Mídia

O Sacrifício da Cidadania

09/04/2002 00:00

“Minha paz pessoal vem da consciência de que sou igual a um mendigo das ruas de Calcutá”. Essa frase não é de nenhum grande pensador ou líder espiritual, e sim do multiinstrumentista Kitaro. Quem dera mais homens pensassem assim. Quem dera toda “autoridade” da República, todo burguês, todo intelectual ou acadêmico tivesse essa “consciência” a que se refere o músico Kitaro. Certamente teríamos mais trabalho, humildade e dedicação, e menos vaidade, soberba e indigência – moral, inclusive – em nossas relações sociais.



Passei o feriado da semana santa imerso numa espécie de liturgia da arte e do espírito, lendo, meditando e assistindo a shows de Kitaro, B.B. King e Madonna em DVD. Madonna, a rainha da música pop, já cantada e decantada por Camile Paglia em seus ensaios sobre feminismo e cultura de massa. Impressionei-me com o que há de trabalho e suor nos espetáculos, e até mesmo na trajetória de vida da cantora. No palco seus músicos e bailarinos dão um show à parte. Fiquei pensando o quanto de trabalho está oculto por trás de toda aquela produção. Espetáculos assim não brotam do nada. Ali está o resultado de anos e anos de trabalho intenso e muita dedicação. O mesmo talento e dedicação pude perceber, elevado à “enésima” potência, no espetáculo do mestre do Blues, B.B. King.



Assistindo à performance de Kitaro executando a música Matsuri, fui levado a uma jornada “épica” na qual divaguei em elucubrações que me levaram de Lucy, a nossa ancestral mais remota, até os dias de hoje em que vivemos sob a égide da indústria e da técnica. O trabalho de todo artista traduz uma emoção que é lastro e essência de toda essa trajetória do homem. A arte parece ser importante peça na busca do elo perdido. É incrível como o talento de um artista pode nos dizer tantas coisas relativas a nossa civilização, sobre o sentido da vida ou sobre o nosso papel aqui na terra. O curioso é que, só muito depois de experimentar essa sensação, descobri que a palavra “matsuri”, título da música de Kitaro, tem algo a ver, na cultura japonesa, com o amor e reverência aos mortos, aos ancestrais.



Volto a esse tema do esforço e do talento como fundamentos da condição humana, pois, na semana retrasada, abordei, aqui mesmo nesse espaço, no texto “A Corrida Pelo Ouro de Tolo”, a questão dos jovens que pretendem alcançar a fama e o dinheiro a qualquer preço. Todos iludidos pela propaganda e pela indústria cultural que “vende” uma ilusão de vida fácil. E a vida, como se sabe, não é nada fácil.



A esse respeito, vem-me à cabeça o exemplo do jovem de vinte e poucos anos que seqüestrou a filha do comunicador e empresário Silvio Santos – por ironia, o mesmo Sílvio Santos que fez fortuna acalentando e explorando esses mesmos anseios e paixões dos mais humildes. Fernando Dutra Pinto é um bom exemplo do jovem atraído pelo ideal de “vida fácil”. Fernando era um garoto de classe média baixa que trabalhou como balconista em alguns locais, mas que não se conformava com o excesso de trabalho e a baixa remuneração que essas atividades lhe propiciavam. Tentou até se equilibrar nas estreitas tábuas da religião. Como a maioria das pessoas de baixa renda neste país, tentou ser evangélico – uma religião que, de certa forma, legitima e sacraliza a ambição e o arrivismo. Dutra Pinto tinha ambições legítimas e achava “revoltante” não poder ter acesso às coisas que fazem a cabeça da juventude e são vendidas nas sedutoras propagandas da TV: tênis e roupas “de marca”, aparelhos de som de última geração, carrões e bares da moda. Ele foi atrás da “vida fácil” e do “glamour” da vida bandida. Triste ilusão. Triste fim.




Trabalho numa empresa que dá oportunidade de aprendizado laboral a menores infratores dentro de um projeto de ressocialização através da educação pelo trabalho e, por isso, tenho contato direto com muitos jovens que se iniciaram na vida de crimes. Quase todos são apenas garotos assustados e desorientados, pois relegados ao esquecimento. Rapazes que nunca tiveram uma oportunidade de mostrar seus talentos e capacidades. Alguns se entregam com entusiasmo e dedicação ao aprendizado de um novo trabalho, de uma nova “filosofia” de vida calcada naquela velha máxima: “ganharás o pão com o suor do teu rosto”. Emprego e remuneração condigna são a base da cidadania. De forma suave e brincalhona sempre alerto os meninos: “A vida é dura, nada cai do céu. Do céu só cai chuva e cocô de pombo”.



A vida é dura e a realidade é cruel. A vida e seus chavões impiedosos. Vez em quando, um dos meninos volta a delinqüir e retorna para o regime fechado, ou seja, para a prisão. Talvez porque uma vida miserável já tenha deixado suas feridas e cicatrizes que não fecham, e já seja tarde demais para fazer o duro caminho de volta. Talvez porque a vida simples de um trabalhador seja destituída de todo e qualquer “glamour” ou aventura. Talvez porque o nosso “sistema” injusto remunere porcamente o trabalhador. Talvez porque a vida é feita assim mesmo de mocinhos e bandidos. Mas quem será o mocinho e o bandido dessa história? São várias as possíveis causas e culpas. Até quando vamos tolerar esse simulacro de capitalismo em que vivemos e que gera tanta injustiça e iniqüidade?



Vem-me à mente agora a imagem de oito meninos abandonados deitados ao relento na sarjeta em frente a agência do Banco do Brasil no centro de São Paulo. Sinto a pena e a culpa dos transeuntes que passam, em sua rotina diária, rumo aos seus empregos.



Lembro-me também dos jovens que batalham e suam a camisa no seu dia-a-dia. Não aqueles que sonham em ser “artista”, pagodeiro ou jogador de futebol famoso, influenciado pela propaganda enganosa, mas aqueles que trabalham o dia inteiro e ainda estudam à noite. Aqueles que batalham, com todas suas forças e energias, por um lugar ao sol. Como os jovens que fazem o Cursinho da Poli lá perto de casa, por exemplo.



Esses jovens me comovem em sua batalha diária. Aqueles que, a despeito de toda corrupção dos valores, da imoralidade das elites políticas e da pilhagem de certa burguesia irresponsável e egoísta; a despeito da “vidinha” besta e bosta das celebridades e dos instantâneos da fama propagandeados pela mídia e pela indústria cultural, sabem que o êxito deve ser fruto do esforço pessoal e dedicado, e conseqüência de muito trabalho – como se pode notar vendo o trabalho de célebres artistas como Kitaro, B. B. King e Madonna. Mas que também se observa na dura carpintaria de um operário. Do céu só cai chuva e cocô de passarinho, meu caro. Aos que se debruçam na janela e esperam a banda passar e aos entusiastas da lei do mínimo esforço, aconselho esperar confortavelmente sentado e comprar uma boa capa para quando resolverem sair à luta: tem chovido “canivetes” ultimamente.



09/04/02



Passe o mouse sobre a ilustração.








Conteúdo Relacionado