Mídia

O algoritmo do Facebook foi ajustado para apaziguar a direita

A plataforma ajustou seu código para ajudar editores de direita e sufocar sites como o Mother Jones, nos informam ex-funcionários da empresa

23/10/2020 11:59

(Ilustração de Mother Jones/Imago/Zuma/Getty)

Créditos da foto: (Ilustração de Mother Jones/Imago/Zuma/Getty)

 
Perto do fechamento do primeiro ano da presidência de Trump, executivos do Facebook foram informados sobre algumas mudanças importantes em seu feed de notícias - o código que determina quais dos zilhões de postagens na plataforma são mostradas a qualquer um de nós quando navegamos pelo Facebook. A história que a empresa contou publicamente é que ela estava trabalhando para “aproximar as pessoas”, mostrando-nos mais postagens de amigos e familiares, e para priorizar fontes de notícias “confiáveis” e “informativas”. As mudanças também reduziriam a quantidade de notícias que a maioria das pessoas vê e, portanto, diminuiriam a receita de muitos editores.

O que não era conhecido publicamente, até agora, é que o Facebook realmente fez experimentos para ver como as mudanças afetariam os editores - e quando descobriu que algumas das alterações teriam um impacto dramático no alcance dos “sites lixo” de direita, como qualifica um ex-funcionário com conhecimento das conversas, os engenheiros foram mandados de volta ao trabalho para amenizar esses impactos. Eles voltaram em janeiro de 2018 com uma segunda versão que provocava danos às organizações de notícias de tendência progressista, conforme noticiou o Wall Street Journal na sexta-feira (16).

Na verdade, agora fomos informados que os executivos viram até mesmo uma apresentação de slides que destacava o impacto da segunda iteração em cerca de uma dúzia de editores específicos – e a revista Mother Jones foi apontada como aquela que sofreria, enquanto o site conservador do Daily Wire foi identificado como aquele que se beneficiaria. Essas mudanças foram resultado de pressão de operadores republicanos que trabalhavam no escritório do Facebook, em Washington, sob o vice-presidente de Política Pública Global, Joel Kaplan, (que mais tarde ganhou as manchetes por apoiar abertamente seu amigo Brett Kavanaugh durante as audiências de confirmação à Suprema Corte).

Ao pedido de comentário, a porta-voz do Facebook Andy Stone disse apenas: “não fizemos alterações com a intenção de impactar editores individuais. Só fizemos atualizações depois que elas foram analisadas por muitas equipes diferentes em muitas disciplinas para garantir que a justificativa fosse clara e consistente e pudesse ser explicada a todos os editores”.

O Facebook usou seu poder monopolístico para impulsionar e suprimir o conteúdo de editores específicos - a essência de todo medo que temos das plataformas atuarem como ‘Big Brother’

Maquiado por essa resposta sem resposta do Facebook, está o fato de que as mudanças foram feitas com pelo menos o conhecimento do impacto discrepante que teriam em editores específicos. E que essas mudanças parecem ter sido baseadas, pelo menos em parte, em interesses partidários internos.

Stone não quis falar nada sobre a apresentação de slides. Mas, de acordo com alguém que a assistiu, ela continha gráficos de barras indicando o alcance que várias organizações de notícias ganhariam ou perderiam com o algoritmo renovado. Um gráfico mostrava o Daily Wire, um site dirigido pelo analista conservador Ben Shapiro, que rotineiramente compartilha afirmações falsas e ideias malignas (ser transgênero é uma "delírio", aqueles que executam abortos são "assassinos", a deputada americana Rashida Tlaib, democrata de Michigan, não é “leal à América”). Outro gráfico mostrava a revista Mother Jones, cujo trabalho investigativo rigorosamente verificado recebeu muitos dos maiores prêmios do jornalismo, incluindo - poucos meses antes daquela apresentação no Facebook - ser homenageado como Revista do Ano na versão do Oscar do nosso setor.

Permita-nos fazer uma breve pausa enquanto gritamos pela janela. Esse tipo de falsa equivalência é irritante o suficiente quando eruditos preguiçosos o fazem. Mas quando a mais poderosa empresa de mídia do mundo o usa como base para decidir quais informações os usuários devem ou não ver, é mais do que isso. É um ataque à sua capacidade de se manter informado. É um ataque à democracia.

Para ser perfeitamente claro: o Facebook usou seu poder monopolista para impulsionar e suprimir o conteúdo de editores específicos - a essência de todo medo que temos das plataformas atuarem como ‘Big Brother’, e algo que o Facebook e outras empresas vêm negando veementemente há anos.

