Mídia

O Rei Roberto Carlos e a ditadura militar no Brasil

05/05/2005 00:00

Urariano Mota

Esta semana, no ônibus, veio-me de súbito uma pergunta: que música seria mais representativa do golpe militar de 64? E outras perguntas, semelhantes: que canção, que canções, que compositor seria mais representativo daqueles anos inaugurados em um primeiro de abril? E não sei se por felicidade do acaso, no rádio do ônibus, começou a tocar:



“Meu amor está tão longe de mim

Meu bem não seja tão ruim

Escreva uma carta, meu amor

E diga alguma coisa, por favor



Diga que você não me esqueceu

E que o seu coração ainda é meu

Escreva uma carta, meu amor

E diga alguma coisa, por favor



O beijo que você me deu

Eu guardo até hoje o calor

Escreva uma carta, meu amor

E diga alguma coisa, por favor”



Esta canção fez-me lembrar, como num estalo, que Roberto Carlos foi o compositor mais representativo daqueles anos.



Quando falamos em música, a associação imediata aos anos de ditadura é sempre a dos grandes compositores, que contra o golpe militar viram-se metidos num embate. Então, lembramo-nos de imediato de Chico Buarque, de Geraldo Vandré. Fica mal com Deus quem assim não se lembrar. Mas a associação imediata é sempre a da superfície. O imediato sempre vem ao que estamos acostumados por tradição, por uso, e até por força da lei do menor esforço. Lembrar de fato, no entanto, é mergulhar, reviver, viver, entrar de volta na pele daqueles anos. Quando assim mergulhamos, quando voltamos a ser aquele rapazinho magriço, perdido em uma estação rodoviária, em 1965:



“Meu amor está tão longe de mim

Meu bem não seja tão ruim

Escreva uma carta, meu amorv
E diga alguma coisa, por favor ...”



A voz suave que nos chega abre espaço para uma segunda voz, que nos sopra, “o diabo não tem chifres”. Entendam. Sabemos, claro, que a lembrança mais funda de uma época vem misturada a pó, a disfarces. Não sei se me explico bem. Quero dizer, a lembrança mais funda pode não ser a época objetiva. Mas o que será mesmo a realidade objetiva sem a apreensão dela por um homem? Quero dizer, o que há mesmo de objetivo na beleza de um rio sem olhos que o vejam? Dizem-nos “se os teus olhos se fecharem, o rio continuará lá, independente dos teus olhos. Isto é objetivo”. Ao que respondemos, para que mesmo serve esse rio objetivo sem olhos que bebam a sua beleza? Água em si não é bela. É líquido, fórmula química, fria natureza. Então voltamos. A gente sabe que a lembrança daqueles anos muito tem a ver com todos os rádios, em todos os lugares, tocando:



“De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar

se você não vem e eu estou a lhe esperar

só tenho você no meu pensamento

e a sua ausência é todo meu tormento

quero que você me aqueça nesse inverno

e que tudo mais vá pro inferno



De que vale a minha boa vida de play boy

se entro no meu carro e a solidão me dói

onde quer que eu ande, tudo é tão triste

não me interessa o que de mais existe

quero que você me aqueça nesse inverno

e que tudo mais vá pro inferno



Não suporto mais você longe de mim

quero até morrer do que viver assim

só quero que você me aqueça nesse inverno

e que tudo mais vá pro inferno.”



A gente sabe. Então vêm perguntas dos resistentes velhinhos do fã-clube do Rei: “Fazer sucesso naqueles anos da ditadura é o mesmo que ser o compositor da ditadura? Por acaso a música do Rei saía da boca dos generais? Roberto Carlos tem culpa de ter sido sucesso estrondoso em 65, 66, 67, 68, 69, 70, 71, 72 , 73... ? ” Por esse critério, reconhecemos, arrastaríamos todos os grandes sucessos desses anos, e diríamos que seus autores foram e são por isso culpados. Então entendam, por favor, que o sucesso não é o critério – embora, forçoso é dizer, possa oferecer uma pista daqueles anos. Para melhor compreensão, aproximemo-nos de 1965.



Quando Roberto Carlos cantou em todos os rádios do Brasil, ele veio dentro de um projeto, de um programa que arrebentou em 65. “Em 1965, estreou ao lado de Erasmo e Wanderlea o programa Jovem Guarda, que daria nome ao movimento”, dizem as notas. O Jovem Guarda opunha-se ao O Fino da Bossa, com Elis Regina. Enquanto O Fino da Bossa fazia uma ponte entre os compositores da velha-guarda do samba e os compositores de esquerda, de convicções socialistas, o Jovem Guarda...



“Eu vou contar pra todos a história de um rapaz

que tinha há muito tempo a fama de ser mau

seu nome era temido sabia atirar bem

seu gênio violento jamais gostou de alguém



E ninguém jamais viveu pra dizer

que o contrariou sem depois morrer

nos duelos nem piscava,

no gatilho ele era o tal

todos que o desafiavam

tinham o seu final...”



ou



“Quem não acreditar

venha ver a multidão

que com ela quer dançar

ela adivinha que eu

estou sofrendo

também querendo

com ela dançar...”



“O Rei, o Rei não tem culpa...”, diz-nos um senhor encanecido, ex-jovem guarda (e como envelheceu a jovem guarda!). “O Rei não tem culpa...”. Sim, compreendemos: quem assim nos fala quer apenas dizer, Roberto Carlos não tem culpa de fazer o medíocre, que falava aos corações da massa jovem daqueles anos. À juventude alienada, certamente, mas juventude de peso, em número, que ganha sempre da minoria de jovens estudiosos. Que mal há em falar para a sensibilidade embrutecida mais ampla? Certo, Roberto Carlos não tem culpa de não compor algo como



“Tristeza não tem fim,

felicidade, sim.



