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O Sábio Chinês e o Bill Gates

24/04/2002 00:00

Uma historinha boba, que não sei quem me contou quando eu era criança, é aquela história do sábio chinês que sonhou ser uma borboleta. E que um dia acordou sem saber se ele era um sábio que sonhou que era uma borboleta ou se ele era uma borboleta que sonhou que era um sábio. Ou vice-versa, não lembro direito. Lembro que ouvi essa história pela primeira vez quando eu era bem pequeno, devia ter no máximo uns dez anos. E logo depois que me contaram eu fui até o quintal da casa da minha avó - quem me contou a história foi a minha avó, lembro-me agora - e eu fui até o quintal e fiquei olhando para o céu e imaginando que aquela história não tinha pé nem cabeça.



O que será que a minha avó teria querido dizer com esse negócio de borboletas e sábios chineses? Sim, porque, se você pensar bem, a história da Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, guarda uma certa coerência, além de uma grande moral: você (a Chapeuzinho) deve tomar muito cuidado com estranhos (no caso, o lobo) - lição que, se já era bastante relevante naquele tempo, hoje em dia o é muito mais. Ou a história dos três porquinhos, mostrando que a preguiça é uma coisa extremante prejudicial à saúde. Mas o que é que tem que um sábio chinês (por que chinês?) sonhou que era uma borboleta? E por que diabos ele ficou pensando que havia se transformado em uma? E que lição isso poderia trazer para a minha vida? Minha avó devia estar ficando é meio lelé, como já dizia o meu pai de vez em quando.



Bem. O tempo passou e acabei por esquecer a história do sábio chinês. Só fui lembrar-me dela muitos anos depois, já com uns dezoito anos, quando o Raul Seixas gravou um roquinho-balada cuja letra era tirada da tal fábula. A história continuava a mesma. O sábio chinês, o sonho, a borboleta e a dúvida quanto à própria identidade. Já com um pouco mais de experiência, resolvi dar uma refletida. Afinal, se um dos meus ídolos da época prestou atenção, era porque aquilo tudo deveria ter algum significado oculto, que me escapara na infância. Voltei a me retirar para um cantinho, dessa vez o meu próprio quarto. Apaguei a luz e coloquei o disco do Raul na vitrola (se é que alguém aí ainda se lembra do que significa “disco”, “vitrola” ou mesmo “Raul Seixas”). Está certo que, na voz do Raulzito, tudo aquilo parecia meio surreal, e as asas coloridas da borboleta poderiam sugerir um pouco do psicodelismo reinante na época, mas novamente fiquei a ver navios quanto à utilidade prática do diabo daquela história. Aquele chinesinho imaginando-se uma borboleta, sei lá, será que tinha alguma coisa a ver com homossexualidade? Nosso lado mulher?



Novamente o tempo passou e o sábio e a borboleta acomodaram-se em algum recanto do meu cérebro. E tudo estaria muito bem se ontem à noite eu não tivesse sonhado que era o Bill Gates. Isso mesmo, eu sonhei que era o Bill Gates, o dono da Microsoft e o homem mais rico do mundo. Eu sonhei que entrava no meu escritório, num prédio de milhares (era um sonho, puxa vida) de andares. E olhava pela janela e via o tamanho da minha propriedade. Ela se estendia até o horizonte, toda cheia de construções de cimento-armado cercadas de áreas verdes e lagos. Sentei-me na minha poltrona, aproximei-me da minha escrivaninha. Nela estava acomodado um computador com uma memória infinita e um Windows que não dava pau. Nisso, tocou uma campainha e uma porta automática abriu-se. Era a Meg Ryan, de braços estendidos, me chamando. Eu me levantei. Estiquei meus braços para ela e... e... Acordei!



Quando dei por mim, eu estava sentado na minha cama, no escuro, com os braços esticados para o nada. E a história do sábio chinês e da borboleta me voltou como um raio. Meu deus, seria eu o Artur que sonhou que era o Bill Gates, ou eu serei o Bill Gates sonhando que sou o Artur? E a Meg Ryan? E a Meg Ryan? Minha mulher já reparou nas manchas roxas no meu braço, mas não adianta. Eu só vou parar de me beliscar na hora que eu acordar como Bill Gates de novo.



Existe a possibilidade, não existe?



24 abril 2002



A primeira figura da ilustração foi criada pelo autor para esta crônica.


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