Mídia

O que as vozes das derrotas nos dizem

31/05/2005 00:00

Marco Aurélio Weissheimer

“Há quem diga que eu dormi de touca

Que eu perdi a boca

Que eu fugi da briga

Que eu caí do galho e que não vi saída

Que eu morri de medo quando o pau quebrou”

(Sérgio Sampaio, Eu quero é botar meu bloco na rua)



O filme Cabra Cega, do cineasta Toni Venturi, merece ser visto por várias razões. Esse artigo pretende tratar apenas de uma delas: o tema da derrota. Segundo o diretor, o filme trata da história dos derrotados e pretende apresentar uma outra leitura sobre eventos da ditadura militar no Brasil, uma leitura “que se contrapõe à história oficial, que prefere apagar o período de nossa memória em vez de refletir sobre ele”, nas palavras do próprio Venturi. Durante um debate realizado em Porto Alegre, após uma exibição especial de Cabra Cega, o diretor relatou trechos de conversas que teve com Carlos Eugênio Paz, codinome Clemente, o único dirigente da Aliança Libertadora Nacional (ALN) que não foi morto ou preso durante a ditadura. Em uma dessas conversas, Carlos Eugênio disse a Venturi que os militantes que partiram para a luta armada contra a ditadura estavam preparados para vencer ou para morrer, mas não estavam preparados para perder e sobreviver.



Sentado ao lado do cineasta, Flavio Koutzii, deputado estadual do PT no RS, que participou da luta armada e ficou preso de 1975 a 1979, na Argentina, concordou acenando com a cabeça. Sobreviver à derrota não é uma tarefa fácil. As derrotas povoam a imaginação e a vida de fantasmas, dúvidas e angústias. Será que a história dessas derrotas tem algo a nos ensinar? Para além da questão do resgate da memória, ela diz algo sobre nosso presente e futuro? O filme de Venturi não se aventura explicitamente por esse terreno, mas traz elementos que permitem explorá-lo. No debate que se seguiu à exibição do filme, várias pessoas lamentaram e denunciaram o desprezo pela memória cultivado no Brasil. Isso é um fato, particularmente no caso da ditadura militar, cujos arquivos ainda são cercados com temor, como se o que fosse sair dali pudesse provocar um trauma nacional. No entanto, mesmo com essa barreira, a memória e a voz dos derrotados mostra uma força poderosa toda vez que vem à tona, como ocorre em Cabra Cega.



Os perdedores e a saída do inferno


No filme Nossa Música (2004), o cineasta francês Jean-Luc Godard diz que os perdedores são o único veículo de saída do inferno. Definindo o inferno como a ausência do outro, ele nos diz ainda que os vencedores estão enredados nas ficções que constroem para cantar e louvar seus êxitos, não enxergando nada além de suas construções simbólicas. Pensando no caso da ditadura militar brasileira, a crônica dos vitoriosos tratou de falar do milagre brasileiro, da ação criminosa de jovens subversivos, da pátria amada idolatrada salve, salve. Os militares, aliados com as elites conservadoras e reacionárias do país, derrotaram a esquerda que optou pela via armada. Essa derrota veio acompanhada de muitas mortes, dores, sofrimentos e exílios. Cabra Cega conta um pequeno, mas representativo, episódio dessa história. No entanto, se olharmos para a produção cultural daquele período, constatamos que a voz dos derrotados ainda ecoa com muita força no presente. Já os discursos e hinos patrióticos dos vitoriosos...



Pode-se contra-argumentar, é claro, que a vitória simbólica dos apoiadores do golpe de 1964 deu-se em outro registro, através da consolidação de um outro modelo de sociedade, uma sociedade que saiu da ditadura mais urbanizada e integrada ao sistema capitalista internacional. Aos contestadores derrotados pelo regime, só restaram mesmo algumas manifestações culturais de protesto, uma espécie de espernear simbólico. No entanto, esse espernear parece penetrar o presente com uma força renovada. A trilha sonora de Cabra Cega é um exemplo disso. Roda Viva, de Chico Buarque, e Eu quero é botar meu bloco na rua, de Sérgio Sampaio, são dois hinos daquele período, mas escutá-los em 2005 adquire um novo valor que vai muito além de qualquer sentimento nostálgico. “Tem dias que a gente se sente/Como quem partiu ou morreu/A gente estancou de repente/Ou foi o mundo então que cresceu/A gente quer ter voz ativa/No nosso destino mandar/Mas eis que chega a roda viva/E carrega o destino prá lá”. Por que essa letra, um “hino de perdedores”, continua ecoando e significando em nossos ouvidos?



