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Os demônios, de Fiódor Dostoiévski

07/10/2004 00:00

Agência Carta Maior

Dando continuidade ao seu projeto de publicar as obras de Fiodor Dostoiévski (na foto) apenas em traduções diretas do russo, resgatando assim o ritmo e o vigor da linguagem original, a Editora 34 traz ao público brasileiro, em tradução inédita de Paulo Bezerra, este grande romance que é Os demônios.



Motivado por um episódio verídico - o assassinato do estudante I. I. Ivanov
pelo grupo niilista liderado por S.G. Nietcháiev, na Rússia, em 1869 -, Os
demônios
foi concebido, num primeiro momento, como obra de protesto, polêmica e panfletária. No entanto, ao recriar ficcionalmente o episódio, Dostoiévski escreveu uma obra-prima que, como observou o escritor alemão Henrich Böll, conseguiu tornar-se um modelo tão clássico quanto profético do fanatismo cego e abstrato que costuma assolar grupos e correntes políticas.



De fato, na trama que envolve personagens tão extraordinários e conflituosos quanto o aristocrata Stavróguin, o líder revolucionário Piotr Stiepánovitch, o irrequieto Kiríllov e outros, Dostoiévski parece ter antevisto toda a gama de horrores que o fanatismo - seja ele político ou religioso - pode provocar, desde o totalitarismo de Stálin e Hitler até o desconcertante
terrorismo internacional dos nossos dias.



Sinal de sua força e atualidade, Os demônios é um livro que rivaliza em importância com O idiota, Crime e castigo e Os irmãos Karamazov, integrando o ciclo dos grandes romances de Dostoiévski e, não por acaso, foi tema constante de reflexão para leitores, críticos e artistas, tendo sido adaptado para o teatro por Albert Camus (1959) e para o cinema por Andrzej Wajda (1988).





Leia a seguir comentários de alguns autores sobre Dostoiévski e Os demônios




Albert Camus



“No mundo apaixonado de Dostoiévski nada nos parece monstruoso. Nele encontramos as nossas angústias cotidianas. Ninguém como ele soube dar ao mundo absurdo prestígios tão próximos e torturantes. Ele não é um romancista absurdo que nos fala, mas um romancista existencial.”



“Conheci esta obra, [Os demônios] há vinte anos, e o choque que experimentei então continua vivo até hoje, vinte anos depois.”





Heinrich Böll



“Para mim, O idiota e Os demônios são de uma imensa atualidade. Os demônios não só porque, desde que o li em 1938, não consigo esquecer o assassinato de Chátov, mas também porque nos 30 anos da história contemporânea transcorridos desde então esse romance conseguiu se tornar um modelo tão clássico quanto profético do fanatismo cego e abstrato de grupos e correntes políticas. Em O idiota destroem-se a iconografia, os cânones do O mundo salvo e da O divindade. Por trás dessa infinidade de representações da
alienação há uma nostalgia da fraternidade, da redenção.”





Siegfrid Lenz



“Romances como O idiota e Os demônios mostram que qualquer utopia, social ou religiosa, que venhamos a propor poderá redundar em tolice, mas sem utopia podemos nos tornar observadores do mal e ainda referendá-lo com nosso silêncio. O que faz de Dostoiévski um escritor atual são os conflitos de suas obras e seu projeto de uma utopia inadiável; aí ele encontra a justificativa para escrever, aí residem as questões fundamentais que a literatura levantou para a vida em sua época e está obrigada a levantar sempre.”





Virginia Woolf



“Os romances de Dostoiévski são turbilhões feitos inteiramente de matéria
tirada da alma, matéria que nos inunda, nos faz girar, nos cega, sufoca, mas ao mesmo tempo nos brinda com um prazer estonteante... Ficamos perturbados, mas alguém nos lança a corda da salvação e pegamos o fio das conversas; agarrados a ele por força de um milagre, precipitamo-nos aos arrancos nos abismos, sempre em frente, ora submergindo, ora tomados por um instante de clarividência, descobrindo algo que só conseguimos vivenciar sob pressão máxima da vida.”




De Dostoiévski, a Editora 34 já publicou Crime e Castigo, O idiota,
Niétotchka Niezvânova, Memórias do subsolo, O eterno marido, Duas
narrativas fantásticas: A dócil e O sonho de um homem ridículo
e um volume reunindo os textos O crocodilo e Notas de inverno sobre impressões de verão.




Paulo Bezerra, o tradutor, estudou língua e literatura russa na Universidade Lomonóssov, em Moscou, especializando-se em tradução de obras técnico-científicas e literárias. Já traduziu do russo quarenta e cinco obras nos campos da filosofia, da psicologia, da teoria literária e da ficção, destacando-se: cinco novelas de Gógol reunidas no livro O capote e outras histórias, O herói do nosso tempo de M. Liérmontov, O navio branco de T. Aitmátov, Os filhos da Rua Arbat de A. Ribakov, A casa de Púchkin de A. Bítov, O rumor do tempo de O. Mandelstam, e Em ritmo de concerto de N. Dejniov.





Claudio Mubarac, o desenhista, nasceu em Rio Claro, São Paulo, em 1959. Formou-se na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, em 1982, onde realizou estudos de gravura com Evandro Carlos Jardim e Regina Silveira. Entre os prêmios que recebeu estão os da V Mostra de Gravura Cidade de Curitiba, da I Mostra América de Gravura e da XXIII Bienal Internacional de Artes Gráficas de Ljubljana, além de ter recebido bolsas como artista residente no Tamarind Institute, dos Estados Unidos, no London Print Workshop, da Inglaterra, no Civitella Ranieri Center, da Itália, e na Cité International des Arts, da França.



Os demônios, de Fiódor Dostoiévski


Tradução e posfácio de Paulo Bezerra

Desenhos de Claudio Mubarac

704 págs.

R$ 59,00




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