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O som disperso ao redor: limitações da crítica social que esboça caricaturas

04/03/2013 00:00

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Créditos da foto: Divulgação
O som ao redor (2013), filme dirigido por Kleber Mendonça Filho, reverbera o silêncio da luta de classes cotidiana que Recife e as demais metrópoles brasileiras produzem e reproduzem como se relações sociais desiguais e deformadas fossem nossa segunda natureza. O filme aglutina um panorama de fatos supostamente banais sob os quais o processo histórico de constituição de nosso capitalismo periférico posiciona as diferentes classes e determina a assimetria de seus contatos, a proximidade efêmera de suas relações e, por vezes, a contiguidade espacial da profunda desigualdade. A capital pernambucana em que um dos antiprotagonistas vive – o filme não particulariza propriamente a trajetória das personagens que mais parecem funções imediatas de suas posições de classe – é pródiga em aproximar prédios à beira-mar de favelas encravadas sob os pés dos condomínios de luxo. Nada que os moradores do Morumbi, em São Paulo, e de Copacabana, no Rio, desconheçam; a repulsa daí decorrente os leva a se proteger dos “bárbaros” com muros encimados por arame devidamente farpado e eletrificado.

Ao não optar por um efetivo encadeamento narrativo que problematize a luta de classes por meio de personagens que mediariam o processo histórico de (de)formação social em suas trajetórias peculiares, a obra se estrutura como uma sucessão de colagens que retiram do cotidiano brutalizado os eventos que já nos parecem tão normais quanto a inanição dos corpos magros e sujos que povoam acintosamente – grifo da classe média paulistana – as calçadas. É assim que, em sequências vertiginosas, soldados da polícia militar compram DVDs piratas de um ambulante, uma madame que sai de um suposto consultório médico enxota o flanelinha que lhe oferece ajuda como se mais um miserável lhe quisesse usurpar as moedinhas de que ela sequer se lembra, crianças pobres brincam na rua em que os carros quase as atropelam e furam suas bolas, ao passo que os filhos dos privilegiados se esgueiram por entre os espaços encouraçados de seus condomínios-bunkeres. Há vestígios de constituição narrativa em relação a duas personagens: o neto de um senhor de engenho e uma dona-de-casa algo inadaptada para a supressão de sua individualidade em meio ao papel tradicional que lhe coube.

O neto do senhor de engenho é um desempregado rentista. O avô é dono de mais da metade dos imóveis da rua que a câmera focaliza, então o neto faz as vezes de corretor e as comissões das vendas se transformam em salários polpudos. Não há com que se preocupar, a sobrevivência está garantida de antemão, por isso o problema passa a ser a própria vida. Um tédio praticamente inescapável se confunde com sua rotina. Até o dia em que o rapaz encontra uma moça que trabalha em um escritório – uma advogada? – e passa com ela uma noite de desejo no engenho escravista travestido de apartamento civilizado. Os dois mal se conhecem, então Maria, a empregada negra e sexagenária, procura enturmá-los pela manhã com café e cordialidade.

A Casa Grande tratava com um pouco menos de indecência os escravos que não dormiam na senzala e que privavam do contato com o nhonhô e sua família – fato que acorrentava a escravidão aos aguilhões ainda mais enferrujados do cinismo. O neto do engenho – chamemo-lo assim – trata a empregada com muito carinho, o mesmo carinho que o levará a dar um conselho para a filha de Maria, que também trabalha como empregada e que também se chama Maria: “olha, quero te pedir para colocar o chinelo, você não pode passar roupa descalça, você vai acabar levando um choque”. Um conselho gentil e veladamente autoritário faz as vezes do arremedo de educação formal que não houve e nem mesmo haveria por conta do salário magro e, muitas vezes, facultativo. É sutil o processo que aproxima a reprodução da desigualdade da cordialidade: um patrão que se mostrasse um verdadeiro carrasco desvelaria a efetiva condição das relações entre as classes no Brasil, mas a intimidade, ainda que mediada pela onipresente assimetria, constrói um afeto canhestro entre aqueles que só podem se abraçar com a condição de que cada um saiba o seu devido lugar na escala naturalizada das distinções sociais.

Ora, é justamente a cordialidade com os de baixo que faz o neto de engenho demonstrar uma certa solidariedade com o senhor Agenor, o porteiro do prédio, em mais uma reunião de condomínio. Seu Agenor é um dorminhoco contumaz – o filho de um dos condôminos prova as infrações do funcionário com um vídeo que representa seu primeiro curta-metragem sem a aquiescência do ator que dorme em serviço. (Como se a gravação de uma pessoa sem o seu consentimento prévio fosse o mesmo que baixar um vídeo erótico às costas dos pais.) “Afinal, somos nós que estamos pagando o salário do porteiro, e quem não quer ganhar para dormir?”

