Mídia

O Facebook está fora de controle: se fosse um país, seria a Coréia do Norte

Se nem o poder combinado de marcas como Unilever e Coca-Cola não assusta Mark Zuckerberg, qual poderá sancionar ou servir de contrapeso ao poder acumulado por esta plataforma de mídia social?

19/07/2020 13:30

Mark Zuckerberg, fundador do Facebook (Drew Angerer/Getty Images)

Créditos da foto: Mark Zuckerberg, fundador do Facebook (Drew Angerer/Getty Images)

 
Não há poder neste mundo capaz de sancionar o Facebook, ou servir de contrapeso ao poder acumulado pela plataforma. Nenhuma legislatura, nenhuma agência de aplicação da lei, nenhum agente regulador. O Congresso dos Estados Unidos falhou nessa missão. A União Europeia também. Quando as comissões de comércio só sabem impor multas: a norte-americana castigou com uma de 5 bilhões de dólares, por seu papel no escândalo da Cambridge Analytica, mas o resultado foi que o preço das suas ações aumentou.

O que torna este momento tão interessante e possivelmente vintage. Se o boicote ao Facebook por algumas das maiores marcas do mundo (Unilever, Coca-Cola e Starbucks) for bem sucedido, será porque ele objetivou atacar a única coisa que o Facebook entende: seus lucros. E se falhar, será outro tipo de marco.

Falamos de uma empresa que facilitou um ataque às eleições nos Estados Unidos por uma potência estrangeira, transmitiu um massacre ao vivo, para milhões de pessoas em todo o mundo, ajudando a incitar o genocídio.

Vou repetir com mais ênfase: ajudou a incitar o genocídio. Um relatório das Nações Unidas diz que o uso do Facebook teve “papel determinante” no incitamento ao ódio e à violência contra os rohingya em Mianmar, em ação que levou à morte de dezenas de milhares de pessoas, e fez centenas de milhares fugirem para salvar suas vidas.

Costumo pensar nesse relatório, em várias ocasiões. Quando assisto a documentários que mostram os funcionários do Facebook jogando pingue-pongue dentro de seu espaço seguro, em Menlo Park. Quando eu caminhei para a cidade suburbana do Vale do Silício, no início deste ano, e passei pela rua “normal”, onde Mark Zuckerberg vive sua vida totalmente normal, como o único a tomar decisões em uma empresa, como o mundo nunca viu antes. Quando soube que Maria Ressa, a jornalista filipina que havia feito tanto para alertar sobre os danos do Facebook, havia sido condenada à prisão. Quando li a defesa orwelliana que o nosso ex-vice-primeiro-ministro britânico, Nick Clegg, escreveu na semana passada: “plataformas como o Facebook são um espelho para a sociedade”, disse ele.

O Facebook não é um espelho. É uma arma. Sem uma licença, não sujeita a leis ou controle, e que está nas mãos e nas casas de 2,6 bilhões de pessoas, infiltradas por agentes disfarçados que atuam nos estados-nação. Um laboratório para grupos que elogiam os “efeitos de limpeza étnica” do holocausto, e acreditam que “o 5G fritará nosso cérebro enquanto dormimos”.

Às vezes, as pessoas dizem que se o Facebook fosse um país, seria maior que a China. Mas essa é a analogia errada. Se o Facebook fosse um país, seria um estado desonesto. Seria a Coréia do Norte. E não é só uma arma. É uma arma nuclear.

Porque isso, não é tanto uma empresa, e sim uma autocracia, uma ditadura, um império global controlado por um homem. E não só isso: um homem que, mesmo quando a evidência de seus erros se tornou inegável, indiscutível e esmagadora, simplesmente optou por ignorar seus críticos em todo o mundo.

Em vez disso, continuou a produzir propaganda implacável, e cada vez mais absurda, ao controlar os principais canais de distribuição de notícias. E, assim como os cidadãos norte-coreanos não podem operar fora do estado, parece quase impossível estar vivo hoje e viver uma vida inteira sem o Facebook, WhatsApp e Instagram.

A campanha #StopHateForProfit se concentra no discurso de ódio. Foi o que reuniu seis organizações de direitos civis dos Estados Unidos para pressionar os anunciantes a “interromperem” seus anúncios em julho, uma campanha precipitada pela decisão do Facebook de não remover um post de Donald Trump que promovia a violência contra os manifestantes do Black Lives Matter.

Mas isso é muito maior que o problema do ódio promovido pelo Facebook, e vai muito além dos Estados Unidos, embora o papel que desempenhará nas eleições seja crítico (e vale a pena notar que as demandas de #StopHateForProfit não se estendem a impedir mentiras em anúncios políticos, uma necessidade crucial). Os danos do Facebook são globais. Sua ameaça à democracia é existencial.

Serás uma coincidência o fato de que os três países que enfrentaram o pior cenário nesta pandemia do novo coronavírus tenham no poder líderes populistas, cujas campanhas exploraram a capacidade do Facebook de espalhar mentiras em grande escala? Falamos de Donald Trump, Jair Bolsonaro e Boris Johnson. Talvez seja só coincidência. Talvez não.

O que acontece com o WhatsApp?

E se você não se importa com a democracia, pense por um momento no coronavírus. Se uma vacina aparecer, todas as pessoas que terão que ser vacinadas desejarão ser vacinadas? O Facebook está cheio de grupos anti vacina, tanto quanto de grupos promovendo o antissemitismo. Se isso é um espelho, Nick, você poderia passar o seu tempo nele, dando uma boa olhada, longa, fria e dura.

Mark Zuckerberg não é Kim Jong-un. É muito, muito mais poderoso. “Acho que todos esses anunciantes voltarão à plataforma em breve”, afirmou ele aos funcionários, na semana passada. E, embora 500 empresas tenham aderido ao boicote, o Wall Street Journal relata que isso representa uma queda de apenas 5% nos lucros. Pode ser que o Facebook não seja maior que a China. Pode ser que ele seja maior que o capitalismo.

Finalmente, se trata de nós mesmos e de nossas carteiras, e o que dizemos a essas marcas. Porque o mundo tem que perceber que não há ninguém capaz de nos resgatar dessa situação. Trump e Zuckerberg formaram uma aliança estratégica tácita, certamente não declarada. Somente os Estados Unidos têm o poder de cortar as asas do Facebook. E apenas o Facebook tem o poder de impedir que Trump espalhe mentiras.

Às vezes, você não percebe os principais momentos da história, até que seja tarde demais. E às vezes sim. Ainda não é tarde demais. Mas é quase isso.

*Publicado originalmente em 'The Nation' | Tradução de Victor Farinelli



Conteúdo Relacionado