Mídia

O jogo combinado da Lava Jato

Do livro ''Relações Obscenas'', que reúne artigos que analisam os principais pontos revelados, até o momento, sobre a série de reportagens #VazaJato, publicada pelo The Intercept Brasil, em parceria com outros veículos de comunicação

09/10/2019 10:58

 

 
Ao publicarem as conversas entre juiz e procuradores envolvidos na chamada operação Lava Jato, os meios de comunicação fizeram questão de atestar a sua autenticidade. Para isso se valeram do reconhecimento de que havia, entre as mensagens reveladas, contatos entre os jornalistas e as autoridades de Curitiba, todas corretas, sem qualquer sinal de manipulação.

Essa constatação derruba as tentativas daqueles que foram flagrados em comportamentos escusos de desqualificar a autenticidade do que foi revelado. Um ponto, sem dúvida, positivo. Por outro lado, no entanto, mostra também um relacionamento assíduo entre jornalistas e lavajatistas que necessita ser avaliado com maior cuidado.

Ao que tudo indica, pelo que se conhece desses cinco anos de Lava Jato, as versões de seus integrantes sobre operações policiais, depoimentos de réus e testemunhas, delações premiadas, condenações e prisões nunca receberam da mídia um olhar mais crítico. Preponderavam as versões das fontes responsáveis pela condução dos trabalhos. Em muitos momentos a mídia se comportava como se fosse simples porta voz da Lava Jato, ou sua assessoria de imprensa. O “outro lado” quando existia, não passava, na maioria das vezes, de um expediente burocrático.

A formação de uma organização composta de juízes de primeira e segunda instância, ministros do Supremo Tribunal Federal e integrantes do Ministério Público voltada para fins políticos passou longe das lentes jornalísticas. Foi preciso a ação de um veículo do que podemos chamar de “nova mídia” para colocar uma luz sobre aqueles fatos.

Os repórteres dos meios tradicionais que falavam com os membros da organização e os editores que transformavam as declarações deles em manchetes de primeira página ou em longos e detalhados informes na TV não perceberam que, do ponto de vista jornalístico, havia uma grande matéria na frente dos seus olhos? Ou não quiseram ver? Com isso sonegaram da sociedade brasileira informações decisivas que poderiam ter minimizado os efeitos deletérios impostos pela organização de Curitiba ao país.

Mais uma vez ocorreu um apagão midiático rompido apenas quando o The Intercept Brasil entrou no jogo. A já combalida credibilidade dos meios tradicionais de comunicação agravou-se. Alguns, na ânsia da sobreviver, tentam se “reposicionar no mercado”, expressão cara aos adoradores do deus mercado. Para isso abrem espaço para as revelações do The Intercept Brasil, numa tentativa desesperada de resgatar um pouco da credibilidade perdida nos últimos anos, especialmente a partir dos governos Lula e Dilma.

As Organizações Globo, no entanto, continuam impermeáveis a esse processo, negando todas as evidências e esquecendo o jornalismo. Nem mesmo a autenticidade das mensagens comprovadas pelos seus concorrentes as comovem. Jogam um jogo perigoso, apostando especialmente na liderança do seu noticiário televisivo. Resta saber até quando será possível manter-se tão distante da realidade, fazendo da informação ficção.

Estas são as evidências mais recentes de um processo histórico do qual a mídia tornou-se, ao longo do tempo, um agente estrutural. Sem ela, a operação não alcançaria tão alto grau de popularidade e apoio, obscurecendo o fato de ter sido parte, talvez a mais importante, do projeto de destruição da soberania nacional brasileira.

Tornou-se inconcebível para os Estados Unidos, a potência econômica ocidental, ter em sua esfera de controle geopolítico um país que não se se submeta aos seus interesses estratégicos globais. Vizinhos incômodos não são aceitos e o Brasil era um deles.

Numa versão contemporânea das tradicionais ocupações militares do século 20 na América Latina, até então o mecanismo de controle usado com frequência, construiu-se uma nova forma de ataque às soberanias nacionais combinando ações políticas, jurídicas e culturais, com forte sustentação midiática. É o que alguns pesquisadores chamam de “guerra híbrida”.

Nela os meios de comunicação tornam-se estruturais. São eles que proporcionam a adesão interna da população dos países-alvo dos projetos de dominação externa. Políticas de corte neoliberal, elaboradas em laboratórios acadêmicos e políticos situados nos países centrais do capitalismo, são implementadas na periferia do sistema e recebem o apoio de setores da sociedade que são por elas altamente prejudicados. O caso da destruição da Previdência Social é o mais recente e trágico exemplo no Brasil.

Para o plano dar certo é necessário criar um inimigo a ser combatido para o bem geral de todos e jogar contra ele as forças de pressão necessárias para enfrentá-lo. Em tempos anteriores, o inimigo simbólico escolhido para justificar os ataques era formado pela combinação dos fantasmas representados pela corrupção e pelo comunismo. Com o fim da União Soviética e o desmantelamento do campo socialista o segundo argumento perdeu o sentido.

Foi preciso, para compensar essa perda, fazer crescer o argumento que sobrou. A corrupção foi alçada ao posto de inimigo público número um dos povos latino-americanos. Mas isso era insuficiente para os objetivos do projeto político. Era necessário associar a corrupção aos grupos sociais que davam sustentação aos governos populares. Esses eram os alvos finais de toda a operação.

O fantasma do comunismo do século 20 foi substituído, no caso brasileiro, pelo petismo. Desde a chegada do partido ao poder, em 2003, as operações para desgastá-lo foram intensas, começando com o chamado “mensalão”, termo de forte apelo midiático. A Folha de S. Paulo chegou a criar uma marca para identificar com essa palavra as páginas onde matérias sobre o assunto eram publicadas. Não fosse a popularidade do presidente Lula e o início da implantação de políticas públicas de forte caráter social o golpe teria sido muito mais prematuro.

A novidade das ações golpistas do século 21 em relação às anteriores está no papel protagonista do Judiciário. Sua relação com a mídia nunca havia sido tão intensa. O momento crucial dessa aproximação foi a presença do juiz de primeira instância Sergio Moro à frente do processo que ficou conhecido como Lava Jato. Em artigo acadêmico publicado em 2004 ele faz referências positivas à operação Manni Pulite, da Itália, ressaltando os vazamentos imediatos de delações aos jornais e revistas, procedimento que ele seguiria à risca aqui no Brasil. Destaca também a necessidade do apoio da opinião pública à operação, obtido através da mídia, para intimidar possíveis investigados.

Os meios de comunicação no Brasil curvaram-se sem pestanejar às pretensões do juiz. Deixaram de lado o jornalismo para embarcar numa cruzada moralista com consequências trágicas para sua reputação e credibilidade. Resta saber se a guinada atual de alguns desses meios, associando-se às revelações do The Intercept Brasil, será suficiente para resgatar o respeito e a confiança fortemente abalados.

Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor aposentado de Jornalismo da ECA-USP.

*Publicado originalmente no Jornal GGN



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