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O Divórcio, Segundo o Vaticano

23/05/2002 00:00

A Itália, país mais católico do mundo, 98% da população segundo dados oficiais, está de mal com o Papa. O motivo foi uma declaração bastante infeliz do sumo pontífice, ao condenar o divórcio, permitido por lei desde 1970 no país, com a alegação de que a lei divina sobrepõe-se aos direitos dos homens e, sem perceber, ou justamente por estar gagá, acabou comprando uma briga tremenda.



Além disso, pediu aos advogados italianos que evitem assumir casos de divórcio. Mesmo a parlamentar de direita, Alessandra Mussolini, neta do ditador fascista Benito Mussolini, disse que a idéia de salvar o casamento a qualquer custo é uma ‘hipocrisia’. ‘Há momentos em que o divórcio é uma salvação, porque interrompe uma espiral de ódio e terror, até para os filhos’, complementou.



A foto no jornal, se pintada a óleo, passaria tranqüilamente por um quadro do classicismo, reproduzindo aquelas reuniões intermináveis do clero, um Concílio qualquer, tentando acumular ainda mais poder, das formas mais anticristãs possíveis. A imagem mostra uma infinidade de padrecos (bispos, arcebispos, cardeais, gente desta raça, enfim), com suas batinas vermelhas e um colarinho branco imenso, e outros tantos, vestidos completamente de preto com faixas vermelhas enormes na cintura, parecendo muito mais os próprios emissários do Tinhoso, em contrapartida ao que deveriam ser, com aquele vermelho e aquele preto saltando aos olhos e causando espanto.



O chão de um mármore brilhante e as paredes ricamente decoradas demonstravam a ostentação que sempre apreciaram os membros da cúpula da Igreja, e todos atentamente ouvindo um homem encurvadíssimo e debilitado, metendo o dedo onde não foi chamado, intrometendo-se na vida alheia e pregando a infelicidade de muitos casais que têm no divórcio uma nova chance, talvez a única, de recomeçar suas vidas. E o que é pior: em nome de Deus. Tantas atrocidades já não foram cometidas em nome de Deus, seja qual for a religião, que passa a ser algo usual.



É fácil condenar uma prática, legalmente aceita há mais de trinta anos, baseando-se em leis e ensinamentos supostamente mantenedores da doutrina. E que doutrina é esta, que prega princípios em detrimento do bem-estar de seus seguidores? A Igreja católica morreu e esqueceram de enterrar!



A reprovação do povo italiano às declarações do Papa foi de 87,5%, algo inédito, considerando-se ainda que as pessoas têm apresentado condescendência com João Paulo II, devido a sua idade avançada, discutindo o mínimo possível seus dizeres e comentários. Mas desta vez sua intromissão passou dos limites.



A Igreja já havia tomado decisões ridículas e ameaçadores à integridade física e mental de seus fiéis, como a condenação no uso de preservativos, medida emergencial adotada para evitar uma tragédia mundial pela AIDS, além de evitar muitos casos de gravidez, principalmente na adolescência, que já se transformou em um caso grave de saúde pública em todo o planeta. Atitudes descabidas como estas fazem duma instituição que já ditou regras e mandou matar e torturar por elas num mero folclore, num bando de fulanos fantasiados que, de vez em quando, resolvem falar um punhado de bobagens. A instituição religiosa mais poderosa do mundo está fadada a ser mais uma crença como outra qualquer, que tem seus mitos, alguns ditames absurdos, outros inofensivos, e suas manias infundadas. E como muitas seitas politeístas que por aí vão (pois dizer que a religião católica é monoteísta é a maior falácia de todos os tempos, os fiéis rezam para os santos como os umbandistas rezam para os orixás, como os gregos cultuavam seus espelhos que viviam no Olimpo), passará a ser apenas mais uma forma de querer regrar a vida das pessoas e lhes tomar dinheiro.



Mas, cada vez mais, será simplesmente ignorada, completamente desconsiderada pelos absurdos que prega e pelo mal que pode causar aos ingênuos, pobres fanáticos que os obedecem cegamente.





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