Mídia

O controle cibernético como arma de defesa e a disputa pela soberania da Internet

Entrevista especial com Danielle Jacon Ayres Pinto

11/09/2018 15:30

geopolitica.ru

Créditos da foto: geopolitica.ru

 

A recente visita do vice-presidente dos EUA Mike Pence e do secretário de Defesa James Mattis a alguns países da América Latina, como o Brasile o Equador, tem como finalidade “ocupar, com muita firmeza, um espaço que está sendo ocupado pela China, ainda mais com os desenvolvimentos tecnológicos que esse país tem feito nos últimos tempos e que são atrativos grandes para a região latino-americana”, avalia Danielle Jacon Ayres Pinto, secretária-executiva adjunta da Associação Brasileira de Estudos de Defesa.

Segundo ela, a principal preocupação do governo norte-americano com a China diz respeito ao seu avanço tecnológico e é por essa razão que o secretário de Defesa dos EUA veio ao Brasil para “falar de defesa cibernética”. “Isso está, de alguma forma, diretamente relacionado com a ideia de os Estados Unidos terem que providenciar novas armas para enfrentar a ameaça chinesa”, diz. Na entrevista a seguir, concedida por WhatsApp à IHU On-Line, Danielle explica que a ameaça chinesa aos EUA não é bélica, mas, ao contrário, cibernética, por conta da capacidade tecnológica do país. “Mesmo que os EUA tenham milhões de ogivas nucleares, nunca serão capazes de evitar que um vírus possa atacar seus sistemas e colocar em colapso uma série de infraestruturas críticas do seu Estado. É por isso que esse tema entra na agenda, porque os EUA estão começando cada vez mais a trabalhar e atentar para isso, com um rigor e uma tensão maior”, comenta.

Danielle informa ainda que a China está tentando se tornar “independente” do controle norte-americano da Internet e que “tem grandes possibilidades de tirar o centro de controle da Internet dos norte-americanos, porque criou um planejamento estratégico para isso. “A China tem muito mais interesse em se tornar independente também nessa área, assim como se tornou independente nas áreas da economia e da educação. A China está construindo suas próprias bases de controle da Internet e de construção de um modelo”, relata. Se os chineses tiverem êxito nessa empreitada, frisa, “internacionalmente isso pode ser uma alternativa para países como o Brasil terem cada vez mais segurança da sua rede frente a um inimigo específico, ou seja, poder aumentar o grau de barganha. Todavia, usando um modelo ou o outro, todos os países restantes estariam submetidos ou à lógica estadunidense ou à chinesa. Poderiam estar sempre à mercê de um Estado ou de outro”. Além de a China poder se apresentar como uma alternativa ao controle da Internet, se essa possibilidade se concretizar, também terá como consequência o aumento do controle sobre a sua população e, adverte, “talvez esse seja o debate central, visto que o modelo dos EUA e o modelo da China têm diferenças enquanto modelos diferentes de controle, de liberdades e de privacidade”.

Danielle Jacon Ayres Pinto é bacharel e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Coimbra, Portugal, e doutora em Ciência Política pela Universidade de Campinas - Unicamp. Atualmente é professora adjunta do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, coordenadora do Grupo de Ensino, Extensão e Pesquisa em Política Internacional Contemporânea - GEPPIC.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – No mês de junho Mike Pence [1] veio ao Brasil, Equador e Guatemala. Agora o secretário de Defesa [2] faz uma "visita cortesia" ao Brasil, Argentina, Chile e Colômbia. Quais são as intenções dos EUA no seu giro pelo continente?

Danielle Jacon Ayres Pinto – Não me parece que os EUA tenham necessariamente um interesse específico de manutenção de poder na América Latina, mas, sim, que querem, com a vinda de Mike Pence e James Mattis, mostrar que estão atentos principalmente à questão da Venezuela e em como isso pode virar um problema para a região. Os EUA não têm a intenção de deixar um problema acontecer, pois isso poderia gerar um espaço de influência de outros atores internacionais na região, principalmente da China — e isso não tem a ver com a questão geopolítica, mas com a comercial.