Ironicamente, é também o que os conservadores têm consistentemente acusado o Facebook de fazer a eles, com o efeito perverso, mas inteiramente intencional, de fazer com que ele se incline de volta para eles. Na última quinta-feira, Shapiro do Daily Wire investiu contra o Twitter e o Facebook, por suprimir uma história amplamente desacreditada do New York Post sobre Hunter Biden: “as empresas de mídia social têm tanto medo dos democratas que farão voluntariamente o que eles querem para que não venham atrás deles. Esta é uma rotina de chantagem dos democratas contra as redes sociais.” Ele chama isso de "trabalho interno" no Facebook e no Twitter, no qual "os principais democratas desses lugares decidem que é hora de proibir as matérias".

Substitua “democratas” por “republicanos” nos comentários de Shapiro - que também é um dos luminares conservadores que Zuckerberg convidou para suas sessões de bate-papo de horas de duração em sua casa - e você terá exatamente o que parece ter acontecido em janeiro de 2018.

“O problema era que os canais progressistas eram verdadeiros canais [de notícias] como o seu e os de direita eram canais de lixo. Vocês foram um dos escolhidos para equilibrar o balanço.”

Então, por que o Facebook estava mudando o algoritmo? Na esteira das eleições de 2016, ela vinha lutando contra a reação negativa por conta de seu papel na ampliação da desinformação política e da propaganda, externa e interna. Mas o problema que realmente preocupava seus executivos era este: as pessoas estavam se afastando de seus produtos. Depois de mais de um ano de discussões acaloradas e muitas vezes tóxicas, o engajamento das pessoas no Facebook estava caindo.

No final de 2017, Zuckerberg disse a seus engenheiros e cientistas de dados para projetar “mudanças de classificação” algorítmicas que reduziriam a temperatura. Uma ferramenta para isso foi priorizar o que o Facebook chamou de “interações sociais significativas” entre os usuários. Outra foi dar prioridade às fontes de notícias que as pesquisas de usuários do Facebook consideravam confiáveis e informativas.

Mas, diz o ex-funcionário do Facebook, havia um obstáculo: Todos sabiam que a maior parte do “lixo” indigno de confiança no Facebook, quando se tratava de política, originava-se de sites “conservadores / conspiratórios”. E enquanto o Facebook estava sob fogo da direita e da esquerda, sua principal preocupação - agora que os republicanos tinham poder regulador em Washington - era "tirar Trump de suas costas".

Os conservadores foram muito eficazes em trabalhar os árbitros acusando as plataformas de parcialidade liberal, especialmente depois de um incidente amplamente divulgado em 2016, no qual os moderadores da plataforma foram acusados de suprimir conteúdo pró-Trump. Depois disso, disse um ex-funcionário que trabalhava no feed de notícias, ficou claro que “não podemos fazer uma mudança de classificação que prejudique o site Breitbart - mesmo que essa mudança torne o feed de notícias melhor”. (Breitbart News, onde Steve Bannon ainda era presidente executivo, parece ter sido uma obsessão particular.)

O mesmo ocorre com as mudanças de janeiro de 2018: “Lobistas republicanos no escritório de Washimgton disseram: 'esperem, como isso vai afetar o site Breitbart?'”, lembra outro ex-funcionário. Os testes mostraram que as alterações propostas consumiriam uma “grande fatia” do Breitbart, do Gateway Pundit, do Daily Wire e do Daily Caller. Houve “um enorme retrocesso. Eles surtaram e disseram: 'não podemos fazer isso.' ”

O código foi ajustado e os executivos receberam uma nova apresentação mostrando menos impacto sobre esses sites conservadores e mais danos para os editores progressistas - incluindo Mother Jones. “O problema era que os canais progressistas eram verdadeiros canais [de notícias] como o seu e os de direita eram canais de lixo. Vocês foram um dos escolhidos para equilibrar o balanço.”

Não foi a primeira vez que Kaplan se manifestou para proteger a desinformação conservadora. O Washington Post relatou que, em dezembro de 2016, os líderes seniores foram informados sobre uma investigação interna conhecida como Projeto P ('P' de propaganda), mostrando que contas de direita, a maioria delas baseadas no exterior e a maioria com "motivação financeira", estavam por trás de grande parte da desinformação viral na plataforma. Mas Kaplan se opôs à desativação dessas contas porque "afetará desproporcionalmente os conservadores".

