Mídia

O segundo ato do ativismo via mídias sociais

 

04/08/2020 13:48

(Ilustração de Maria Chimishkyan)

Créditos da foto: (Ilustração de Maria Chimishkyan)

 
Três meses de quarentena nos ensinaram a viver online, então talvez não seja surpresa que o que vimos online tenha nos mandado de volta às ruas. Em 25 de maio, a circulação das imagens de vídeo que capturaram o assassinato de George Floyd por quatro policiais de Minneapolis rapidamente incitou protestos locais. Três noites depois, nossos provedores de notícias transmitiram imagens ao vivo de manifestantes queimando a 3ª Delegacia de Polícia de Minneapolis. No decorrer de junho, as revoltas expandiram-se em velocidade e escala sem precedentes — crescendo nacionalmente e depois internacionalmente, deixando uma série de imagens, vídeos e exortações agora icônicas em seu rastro. Cada evento histórico tem seu meio ideal de documentação — o romance, a fotografia, a televisão — e o que estamos testemunhando parece um momento excepcionalmente "online" de agitação social.

De fato, a luta na praça pública se desdobrou ao lado de uma apropriação do virtual. Em meio a imagens capturadas por celulares, de protestos e tombamento de estátuas, a Internet foi ainda mais inundada com o que poderíamos chamar de mídia ativista. Imagens capturadas de telas para levantar de doações de fundos para pagamentos de fiança incitando outros para alcançarem os valores necessários continuam a proliferar. Guias de protesto, gerados a partir de anos de experiência ativista no território das manifestações, são prontamente compartilhados no Twitter e no Instagram, dizendo aos leitores como desfocar rostos em fotografias ou ajudar a reverter detenções. Existem modelos de e-mail e telefonemas, pré-roteirizados e com circulação em massa. Webinars sobre a abolição da polícia agora constituem um subgênero próprio. E as reuniões das Câmaras Municipais, que já haviam migrado para Zoom por causa da pandemia, vieram para sediar a consagrada tradição ativista da agitação nas prefeituras. (Apelos bem cronometrados para lançar provocações à polícia, ao que parece, podem ser tão eficazes online quanto no mundo real.) À medida que algumas das revoltas de junho evoluem para os acampamentos de hoje, o longo verão revolucionário de 2020 — com duração mais longa por conta da quarentena — continua em ritmo acelerado online.

Algumas dessas histórias podem parecer familiares. Em Twitter and Tear Gas: The Power and Fragility of Networked Protest” ["Twitter e Gás Lacrimogêneo: O Poder e a Fragilidade do Protesto Em Rede"], de 2017, o sociólogo Zeynep Tufekci analisou como uma "esfera pública em rede digital" havia se originado a moldar os movimentos sociais. Tufekci se baseou em sua própria experiência das revoltas árabes de 2011, cuja mobilização inicial das mídias sociais abriu o palco para os protestos no Gezi Park, em Istambul, na ação Occupy, em Nova York, e no movimento Black Lives Matter [B.L.M.], em Ferguson. Para Tufekci, o uso da Internet ligou essas várias revoltas descentralizadas e as distinguiu das antecessoras como o movimento dos direitos civis dos anos 1960. Enquanto "os movimentos mais antigos tiveram que construir sua capacidade de organização primeiro", argumentou Tufekci, "os movimentos modernos em rede podem aumentar rapidamente e cuidar de todos os tipos de tarefas logísticas sem construir nenhuma capacidade organizacional substancial antes do primeiro protesto ou marcha".

A velocidade proporcionada por tal protesto é, no entanto, tanto quanto seu perigo quanto sua promessa. Após uma rápida expansão, movimentos espontâneos são frequentemente propensos ao que Tufekci chama de "congelamento tático". Por serem muitas vezes sem líder, e poderem não ter "a cultura e a infraestrutura para tomar decisões coletivas", eles ficam com pouco espaço para ajustar estratégias ou negociar demandas. Em um nível mais fundamental, a infraestrutura corporativa das mídias sociais torna esses movimentos vulneráveis à cooptação e à censura. Tufekci tem clareza dessas armadilhas, mesmo rejeitando as críticas mais amplas ao "slacktivism" [ativismo desleixado ou preguiçoso, que só demanda um clique] apresentadas, por exemplo, por “The Net Delusion” ["A Ilusão Da Rede"], de Evgeny Morozov, de 2011.