As visitas são interessantes porque são a países que estão tomando um caminho à direita, e que tenderiam a estar mais próximos das políticas praticadas por Donald Trump. Esses países são os expoentes do continente: Brasil, Argentina e Chile, e a Colômbia é o grande parceiro dos EUA na América do Sul.

Em resumo, as visitas foram para garantir sua efetiva presença física nesse espaço, dando o “ar da graça” para esses países, dizendo que estão preocupados com os problemas de segurança no continente e com as questões que estão sendo levantadas na Venezuela.

IHU On-Line – O secretário James Mattis disse que o interesse na base de Alcântara não é "por um mero acidente geográfico", mas porque "somos todos americanos e compartilhamos de valores políticos". É possível dizer que há uma ameaça chinesa para uma das premissas que guia a política externa estadunidense a quase dois séculos, "América para os americanos"?

Danielle Jacon Ayres Pinto – Essa é uma questão antiga. Os EUA sempre desejaram ocupar a base por dois motivos especiais. Primeiro, porque isso diminuiria drasticamente os custos para lançamento de satélites e outros tipos de lançamentos espaciais. Então uma proximidade da base com a linha do Equador seria essencial para diminuir os custos, que são muito elevados. O segundo motivo é continuar com o paradigma de ser a influência na região, porque está claro que a China pode se tornar esse paradigma. Esse segundo aspecto é manifestado no discurso de James Mattis, quando fez o pronunciamento na Escola Superior de Guerra no Rio de Janeiro: o conteúdo foi muito cooperativo, calcado em valores americanos, em laços de cooperação, ou seja, em nenhum tipo de domínio e interesse que não seja o de desenvolver o Brasil. No seu pronunciamento, Mattis disse que os EUA não querem o Brasil por causa da sua base, mas porque o Brasil é o Brasil. É uma retórica muito boa, mas não é, de forma alguma — e o ministro [Joaquim] Silva e Luna [3] deixa isso claro —, altruísta. É na verdade uma necessidade de ocupar, com muita firmeza, um espaço que está sendo ocupado pela China, ainda mais com os desenvolvimentos tecnológicos que esse país tem feito nos últimos tempos e que são atrativos grandes para a região latino-americana.

Então para responder à pergunta de se há uma ameaça chinesa para as premissas de quase dois séculos da política externa estadunidense para a América Latina, diria que a resposta é sim, claramente. Mas a China não tem intenção de substituir os EUA na região nos mesmos moldes que os EUA influenciam a região. A China quer muito mais um mercado capaz de produzir e comprar seus produtos, onde possa produzir e servir como mercado consumidor, em vez de ser uma influência do ponto de vista valorativo. Talvez isso possa prejudicar de alguma forma o embate dos EUA, já que é muito difícil para os EUA demonstrar constantemente para a América Latina, ou para a América do Sul, que seus valores são realmente de cooperação, e não de coerção e dominação.

IHU On-Line – Segundo o Ministério das Relações Exteriores – MRE, uma das pautas do encontro foi a segurança cibernética. O que configura esse conceito?

Danielle Jacon Ayres Pinto – Há uma diferenciação grande entre segurança e defesa cibernética: a primeira tem uma ligação com o setor privado, civil, que diz respeito a ameaças e consequências; a segunda tem mais a ver com defesa, soberania territorial, com as questões de Estado.

O que o secretário de Defesa dos EUA veio fazer aqui foi falar de defesa cibernética e isso está, de alguma forma, diretamente relacionado com a ideia de os EUA terem que providenciar novas armas para enfrentar a ameaça chinesa. Isso porque a ameaça chinesa em momento nenhum se coloca com coerção, tanques, guerras, armas, e sim com uma capacidade tecnológica inovativa imensa, se tornando talvez um novo expoente desses recursos digitais e tecnológicos. Essas podem se tornar armas de defesa cibernética, pois mesmo que os EUA tenham milhões de ogivas nucleares, nunca serão capazes de evitar que um vírus possa atacar seus sistemas e colocar em colapso uma série de infraestruturas críticas do seu Estado. É por isso que esse tema entra na agenda, porque os EUA estão começando cada vez mais a trabalhar e atentar para isso, com um rigor e uma tensão maior.