Mais recentemente, o boletim Popular Info relatou no ano passado que sempre que sites conservadores eram acusados de violar as políticas do Facebook - como quando o Daily Wire de Shapiro supostamente criou uma rede de páginas para aumentar o tráfego - Kaplan agiu para protegê-los. (O co-CEO do Daily Wire, Jeremy Boreing, nos disse: “nós nos esforçamos para cumprir as regras em constante mudança das plataformas em que operamos, mas também somos uma organização agressiva.”) Também foi Kaplan quem em 2018 pressionou para o Daily Caller, que tem sido regularmente criticado por publicar desinformação, incluindo nus falsos da congressista Alexandria Ocasio-Cortez, ser trazido como um dos parceiros de verificação de fatos do Facebook.

De volta a janeiro de 2018. Os gráficos e slides parecem ter apaziguado Kaplan. Zuckerberg aprovou as mudanças no algoritmo. E logo, os mais de um milhão de leitores que escolheram seguir Mother Jones viram menos de nossos artigos em seus feeds. O tráfego médio do Facebook para o nosso conteúdo diminuiu 37% entre os seis meses anteriores à mudança e os seis meses seguintes.

Quanto das informações que você vê nesta plataforma poderosa são moldadas por considerações político-partidárias dentro de uma empresa obcecada em evitar regulamentações?

Mas o Daily Wire continuou a prosperar, assim como o Daily Caller, Breitbart e Fox News. Boreing diz que o Daily Wire viu “um declínio significativo inexplicável no tráfego em outubro de 2017, que começou a se recuperar em dezembro”, e que nada “pronunciado” aconteceu como resultado das mudanças de janeiro. E embora os dados de mídia social sejam notoriamente difíceis de medir, Laura Hazard Owen do Nieman Lab, usando dados da empresa de análise Newswhip, descobriu que, após as mudanças, os sites de direita viram, contrariamente, mais engajamento no Facebook. E embora não saibamos como o algoritmo evoluiu desde então, até hoje as notícias com maior engajamento no Facebook costumam vir de sites de opinião de direita. Neste verão, o Daily Wire teve o maior número de engajamentos no Facebook do que qualquer editor de língua inglesa do mundo, de acordo com a Newswhip.

Em outras palavras, por mais de dois anos, as dietas de notícias do público do Facebook foram aumentadas com conteúdo hiperconservador - conteúdo que teria alcançado muito menos pessoas se a empresa não tivesse deliberadamente ajustado os botões para mantê-lo funcionando mesmo enquanto sufocava o jornalismo independente . Para o ex-funcionário, o episódio foi emblemático das falsas equivalências e impulsos antidemocráticos que caracterizaram as ações do Facebook na era de Trump, e se tornou “uma das muitas razões pelas quais saí do Facebook”.

Quando Zuckerberg anunciou essas mudanças de algoritmo em janeiro de 2018, ele falou sobre "aproximar as pessoas" e combater o "sensacionalismo, a desinformação e a polarização". As discussões sobre como ajudar editores conservadores não foram mencionadas.

Na verdade, o Facebook parece não apenas ter omitido, mas ativamente ocultado o que estava fazendo. Vários de nós da Mother Jones estivemos em reuniões com funcionários da empresa durante esse período. Em uma conferência de jornalismo, um de nós foi levado para a suíte corporativa, recebeu uma garrafa de água com logotipo e um elogio pelo trabalho que nossa equipe fazia para compartilhar jornalismo de qualidade na plataforma. Ben Dreyfuss, que lidera nosso trabalho de mídia social, foi informado pela equipe de Parcerias de Notícias da empresa que as mudanças no algoritmo de "notícias confiáveis" não deveriam ter impacto diferente na Mother Jones do que em outros "editores de qualidade".

Quantos outros sites foram limitados da mesma forma? O ex-funcionário não se lembra dos outros editores citados no grupo, mas o site Slate, por exemplo, relatou uma queda dramática em suas referências no Facebook depois de janeiro de 2018. Joe Romm, o fundador do ThinkProgress, observou que o tráfego do site teve um "grande impacto". As mudanças afetaram veículos como o New York Times e a National Public Radio? E como isso foi feito de fato? Quais critérios foram alterados, com que amplitude e por quanto tempo? Quantas das informações que você vê nesta plataforma poderosa são moldadas por considerações político-partidárias dentro de uma empresa obcecada em evitar regulamentações?

Há um apresentação de slides por aí que pode ajudar a desbloquear algumas das respostas. Editores e reguladores precisam vê-la.

*Publicado originalmente em 'Mother Jones' | Tradução de César Locatelli

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