Mídia

O Homem das Cavernas

23/04/2002 00:00

ao antropólogo Raimundo Duarte, que empunhava o archote



Neo, personagem principal do filme Matrix interpretado por Keanu Reeves, ao ser desperto do grande sono imposto pela “realidade” da Matrix, pergunta ao "lendário" rebelde Morpheus (Laurence Fishburne) o porquê de seus olhos arderem tanto. Ao que Morpheus lhe responde: "é que eles nunca haviam enxergado antes". Morfeu, na mitologia grega, é o deus do sonho, filho da noite e do sono.



Matrix, o filme, flerta com tradições messiânicas e utiliza as ferramentas da ficção científica, da mitologia e da filosofia numa genial alegoria dos tempos modernos. Aos que assistiram à película, e deliciaram-se com seu virtuosismo imagético, convido agora a empreender uma lúdica "viagem" pelo mundo das idéias numa leitura possível da simbologia do filme: "Conhecei a verdade e ela vos libertará".



O homem moderno ainda não saiu das cavernas. "(...) o que naturalmente sucederia se os prisioneiros fossem libertados de suas cavernas e curados de sua ignorância?" – dizia Platão em sua alegoria da caverna. Somos todos prisioneiros enclausurados num mundo de aparências que nos tolhe a liberdade, pois nos oblitera o raciocínio e a visão. Vivemos nas sombras.



Vivemos, pois, uma irrealidade aprazível como a "construída" e apresentada pela ficção de Matrix. Retomo a pergunta de Platão ao seu discípulo. Você já imaginou o que aconteceria se todos conhecessem a "verdade"? Um faxineiro aceitaria limpar sua casa ou empresa pela humilhante remuneração mensal (!) de menos de US$100? O trabalhador aceitaria se subjugar ao assédio moral de chefias despreparadas e incompetentes? Os torcedores de times de futebol se matariam nos estádios, e nas ruas, num combate tolo e inútil? O povo acreditaria nas mentiras de suas elites? A população aceitaria pacificamente a gritante desigualdade social em que vivemos, com tanta riqueza nas mãos de uns poucos enquanto milhões vivem nas ruas e em favelas na mais absoluta miséria? Estamos todos cegos.



Ah, a caverna... A caverna é escura e aconchegante. Alguns de nós têm até a curiosidade e o desejo de conhecer aquele mundo misterioso e sedutor para além da clausura, com seu alarido vertiginoso de luz, cores e sons, que vislumbramos e escutamos ao longe. Mas a caverna nos protege do insondável, nos preserva das intempéries e das feras que estão soltas naquele mundo de que nos falam os anciões e os sábios, mas que não ousamos desvendar.



É importante que não nos sintamos perdidos ou incomodados nessa nossa trajetória. Estamos apenas fazendo aqui uma "viagem" na qual começamos seguindo alguns sinais dados por um filme futurista de ficção e continuamos pela trilha dos pensamentos de um filósofo da antigüidade. É importante que saibamos que, há muito, os caminhos da "verdade" já foram trilhados por desbravadores. Mas é possível conduzir, tal qual um messias, um povo e seus anseios à terra prometida? O ato de despertar é individual, mas o caminhar deve ser conjunto.



Confesso-lhes que um dia me arrisquei e ousei transpor sozinho os limites da caverna, seguindo os sinais daqueles homens que empunham o archote e nos iluminam os caminhos. Também senti nos olhos uma enorme sensibilidade à luz, que ainda hoje me incomoda. A princípio senti muito frio e medo do rugido das feras. Mas, com o tempo, percebi que os medos todos estavam dentro de mim mesmo e me haviam sido incutidos pelas feras, que na verdade são criaturas "dóceis" e medrosas. Senti uma sensação de liberdade tão intensa e comovente que me conduziu a um pranto tranqüilo e alentador. Descobri tantas coisas que lamento não saber como lhes contar, pois a linguagem bem como a maioria dos homens estão prisioneiros das feras. A poesia e a retórica sopram como um doce rumor de palavras, tal qual música ininteligível. Estamos todos surdos.



Os poucos que saem da confortável escuridão da caverna, quando retornam, são tratados com estranha discriminação: uns são chamados de loucos, outros de visionários ou profetas, e alguns ainda de brujos ou "poetas".



Não me sinto mais sob o abrigo confortável da caverna e a sensação de solidão é, às vezes, insuportável. Mas uma coisa eu posso lhes revelar: aquele hieróglifo escrito nas paredes da caverna – e também utilizado, já destituído completamente de significado, por algumas das religiões criadas pelas feras – era, no início de tudo, uma mensagem reveladora escrita pelos nossos mais remotos ancestrais da era moderna, os primeiros homens que foram enclausurados: "Conhecei a verdade e ela vos libertará".



23 abril de 2002






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