IHU On-Line – O escândalo de espionagem sobre o governo Dilma credencia os EUA a construir políticas sobre essa questão? Há brecha para questionar a legitimidade do MRE e da Defesa em aceitar a continuidade desse diálogo?

Danielle Jacon Ayres Pinto – Não só nessa área, nesse momento, ou naquele episódio de espionagem contra o governo Dilma, mas em vários momentos os EUA falam uma coisa e fazem outra. Isso gera uma constante descrença por parte dos seus parceiros latino-americanossobre as reais intenções dos EUA na região. Um contínuo comportamento dos EUA faz com que isso cause, de alguma forma, um certo medo. Todavia, não podemos esquecer que o atual governo do Brasil tem uma tendência a se aproximar mais desse polo de poder mundial dos EUA. Então, a tendência é que ele legitime esse diálogo, talvez não pela necessidade do avanço nessa área de proteção cibernética, segurança e defesa cibernética, mas pela necessidade de se autolegitimar como governo, contando com o apoio de potências centrais do sistema.

IHU On-Line – De que maneira a China ameaça o smartpower estadunidense na relação com a América Latina?

Danielle Jacon Ayres Pinto – Os EUA, antes de entender a China como uma ameaça, precisam entender que sua própria institucionalidade interna, atual, é uma ameaça para qualquer ação de smartpowerestadunidense no mundo.

A ascensão de Donald Trump e uma retórica cada vez mais de afrontamento internacional destroem qualquer tipo de possibilidade de utilização de uma política de smart, ou seja, que tem por objetivo construir cooperação e identidades em vez de embates. Como os EUAacabam tendo esse problema interno, é óbvio que a China acaba de alguma forma ocupando esse espaço. E a China é, por tradição, muito mais softpower nesses espaços, como no espaço latino-americano.

Nessa dinâmica, como a China quer promover identidades e, para fazer isso, usa como recursos um caminho cooperativo de crescimento, de inovação, de troca de tecnologia dual, ela acaba — não por intenção declarada — sendo uma ameaça séria aos EUA e ao seu smartpower na região. Mas a grande ameaça é mesmo a institucionalidade interna dos EUA com a eleição de Donald Trump e tudo que ele representa para essa temática de influência internacional do país no momento atual.

IHU On-Line – Existe alguma política de segurança cibernética entre os países da América do Sul?

Danielle Jacon Ayres Pinto – O que existe na verdade são alguns exercícios e acordos de cooperação, ainda mais porque a ideia de defesa cibernética aparece, em documentos da União de Nações Sul-Americanas - Unasul e em documentos nacionais de alguns países da região, como sendo uma área da qual eles passarão a ter mais atenção e securitizarão suas políticas de defesa e segurança. Então, não existe uma política coordenada nessa área, mas há cada vez mais um interesse em trabalhar com ela, a partir de uma percepção de que ela é importante. Em relação à segurança cibernética, as empresas privadas acabam tendo contato e cooperação entre si, e isso promove de alguma forma uma interação, mas não uma política efetiva entre os países.

IHU On-Line – Neste mês a revista Foreign Affairs publicou um artigo intitulado "When China rules the Web", de Adam Segal. Qual a possibilidade de a Internet descentralizar dos EUA? Como seria uma "ordem bipolar da web"?

Danielle Jacon Ayres Pinto – O que a China está tentando fazer é tornar-se independente do controle dos EUA frente a essa ferramenta digital chamada Internet. Os controles de DNS e IP, e a maneira de acessar tudo, estão centralizados pelo Ican nos EUA, nas suas bases em Virgínia e na Califórnia. Isso, de alguma forma, atrapalha e dá aos EUA a capacidade de paralisar tudo, caso haja uma intenção securitária.