Sobre as causas perdidas


Por que a trajetória do guerrilheiro Thiago (vivido por Leonardo Medeiros no filme) continua, com todos os seus erros, ilusões e imperfeições, a nos tocar? Que valores e sentimentos esse defensor de uma causa perdida evoca em nós? Em um ensaio intitulado Sobre causas perdidas, Edward Said levanta algumas questões que talvez ajudem a encontrar respostas para essas perguntas. “Será que a consciência e até a realidade de uma causa perdida acarreta o sentimento de derrota e resignação que associamos às abjeções da capitulação e à desonra dos sobreviventes do sorriso forçado e espinha dobrada, oportunistas que bajulam seus conquistadores e procuram se congraçar com a nova gerência?” – indaga Said. Ou, em outra formulação: “será que o resultado precisa ser sempre a vontade quebrada e o pessimismo desmoralizado dos derrotados?”. Em sua resposta, Said procura oferecer alternativas à resignação impotente de uma causa perdida.



E ele recorre a uma reflexão de Adorno contra a resignação. O pensador alemão propõe como alternativa à capitulação resignada da causa perdida “a intransigência do pensador individual cuja capacidade de expressão é um poder que deflagra um movimento de vitalidade, um gesto de desafio, uma declaração de esperança em que a ‘infelicidade’ e a escassa sobrevivência são melhores do que o silêncio ou a entrada no coro dos ativistas derrotados”. Tomando essa proposta para si, Edward Said faz uma defesa da possibilidade e da necessidade da resistência a todas as formas de resignação. “A consciência da possibilidade de resistência só pode residir na vontade individual que é fortificada pelo rigor intelectual e pela firme convicção da necessidade de começar de novo, sem garantias”. A única garantia, acrescenta, é “a confiança presente até no mais solitário e impotente pensamento de que o que foi pensado de modo convincente deve ser pensado em algum outro lugar e por outras pessoas”.



O passado desafiando o presente


Podemos ter aqui uma pista interessante, que pode servir como chave de leitura para o filme de Toni Venturi (uma entre outras tantas possíveis). O que foi pensado e feito de forma convincente, com vitalidade e esperança, com entrega, sacrifício e abnegação, sempre será pensado e feito outra vez, não necessariamente da mesma forma, por outras pessoas, em outros lugares, em outras épocas. A resistência ao autoritarismo, à tortura, à censura, à injustiça, apesar das incontáveis derrotas individuais e coletivas neste terreno, sempre brota de novo, como uma semente que pode ser colocada em hibernação, mas jamais destruída. E toda vez que ela ressurge, aparece com uma renovada vitalidade e com novos significados. Tudo se passa como se as crônicas de derrotas passadas nos desafiassem a tentar de novo, sem garantias, exceto aquela apontada por Edward Said. Devemos estar preparados para tentar de novo e também para sofrer uma nova derrota, e sobreviver a ela.



Obviamente, na prática, a teoria é diferente. Que o digam todos aqueles militantes que atravessaram a dura experiência de sobreviver à derrota, com todas as suas implicações no corpo e na alma. Mas, se simpatizamos com as reflexões de Godard, Adorno e Said sobre os sentidos das derrotas e sobre os necessários recomeços, devemos ver um filme como Cabra Cega como quem assiste a um convite para uma nova tentativa. Uma tentativa de “assaltar o céu”, como Venturi nos lembra ao final do filme, citando Marx ao falar da Comuna de Paris. Em 1871, a classe trabalhadora da capital francesa tentou “assaltar o céu” e foi derrotada. As vozes e os fantasmas dessa derrota continuam a sussurrar em nossos ouvidos, assim como aquelas dos militantes brasileiros que entregaram suas vidas no combate à ditadura militar. O que essas vozes nos dizem? Entre outras coisas, que o céu continua aí a nos desafiar. Pode parecer que estamos cada vez mais distantes dele e que essa distância é realimentada com sentimentos de desesperança e resignação.



O paradoxo é que, quanto maior é essa distância, mais alto parecem ressoar em nossos ouvidos vozes e fantasmas de derrotas passadas. Se Godard tem razão e só os “derrotados” podem nos salvar do inferno, comecemos por prestar atenção no que eles nos dizem. Essa escuta pode abrir as portas para uma nova história sobre o passado, o presente e o futuro. Não se trata, então, no caso de um filme como Cabra Cega, de falar sobre a importância do resgate da memória propriamente. Isso, pela razão de que a memória não é uma caixa enterrada, em algum lugar do passado, aguardando para ser resgatada, trazida à superfície e iluminar o nosso presente. Ela, na verdade, já é um elemento constitutivo do nosso presente, do modo como olhamos para derrotas do passado, por exemplo. Do modo como percebemos como as vozes do passado ecoam no presente. Em resumo, para tentar simplificar, Cabra Cega é um filme que fala sobre o nosso presente, sobre o modo como enxergamos os fatos que nos trouxeram até aqui, sobre o modo como ouvimos velhas vozes que continuam a nos convidar a assaltar o céu.





Na teia:



O inferno é a ausência do outro




Em Nossa Música, o cineasta francês Jean-Luc Godard apresenta uma espécie de testamento ao mundo. Atravessando o inferno, o purgatório e o paraíso, seu filme sustenta que o inferno não está nos outros, mas sim na sua ausência. E defende que só os derrotados podem nos tirar do inferno.



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