A felicidade é como a pluma

que o vento vai levando pelo ar

voa tão leve, mas tem a vida breve

precisa que haja vento sem parar...”.



Certo, compreendemos: ninguém é louco de pedir ao Rei o impossível! Certo, concordamos que ele não tem culpa de macaquear a revolução musical dos Beatles, de macaquear em versões bárbaras, em caricaturas dos cabelos longos, alisados a ferro e banha, para lisos ficarem como os dos jovens de Liverpool. Toucas, acordes “jovens”, vestuário, um arrebentar de norte a sul do Brasil, que mal há? Claro que não há. Mas...



Meus amigos, chega de rodeios. Tentemos atingir a raiz, o específico do específico. Vamos adiante, pois começaremos por dizer: em relação à música popular, o que caracterizou a ditadura militar no Brasil foi o veto, a censura absoluta a qualquer alusão política nas letras. O veto, o corte, o mutilar a canção por qualquer insinuação política foi ampliado até a mais leve crítica a qualquer aspecto social ou físico da paisagem brasileira. Tinham passagem pelo apertado funil, ou melhor, eram bem-vindas as canções mais ufanistas como



“As praias do Brasil ensolaradas,

o chão onde o país se elevou,

a mão de Deus abençoou

mulher que nasce aqui tem muito mais amor.



O céu do meu Brasil tem mais estrelas,

o sol do meu país mais esplendor.

A mão de Deus abençoou,

em terras brasileiras vou plantar amor.



Eu te amo, meu Brasil, eu te amo!

Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil.

eu te amo, meu Brasil, eu te amo!

Ninguém segura a juventude do Brasil...” (Don e Ravel).





É sintomático em Roberto Carlos a passagem de cantor da juventude, da jovem guarda, para cantor “romântico”. Essa passagem dá-se na medida em que os jovens de todo o mundo deixam de ser apenas um mercado de calças Lee e Coca-Cola, e passam a explodir em protestos contra a guerra do Vietnã, até mesmo em festivais de rock, como em Woodstock. Ou, se quiserem numa versão mais brasileira, o Rei Roberto torna-se um senhor “romântico” na medida mesma em que as botas militares pisam com mais força a vida brasileira. Ora, nesses angustiantes anos o que compõe o jovem, o ex-jovem, que um dia desejou que tudo mais fosse para o inferno? - Eu te amo, te amo, te amo, As canções que você fez pra mim, As flores do jardim da nossa casa, e, claro, para que não me vejam má vontade, Sua Estupidez:

“Meu bem, meu bem,

você tem que acreditar em mim

ninguém pode destruir assim

um grande amor ...”.



É claro, já se vê, a passagem do Roberto Carlos Jovem Guarda para o senhor “romântico” não se dá pelo envelhecimento do seu público. Ora, de 1965 a 1970 correm apenas 5 anos. O envelhecimento é outro. Nesses 5, correm sangue e enfurecimento da ditadura militar, no Brasil, e crescimento da revolta do público “jovem”, no mundo. Enquanto explodem conflitos, a canção de Roberto Carlos que toca nos rádios de todo o Brasil é Vista a roupa, meu bem (e vamos nos casar). Ora. Se fizéssemos um gráfico, se projetássemos curvas de repressão política e de “romantismo” de Roberto Carlos, veríamos que o ápice das duas curvas é seu ponto de encontro. O que é uma coincidência, quero dizer, os dois pontos coincidem.



O namoro do Rei Roberto Carlos com o regime não foi um breve piscar de olhos, um flerte, um aceno à distância. Não sei se me explico bem. O Rei Roberto não compôs só a música permitida naqueles anos de proibição. O Rei não foi só o “jovem” bem-comportado, que não pisava na grama, porque assim lhe ordenavam. Ele não foi apenas o homem livre que somente fazia o que o regime mandava. Não. Roberto Carlos foi capaz de compor pérolas, diamantes, que levantavam o mundo ordenado pelo regime. Ora, enquanto jovens estudantes eram fuzilados e caçados, enquanto na televisão, nas telas dos cinemas, exibe-se a brilhante propaganda “Brasil, ame-o ou deixe-o”, o que faz o nosso Rei? O Rei irrompe com uma canção que é um hino, um gospel de corações ocos, um som sem fúria de negros norte-americanos. Ora, ora, o Rei ora:



“Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu estou aqui

olho pro céu e vejo uma nuvem branca que vai passando

olho pra terra e vejo uma multidão que vai caminhando

como essa nuvem branca, essa gente não sabe aonde vai

quem poderá dizer o caminho certo é Você, meu Pai



Toda essa multidão tem no peito amor e procura a paz

e apesar de tudo a esperança não se desfaz

olhando a flor que nasce no chão daquele que tem amor

olho pro céu e sinto crescer a fé no meu Salvador....”.



É certo que no ano seguinte, em 1971, depois de erguer multidões em estádios de futebol para em uníssono gritar Jesus Cristo, é certo que Roberto Carlos gravou Como Dois e Dois, de Caetano Veloso. E não só. No mesmo disco fez a Caetano uma declaração de amor, sem ousar dizer-lhe o nome: Debaixo dos caracóis dos seus cabelos. O que é bem compreensível. Todos no Brasil sabemos que Deus primeiro criou Caetano Veloso. Depois criou o mundo, para que o mundo aplaudisse Caetano. O Rei Roberto, ao compor Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, manteve a velha coerência: cumpriu uma ordem divina.




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