Mídia

O Retrato da Perplexidade

04/05/2002 00:00

Começamos a semana com uma foto das eleições francesas, foto essa que vai ficar na História. Ali estão os partidários do primeiro-ministro Lionel Jospin, recebendo a notícia da derrota de seu candidato – para o ultradireitista Jean-Marie Le Pen. E o que vemos é o retrato da perplexidade. Pessoas boquiabertas, pessoas de olhos arregalados, pessoas cobrindo o rosto com as mãos – a pergunta está na cara: como chegamos a isso? Uma pergunta que é, ao mesmo tempo, muito simples e muito difícil de responder. O fascismo tem, sim, um apelo – no caso, xenofóbico. Mais, tem até uma estética, expressa por exemplo na arquitetura monumental, nos espetáculos de massa. Que o fascismo possa atrair não é difícil de entender.


Mas – na França? A França da Revolução de 1789, a França da “liberdade, igualdade e fraternidade”, a França dos impressionistas, a França de Proust e de Zola? É possível. Essa pergunta me faz recordar uma discussão que presenciei no Salão do Livro em Paris, no qual o Brasil era o país homenageado. Comentava-se a vendagem de Paulo Coelho na França, e alguns escritores brasileiros ali presentes expressavam seu pasmo, quando um crítico literário (do Le Monde, se não me engano) perguntou, bem-humorado: “Mas vocês pensam que aqui todo mundo é Sartre?”.


Pois é. Nem todo mundo é Sartre. Ainda bem, aliás: Sartre disse não poucas bobagens – por exemplo, achava que não deveria se falar sobre os campos de prisioneiros na ex-União Soviética para não dar munição aos inimigos. Depois, é difícil acompanhar o raciocínio de Sartre, muito mais difícil do que é acompanhar o raciocínio de Le Pen. Para muitos eleitores, aquilo que o socialismo podia prometer, em termos de bem-estar social, já foi atingido; o negócio agora é mandar embora os pieds noirs, os estrangeiros que são bem-vindos quando há ruas para limpar e prédios para construir, e que, fora disso, são um estorvo.


Há alguns dias, tive uma certa premonição quanto ao resultado eleitoral da França – ao ler dois best-sellers do escritor Michel Houellebecq: Extensão do Domínio da Luta, da Sulina, muito bem traduzido por Juremir Machado da Silva, e Plataforma. Os personagens de Houellebecq são o próprio paradigma do cinismo e ilustram muito bem o que disse o autor num ensaio: “Atualmente, o valor de um ser humano é medido por sua eficácia econômica e seu potencial erótico”. Em Plataforma, o protagonista, Michel, e sua namorada resolvem implementar essa fórmula construindo na Tailândia um resort para turismo sexual. A namorada morre num ataque de terroristas muçulmanos. Michel, amargurado, confessa que, cada vez que ouve falar de palestinos baleados na faixa de Gaza – terroristas, crianças ou mulheres grávidas, não importa – sente “um arrepio de entusiasmo”. Arrepio de entusiasmo semelhante devem ter sentido alguns partidários de Le Pen. É o tipo de pessoa que está livre da perplexidade. E de muitos outros dilemas que acometem os seres humanos.




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