas da violência. Mas Trump e seus seguidores foram rápidos ao denunciar censura. No Twitter, Donald Trump Jr. escreveu, “o mundo está rindo dos EUA e Mao, Lenin e Stálin estão sorrindo. Os gigantes tecnológicos podem censurar o presidente? A liberdade de expressão está morta e sendo controlada por chefes supremos esquerdistas”. Isso é um absurdo em todos os níveis. Mao e companhia não eram fãs de indústrias privadas restringindo o discurso de líderes políticos. E empresas como o Twitter não são “esquerdistas” de modo nenhum.

Alegações direitistas de que Trump está sendo censurado são hipócritas. A direita política, afinal, normalmente celebra o livre mercado não regulado. É uma posição egocêntrica insistir que os mercados devem comandar – exceto quando prejudicam sua própria causa política.

Mas as pessoas à esquerda que desconfiam da concentração de poder econômico têm outros motivos para se preocupar. Como diz a escritora Anand Giridharadas, a repressão das redes sociais contra Trump é um caso no qual incendiários são relançados como bombeiros. A carreira política inteira de Trump foi estimulada pelas redes sociais: Twitter permitiu que ele se auto definisse como um forasteiro insolente que não tinha medo de insultar políticos mais convencionais chamando-os de “Hillary desonesta”, “Jeb baixa-energia” e “Joe dorminhoco”. O Facebook tem sido uma estufa entorpecida onde floresceram incontáveis teorias conspiratórias trumpianas, como as fantasias QAnon.

Há algo de arbitrário e até mesmo covarde sobre o fato de que esses veículos de mídia estejam se virando contra Trump justamente na penumbra de sua presidência. É fácil tomar ações heroicas quando os riscos são baixos. No início da carreira política de Trump, empresas de mídia social estavam mais do que felizes com os lucros feitos com Trump: ele era um gerador de clicks confiável, sua campanha era uma cliente generosa de propagandas e seus cortes de impostos tornaram os bilionários do Vale do Silício ainda mais ricos.

A tardia virada contra Trump é um exercício puramente cínico. Empresas que um dia já se beneficiaram com Trump não precisam mais dele. Nem precisam temer que ele enviará reguladores que vão prejudicar seus negócios.

Não há motivo para ele ter sido banido na última semana enquanto ele vem navegando por mentiras, racismo e ameaças por toda a sua carreira política – sem mencionar sua carreira anterior como um magnata do setor imobiliário e estrela de programa de TV.

Como observou o NYT em agosto, Trump tem “um longo histórico de retórica que incita e demoniza”. O jornal observou que “Trump se aproveitou da resposta das ruas à brutalidade policial contra homens e mulheres negres para estimular sua campanha de reeleição, utilizando linguagem incendiária e provocativa e imagens para incitar seus seguidores, demonizar seus opositores ou ambos”. A incitação de Trump frequentemente aparecia em suas contas nas redes sociais, que repetidamente se insinuava para nacionalistas brancos e adeptos da teoria QAnon.

Se é válido banir Trump agora, era válido bani-lo muitos anos atrás. A decisão de agora é puramente arbitrária, uma declaração do poder corporativo ao invés de um posicionamento fundamentado. Motivada por preocupações puramente corporativas, a repressão das redes sociais é completamente caprichosa. Salienta o motivo pelo qual decisões tão importantes não deveriam ser designadas para chefes de poucas empresas muito grandes.

A chanceler alemã Angela Merkel, de acordo com seu porta-voz, Steffen Seibert, considera o banimento de Trump do Twitter como algo “problemático”. Como explicou Seibert, o direito de expressão é fundamental. “Esse direito fundamental não pode sofrer intervenção, mas de acordo com a lei e dentro da estrutura definida pelos legisladores – não de acordo com uma decisão da gerência de plataformas de mídias sociais”, disse Seibert.

Essa afirmação de que os perímetros do discurso incendiário deveriam ser estabelecidos pelo estado e não pela indústria privada é esperta. Se o discurso incendiário de fato ameaça a democracia, então é um assunto muito importante para ser deixado em mãos privadas. As redes sociais se apoiam na infraestrutura pública, assim como o sistema de rádio e TV, e podem ser reguladas da mesma maneira.

Alexei Navalny, político russo, argumenta que o banimento de Trump pode ser um precedente ruim usado contra o discurso político em outros países, recomendando, ao invés, que o processo de decisão de empresas de redes sociais seja transparente. No lugar de decretos afirmando quem será banido, Navalny sugere que o Twitter “crie algum tipo de comitê que possa tomar tais decisões. Precisamos saber os nomes dos membros desse comitê, entender como funciona, como votam seus membros e como podemos apelar contra suas decisões”.

Para além do dilema especial do discurso incendiário, há um problema maior: as gigantes das redes sociais são, agora, verdadeiros monopólios. Como observa a colunista do NYT Michelle Goldberg, “a habilidade das empresas de tecnologia, agindo em livre coordenação, de calar o homem mais barulhento do mundo é impressionante, e mostra os limites das analogias para os editores tradicionais. É verdade que Trump pode, quando quiser, convocar uma conferência de imprensa ou chamar a Fox News. Mas retirar seu acesso a ferramentas de redes sociais disponíveis para a maioria das pessoas na Terra o diminuiu de um jeito que o impeachment e a derrota eleitoral até agora não fizeram.”

Se essas firmas são tão poderosas a ponto de poderem ser as guardiãs dos portões entre um presidente e o público, então elas superaram o controle democrático. Aqui o estado também pode exercer um papel. A proposta de Elizabeth Warren de usar leis antitruste para fragmentar essas empresas agora tem uma nova urgência.

Como medida de curto prazo, a repressão das redes sociais contra Trump pode ser bem-vinda. Mas Trump logo irá embora. Facebook, Twitter e outros leviatãs da internet permanecerão. Eles deveriam ser os alvos de reformas mais abrangentes.

*Publicado originalmente em 'The Nation' | Tradução de Isabela Palhares

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