Então, a China tem muito mais interesse em se tornar independente também nessa área, assim como se tornou independente nas áreas da economia e da educação. A China está construindo suas próprias bases de controle da Internet e de construção de um modelo. Então em vez de digitar www, futuramente vamos digitar outra coisa qualquer. Internacionalmente isso pode ser uma alternativa para países como o Brasil terem cada vez mais segurança da sua rede frente a um inimigo específico, ou seja, poder aumentar o grau de barganha. Todavia, usando um modelo ou o outro, todos os países restantes estariam submetidos ou à lógica estadunidense ou à chinesa. Poderiam estar sempre à mercê de um Estado ou de outro.

Assim, com essa possível ordem bipolar, se esse for o novo recurso de poder e se, supostamente — considerando o que falava Kenneth Waltz—, dois polos de poder fossem mais fáceis de se coordenar do que múltiplos polos, talvez até tivéssemos um mundo mais pacífico. Entretanto, apesar de esse ser um recurso de poder muito grande, e existirem outros recursos digitais, está longe de ser uma arma principal, efetiva, do sistema internacional.

A China tem grandes possibilidades de tirar o centro de controle da Internet dos EUA, mas não só a possibilidade, porque criou um planejamento estratégico para isso. Se isso acontecer, teremos duas consequências importantes: primeiro, internacionalmente se criará uma nova alternativa e, segundo, isso aumentará o controle sobre a sua população, e talvez esse seja o debate central, visto que o modelo dos EUA e o modelo da China têm diferenças enquanto modelos de controle, de liberdades e de privacidade.

Mas, falando de Internet, é sempre muito difícil de prever os resultados. Mas se um dia esse recurso se tornar central na ameaça e coerção dos países, e os dois forem os centros de poder, então faz sentido que tenhamos um mundo mais pacífico e fácil de governar. Isso porque dois polos conversando, se entendendo ou criando políticas para evitar o colapso, é muito mais fácil de se entenderem do que vários polos.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Danielle Jacon Ayres Pinto – Tanto países como a China e a Rússiaquanto países menores, como a Coreia do Norte, entenderam que as armas são essenciais para a defesa — é bom ter um míssil, um plano de armas nucleares —, mas hoje investem pesado em desenvolvimento de tecnologia cibernética, para defesa cibernética.

Notas:

[1] Michael Richard Pence (07-09-1959): Político estadunidense, atual vice-presidente dos Estados Unidos e, por consequência, Presidente do Senado dos Estados Unidos. Membro do Partido Republicano, serviu anteriormente na Câmara dos Representantes de 2001 até 2013 e foi o 50º governador de Indiana entre 2013 e 2017. Pence é conservador e apoiador do movimento Tea Party. (Nota da IHU On-Line)

[2] James Norman Mattis (08-09-1950):  26º Secretário de Defesa dos Estados Unidos e general aposentado do Corpo de Fuzileiros Navais. Foi chefe do Comando Central das forças armadas, sendo responsável pelas operações militares americanas no Oriente Médio, no norte da África e na Ásia Central, de agosto de 2010 até março de 2013 e Chefe do Comando das Forças Conjuntas dos Estados Unidos entre 2007 e 2010, ao mesmo tempo servindo como Comandante Aliado Supremo de Transformação da OTAN de 2007 a 2009. Mattis foi confirmado pelo Senado dos Estados Unidos para a posição de Secretário de Defesa, sendo empossado em 20 de janeiro de 2017, no gabinete do presidente Donald Trump. (Nota da IHU On-Line)

[3] Joaquim Silva e Luna (10-12-1949): General de Exército da reserva do Exército Brasileiro e o atual ministro da Defesa do país. (Nota da IHU On-Line)

Edição de Patricia Fachin

*Publicado originalmente na IHU On-Line


Conteúdo Relacionado