O neto de engenho começa a protestar, “seu Agenor já trabalha há muitos anos no prédio, gente, ele tem uma história aqui conosco”, mas uma vizinha indignada diz que a negligência do funcionário chegou ao ponto de “me entregar minha Veja fora do plástico, vejam se é possível?” Nesse momento, o filme desvela seu sentido caricatural que traça uma relação íntima com seu público específico – ou pior, seu nicho de mercado: os esquerdistas que assistimos ao filme entendemos a ironia subliminar que associa a potencial demissão do porteiro por justa causa à (de)formação política causada pela leitura de um dos veículos de comunicação mais reacionários do Brasil. Mas então, a meu ver, desponta uma pergunta algo incômoda para aqueles que queremos a efetiva transformação da desigualdade social brasileira: as caricaturas de O som ao redor conseguem problematizar de modo efetivo o enrijecimento das posições de classe? Enquanto a plateia de esquerda ironiza a moradora que lê a revista que não a faz ver as contradições sociais que a enclausuram em um bunker com medo da violência que provém da desigualdade social, o PSDB continua a ganhar, eleição após eleição, o governo do estado de São Paulo. Sendo assim, quem é o efetivo dono da caricatura: o filme que não investiga as raízes da perversidade social e que apenas recorta do real ocasiões brutais que pediriam uma análise mais aprofundada ou a mídia elitista que converte seus sermões impressos e televisionados em reeleições dos partidos da ordem e do regresso? O neto de engenho responde à nossa pergunta, pois sua solidariedade facultativa com o seu Agenor vai até o momento em que ele recebe uma mensagem de celular e então passa a ter um mote efêmero para ocupar seu interminável e tedioso tempo livre. (Como o playboy deixa a reunião antes do término, o síndico frisa que “seu voto contra a demissão de seu Agenor por justa causa não será válido”.)

A segunda quase-personagem é a dona-de-casa que toma comprimidos diante dos filhos para poder dormir e fuma maconha às suas costas para (tentar) ludibriar o vazio de sua vida. O neto de engenho e a mãe de casa – chamemo-la assim – têm posições correlatas, guardadas as diferenças de gênero que reservam papéis distintos para homens e mulheres. A mãe de casa precisa (1) impedir os latidos do cachorro do vizinho, (2) levar os filhos à escola e (3) fingir que conversa com o marido/pai facultativo enquanto (4) as drágeas de felicidade prescritas pelo psiquiatra não calam o som ao redor com o sono sem janelas. Se o filme aprofundasse as sucessivas colagens para buscar as raízes de tal processo de coisificação mediado pela trajetória da personagem, estaríamos diante de um efetivo e trágico dilema social que aproxima a mera luta pela sobrevivência por partes dos miseráveis da vida despida de qualquer sentido para aqueles que teriam condições materiais para projetar experiências que romperiam com a mera reprodução comezinha. A mãe de casa – mais um escombro recolhido da realidade – aponta para a falência do papel social do matrimônio e da maternidade que necessariamente devem ser reproduzidos. Se a personagem tivesse tempo para perguntar “como é que eu poderia fazer algo diferente com a minha vida?”, chegaríamos a uma aporia que teria o potencial de desvelar o caráter coercitivo da trajetória supostamente individual: e se a realização das etapas tradicionais que a sociedade referenda como válidas não disser respeito àquilo que o eu frágil realmente gostaria de realizar? Se a mãe de casa fosse transformada em uma efetiva personagem, talvez ela chegasse a se perguntar e a nos perguntar: “e se o que eu desejo ainda não tiver nome?” Se o que desejamos ainda não tiver nome entre os celulares, computadores, cafetinas, eletrodomésticos e carros, entramos em rota de colisão com a promessa histórica de emancipação social que hoje nos lega o ressentimento da utopia. A distopia, por sua vez, quer gozar de maneira inusitada: a mãe de casa que já não chega ao orgasmo com o marido que sequer a abraça fecha a porta da lavanderia; a máquina de lavar treme a não mais poder, então basta posicionar o clitóris junto à quina trêmula do eletrodoméstico parcelado em 24 prestações para que ela compartilhe com os azulejos, o tanque e os prendedores o alívio do orgasmo industrial, quiçá o último vestígio de vida não cooptada que tal atitude supostamente patológica resguarda como um ímpeto de liberdade que nossa sociedade autoritária simplesmente não deixa fluir. A norma classifica, enquadra, cala e discrimina o desvio salutar daqueles que não estão satisfeitos com a autoflagelação imposta pelo princípio coercitivo da realidade.

