Mídia

Os Cinco Sentidos de Uma Marcha

22/02/2002 00:00

Eram cores por todos os lados. Bandeiras, faixas e camisetas multicoloridas. Os prédios antigos, já acinzentados, cobertos de cor. O asfalto, acostumado com os negros pneus dos automóveis, e as calçadas com as sujas solas dos pés dos transeuntes, receberam, sem pedir, um arroubo de energia colorida Tudo eram cores.



E sons. Gritos de alerta, palavras de ordem, hinos e canções de amor. "1, 2, 3, 4, 5 mil a luta da Argentina é a mesma do Brasil", "Brasil, Colômbia, América Central, a classe operária é internacional", "Brasil, Colômbia, Argentina, vitória imperialista na América Latina", "Palestina, Iraque, Cuba livres", "Vem, vamos embora, que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer", "O povo na rua é a solução". Batidas em panelas - aprendemos com "los hermanos"- ecoavam pelo corredor humano. As vozes dispersas em um gigantesco arco-íris pregavam a justiça, a igualdade e a paz.



Cheiros. Cheiro de chuva despedindo-se e dando trégua para as cores e para os sons. Cheiro de suor do povo que caminha até o horizonte, e não se cansa. Cheiro de churrasquinho grego que os ambulantes tentavam empurrar para o povo na rua. Cheiro do mormaço do Guaíba. Cheiro de indignação e luta.



Paladar. Gosto de sede. Gosto de fome. Gente de todo o mundo gostando do outro. Um doce gosto de satisfação e identificação. Gosto do povo na rua, gosto de pé no chão.



De braços abertos, batendo palmas. Uma chuva de papéis picados recebeu as cores, sons, cheiros e gostos. Papéis picados para mostrar que o céu também acolhia a marcha. O toque das mãos, as mãos dadas. Tato, muito tato, para tocar a luta.



Com os sentidos aguçados, cerca de 50 mil pessoas de todo o mundo clamavam por uma outra globalização, por um outro mundo. Argentinos, africanos, canadenses, australianos, europeus, norte-americanos, índios, asiáticos, jovens e velhos, ricos e pobres reconheceram-se como iguais.



"Vamos de mãos dadas", já recomendava Drummond, em sua lúcida sabedoria. O espírito de Porto Alegre gritava: "Vamos de mãos dadas".


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