Mídia

Os proprietários da liberdade de expressão

A liberdade de expressão, reconhecida pelo artigo 20 da Constituição da Espanha continua sendo controlada por aqueles mesmos grandes grupos financeiros que já o faziam durante a ditadura com a Lei de Imprensa de Manuel Fraga, estabelecida durante o franquismo, vigente entre 1966 e 1977

26/03/2019 13:31

 

 

Com o título de “Informe sobre a informação”, o escritor e jornalista Manuel Vázquez Montalbán publicou sua primeira obra elaborada durante os seus anos na prisão de Lleida. Mais de meio século depois, em 1963, a mesma editada, e é até hoje uma referência inevitável para analisar a situação dos meios de comunicação na Espanha. Porque a liberdade de expressão, reconhecida pelo artigo 20 da Constituição do país continua sendo controlada por aqueles mesmos grandes grupos financeiros, que já o faziam durante a ditadura com a Lei de Imprensa de Manuel Fraga (estabelecida durante o franquismo, vigente entre 1966 e 1977). Cada vez que se recorda esta evidência, que dá razão a Orwell quando dizia que todos somos iguais mas uns (os bancos) são mais iguais que outros, as afiadas plumas de Florentino Pérez, Ana Botín e Isidre Fainé apontam suas baionetas contra aqueles que sustentam, em palavras do teórico trabalhista Harold Lasky, que nenhum homem deveria estar situado na sociedade de tal forma que sua vantagem possa diminuir a capacidade de cidadania do seu vizinho.

As grandes famílias proprietárias que Vázquez Montalbán conheceu (Luca de Tena, Godó, Polanco, Asensio e Lara) foram substituídas pelos conselheiros das entidades financeiras, e seus descendentes são apenas vasos chineses bem colocados. Mesmo a Televisão Pública foi descapitalizada, proibida de entrar no mercado da publicidade, e agora teledirigida por grupos controlados pelos grandes bancos. Onde ainda não existe diretamente este controle financeiro – nas produtoras privadas – existe o controle indireto, através de Antena 3, TeleCinco ou La Sexta. O processo de concentração e centralização informativa alcança níveis inquietantes, sem que, por enquanto, o parlamento decida adotar medidas para limitá-lo, apesar de seus muito graves efeitos políticos sobre o sistema democrático.

Santander, La Caixa e o BBVA ocupam os postos decisivos nos conselhos de administração dos mais importantes meios de comunicação. Imprensa escrita, rádio, televisão e também, alguns meios digitais estão sob controle dos créditos, empréstimos e inclusive subvenções das entidades financeiras. Recentemente, a banca facilitou a singular entrada do Grupo Moll na editora Zeta, proprietária do diário El Periódico, de Barcelona, apesar de a oferta de compra de Mediapro ser muito mais elevada; para não falar do Grupo Prisa, beneficiário de uma substantiva ajuda para recuperar a editora Santillana. Não são critérios de rentabilidade os que determinam estas decisões dos grupos financeiros sobre o futuro destes dois importantes meios de comunicação.

Desde 1982, ano em que desapareceram os dois últimos periódicos de esquerda (Triunfo y La Calle) não existiu nenhum outro meio de comunicação impresso independente dos bancos. Desde aquele então, tanto com diários conservadores, centristas, como progressistas, se vive e se continuará vivendo, informativamente falando, sob os estereótipos informativos dos poderosos. Um único denominador comum, a mesma linha editorial econômica e social os vincula, do ABC ao El País, refletindo um bipartidarismo jornalístico que reproduz o bipartidarismo parlamentar. Não é casual o fato de que alguns jornalistas tenham dado o salto político às candidaturas das três direitas, ou que outros tenham tentado ser o Joseph Fouché do PSOE (centro-esquerda) ou do PP (direita herdeira do franquismo). Essa é a prática da teórica liberdade de expressão na sociedade espanhola.

Estes diários da ordem estabelecida coexistem com o jornalismo das cloacas, que é uma peculiaridade espanhola do velho periodismo amarelo. São os que fazem o trabalho sujo, e que depois são promovidos às tertúlias dos meios que se autoqualificam como socialdemocratas. A longa ditadura de Franco, a opaca luta antiterrorista que se desenvolveu durante meio século – por que não se publica a lista de jornalistas que recebiam fundos reservados do Ministério do Interior? –, e a muito extensa e intensa corrupção congênita da máfia do PP geraram uma espécie de subgênero informativo de lixo policialesco patriótico, que tenta se travestir de jornalismo de investigação. Líderes democratas são atropelados por esse caminhão de lixo que passeia semanalmente pelos estúdios televisivos.

Em coerência com esta ordem informativa, toda a informação referente ao Podemos, o partido que denuncia a brutal desigualdade informativa da sociedade espanhola, é mal ajustada e relegada a uma pequena prova de algodão democrática. Basta contar um exemplo ilustrativo para que se entenda: se Pablo Iglesias (um dos máximos líderes da legenda) tivesse despedido Iñigo Errejón (outro referente do Podemos e rival interno de Iglesias) após o encontro Vistalegre II, assim como Pedro Sánchez acaba de despedir a quinta coluna de Susana Díaz do grupo parlamentário do PSOE, não há dúvidas de que ele seria mostrado como uma espécie de neto predileto de Stalin. Pode parecer uma anedota, mas que junto com outras revelam que, uma vez mais, o tratamento ao Podemos é mais desigual que com as outras siglas. É verdade que os problemas internos do Podemos não surgem nem são responsabilidade dos informadores, mas não justifica que sejam cozinhados com tanta má vontade pelos prestigiados chefs dos meios de comunicação, cooptados previamente pelos proprietários.

E se falta alguma prova deste controle da banca sobre os meios de comunicação, é que tanto antes, como durante e certamente depois do 28 de abril todos passaram a defender a coalizão entre o PSOE e o Cidadãos (nova direita liberal). Ou seja, todos se posicionam, muito bem alinhados, contra a opção do governo progressista de Sanchez, que todas as pesquisas apontam como a preferida pela maioria dos espanhóis, e evidentemente pelos eleitores socialistas. Opção que, vejam vocês, é rechaçada pelo Santander, BBVA e La Caixa. Os mesmos, banqueiros e meios de comunicação, que contribuíram antes para defenestrar Pedro Sánchez, os mesmos, banqueiros e meios de comunicação, que apoiaram Susana Díaz nas primárias socialistas, voltarão ao ataque se Sánchez não se ajoelhar após um novo triunfo progressista. Evidentemente, esperavam que talvez Iglesias ajudasse nesse trabalho arremetendo hoje contra o Palácio da Moncloa, o que facilitaria o caminho para um governo PSOE-Cidadão, que é o desejo desses grupos. Mas a inteligente resposta do Podemos, mostrando não querer entrar nesse jogo, desnudou todas as vergonhas políticas e midiáticas dos que querem se burlar do voto soberano do povo espanhol.

*Publicado originalmente em publico.es | Tradução de Victor Farinelli

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