"Twitter e Gás Lacrimogêneo" permanece incisivo sobre como as mídias sociais podem ou não promulgar reformas. Mas os movimentos mudam, assim como a tecnologia. Desde que o livro de Tufekci foi publicado, as mídias sociais ajudaram a representar — e, em alguns casos, ajudaram a organizar — a Primavera Árabe 2.0, o movimento "Colete Amarelo" da França, o RickyLeaks de Porto Rico, os protestos iranianos de 2019, os protestos de Hong Kong e o que poderíamos chamar de revolta do B.L.M. de 2020. Este último evento, ainda em andamento, evidenciou uma escala, criatividade e resistência que desafia aqueles céticos com a capacidade da Internet de mediar um movimento. Como Tufekci observa em seu livro, os efeitos no mundo real de Occupy, a Marcha das Mulheres, e até mesmo a B.L.M. da era Ferguson foram muitas vezes desanimadores. Em contraste, desde a morte de George Floyd, as cidades cortaram bilhões de dólares dos orçamentos da polícia; distritos escolares cortaram laços com a polícia; vários projetos de lei de reforma e prestação de contas da polícia foram introduzidos no Congresso; e cidades como Minneapolis prometeu cortar o financiamento do policiamento. Muito trabalho ainda permanece, mas a ligação entre ativismo, a Internet e a ação material parece ter se aprofundado. O que mudou?

As revoltas atuais se encaixam perfeitamente na história de Tufekci, com uma exceção. À medida que a enxurrada de ativismo digital continua, não se tem a impressão de que esse movimento esteja incerto quanto aos seus objetivos — abolição — ou que possa entrar em colapso sob um congelamento tático. Em vez disso, os muitos guias de protesto, programas de estudo, webinars e semelhantes deixaram claro tanto os objetivos da abolição quanto o conhecimento digital dos abolicionistas. É uma mensagem tão legível que até a Fox News a compreendeu com relativa facilidade. Rachel Kuo, uma organizadora e estudiosa do ativismo digital, me disse que essa clareza foi moldada em parte por organizadores que cada vez mais dependem de "uma combinação de plataformas digitais, seja Google Drive, Signal, Messenger, Slack ou outras combinações de software, para colaboração, armazenamento de informações, acesso a recursos e comunicações diárias". O público tende a se concentrar, compreensivelmente, na profusão de hashtags e ilustrações elegantes, mas Kuo enfatizou que foi esse trabalho "back-end" [invisível para o usuário] — um inventário de conhecimento, um senso mais forte de aliança — que permitiu que o ativismo digital "refletisse preocupações e visões mais amplas em torno da segurança da comunidade, acessibilidade e responsabilidade". As revoltas podem ter se desdobrado organicamente, mas o que as sustentou é precisamente o que faltava em muitos protestos em rede anteriores: organizações preexistentes com demandas específicas por um mundo melhor.

Parte desse crescimento é simplesmente uma função do tempo. Já se passaram sete anos desde que o movimento Black Lives Matter foi fundado. Desde então, grupos como o Movimento por Vidas Negras — uma rede explicitamente abolicionista e anticapitalista que inclui mais de cento e cinquenta organizações — conferiram unidade e direção à uma coalizão que antes era, talvez, difusa demais para articular os princípios convergentes. Esses grupos também se tornaram mais treinados em usar a Internet para enquadrar, formalizar e avançar em sua agenda. Como Sarah J. Jackson, Moya Bailey e Brooke Foucault Welles escrevem em "#HashtagActivism", as mídias sociais formam um "contrapúblico" digital, no qual vozes excluídas dos "espaços de mídia de elite" podem se engajar em "redes alternativas de debate". Quando ocorrem momentos de ruptura, esse contrapúblico pode fazer intervenções mais facilmente. O discurso recente sobre abolição da prisão e da polícia pode ser o exemplo mais claro de uma mudança na janela de Overton, embora Bailey aponte até mesmo para "a linguagem que estamos ouvindo na televisão, a supremacia branca sendo nomeada pelo que é", o que era inimaginável apenas alguns anos atrás.

O que é distinto sobre o movimento atual não é apenas a clareza de suas mensagens, mas sua capacidade de transmitir essa mensagem no meio de tanto barulho. Em 2 de junho, a indústria da música lançou #BlackoutTuesday, uma ação contra a brutalidade policial que envolveu, entre outras coisas, usuários do Instagram e Facebook postando caixas pretas simples em suas contas. As postagens incluíam frequentemente a hashtag #BlackLivesMatter; quase imediatamente, os usuários de mídia social foram inundados com ainda mais publicações que explicavam por que o uso dessa hashtag afogava, em uma mar de caixas mudas, informações cruciais sobre eventos e recursos. Para Meredith Clark, professora de estudos de mídia da Universidade da Virgínia, a resposta ilustrava como o movimento B.L.M. tinha aprimorado sua capacidade de se ater a um programa, e corrigir aqueles que implantaram esse programa ingenuamente. Em 2014, muitas pessoas tinham apenas uma pequena noção de como uma hashtag poderia organizar ações ou estabelecer círculos de cuidado. Hoje, "as pessoas entendem o que significa usar uma hashtag", disse Clark. Eles usam "suas próprias mídias sociais, de uma certa maneira, para essencialmente acalmar o ruído de fundo" e "assegurar o espaço que aquelas vozes que precisam se conectar entre si possam fazê-lo". O caso #BlackoutTuesday exemplificou uma consciência crescente de como as táticas digitais têm consequências materiais.

*Publicado originalmente em 'The New Yorker' | Tradução de César Locatelli



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