A essa altura do texto, o leitor e a leitora já devem ter percebido que O som ao redor, a meu ver, ilumina contradições fundamentais de nossa sociedade sem analisar detidamente as raízes de sua produção e reprodução. Quando o neto de engenho mostra um apartamento a ser alugado para uma mãe e sua filha, a progenitora chega a dizer que a estrutura do condomínio “é muito bonita, parece uma fábrica”. Cabe aos expectadores recuperar as camadas de mediação social que associam a beleza a uma instituição de massa, a fábrica, que padroniza seus produtos de modo a torná-los baratos e competitivos. O belo, então, perde a aura da individualidade para ser tão permutável quanto uma lata de tomate – ou um apartamento de alto padrão. Mas será que o som disperso ao redor dá o tom para que leiamos as contradições sociais por meio da mediação das cenas-colagens? Ou será preciso lançar mão de instrumentais de teoria social que, na verdade, acrescentam ao filme uma densidade que a obra, por si só, não possui?

Há uma microcena, no entanto, que me parece interessante por dar dinamismo às contradições que transformam alguns membros de nossa elite econômica em subempregados do capitalismo central. Um dos filhos de Maria, a despeito de não frequentar os cultos da igreja neopentecostal, começa a trabalhar como caixa de um mercadinho. O neto de engenho elogia o rapaz e diz que, no período em que esteve na Alemanha, assumiu um emprego tal e qual o proletário em questão. Ora, um burguês brasileiro não se sujeita a trabalhar em um subemprego por aqui apenas por conta do salário atrofiado. Trata-se de uma posição destinada aos de baixo, à ralé. Mas, na Alemanha, a divisão internacional do trabalho sentencia que o brasileiro pode – e deve – ser subalterno. Lá, em meio aos colonizadores, é possível ser subordinado sem se sentir tão humilhado. (Não à toa, brasileiros que fazem limpeza em Londres tendem a dar um nome mais condigno à profissão que, por aqui, os párias étnicos e sociais desempenham sem outros horizontes; não se trata de faxina, ora, trata-se, na verdade, de um civilizado cleaning.)

Comparemos brevemente O som ao redor ao filme Contra todos (2004), direção de Roberto Moreira, obra sobre a qual escrevi o ensaio Guerra de todos contra todos, para esta Carta Maior. Contra todos parte do mesmo panorama que estrutura O som ao redor, mas a opção pelo aprofundamento das trajetórias que animam as personagens não esboça uma caricatura da tensão social, já que procura suas raízes, desdobra suas transformações ao longo da estória e da história, sonda as (im)possibilidades de superação de tal estado de coisas por meio das restrições que as personagens são obrigadas a viver. Contra todos não ironiza aqueles que, na verdade, detêm as rédeas do poder, pois mergulha nos dilemas que mantêm o status quo, faz leituras sobre a ruptura dos laços fraternais que se transformam em ligações sádicas e contingentes em meio à periferia. Em vez de simplesmente filmar a falta de palavras do burguês rentista que já não sabe sentir saudade da enésima namorada com quem não constrói laço algum; em vez de selecionar vivências vazias da mãe de casa que sequer tem espaço e individualidade para ressignificar a angústia de suas dúvidas, Contra todos supera a mera caricatura e analisa o caráter autoritário reproduzido pela classe social que mais teria interesse em transformar a realidade. Mesmo não havendo o confronto aberto com a burguesia, já que a periferia paulistana é escarrada para longe do centro expandido e guarnecido por avenidas com o sintomático nome de Marginais, Contra todos propõe entrechoques e reflexões mais complexos do que o painel caricatural exposto e não dissecado em O som ao redor.

A meu ver, a recepção efervescente para o filme de Kleber Mendonça Filho apenas paira ao redor das contradições que a obra compilou sem analisar. Como o Brasil ainda não reabilitou devidamente os estudos de Sociologia e Filosofia nos âmbitos fundamentais de ensino após o longo e recente período ditatorial, parece-me sintomático o afã por um panorama que faz pouco mais do que constatar o atual silêncio proposital da luta de classes no país. Se O som ao redor fosse apenas o prefácio para chegarmos a capítulos mais profundos que dialogassem com Contra todos, O cheiro do ralo (2007), direção de Heitor Dhalia, Tropa de Elite I (2007) e Tropa de Elite II (2010), direção de José Padilha – filmes sobre os quais pretendo discorrer nas próximas semanas –, estaríamos diante de uma situação em que a ironia superficial confrontaria de modo mais efetivo as posições políticas que levam ao recrudescimento da desigualdade. A persistência da caricatura, no entanto, revela a volubilidade da ironia: o pequeno Davi ri do gigante Golias entre seus pares que, em realidade, assistem à dança dos poderosos sem lhes fazer frente efetiva, despidos que estão do instrumental adequado para a apreensão da realidade social que o som disperso ao redor reverbera sem conseguir amplificar.

*Flávio Ricardo Vassoler é mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP e escritor. Seu primeiro livro, O Evangelho segundo Talião (Editora nVersos), será publicado em abril. Periodicamente, atualiza o Subsolo das Memórias, www.subsolodasmemorias.blogspot.com, página em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.



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