Mídia

Os últimos anos de paciência

01/08/2006 00:00

Luis Fernando Verissimo

Sempre que penso num arqueólogo abrindo uma dessas caixas em que se põem documentos, jornais, objetos e curiosidades da nossa época justamente para serem descobertas no futuro, imagino que ele pode ter duas reações: uma que nos condena e outra que nos elogia. Elogio é o hipotético arqueólogo sacudir e a cabeça e dizer “Bons tempos aqueles” porque o seu tempo será muito pior do que o nosso. O contrário é ele sacudir a cabeça e comentar o nosso atraso, e perguntar-se como conseguimos sobreviver e - mais espantoso ainda - como sua sociedade superior pode ter evoluído desta insensatez e deste caos. Ou ele nos invejará ou nos desprezará.

Alguns itens da caixa por certo o deixarão perplexo. Jornal, por exemplo. O que é isso? dirá ele. E dará boas risadas com os telefones celulares, resquícios de uma época em que as pessoas ainda não tinham transmissores e receptores implantados no crânio ao nascer.

E o Brasil? O que ele pensará do Brasil? Que interpretação do Brasil deveria ser incluída na caixa para ele entender o que ocorria no país naquele longínquo começo do século 21? Minha contribuição começaria com um episódio real, que aconteceu comigo. Nada demais, uma pequena cena do cotidiano que só serviu como mote para uma crônica que escrevi.

Eu caminhava por uma calçada e veio uma bola na minha direção. A bola tinha escapado do controle de um garoto que, de longe, gritou: “Devolve!” Não era um pedido, era uma ordem. A mãe do garoto ouviu e perguntou se aquilo era jeito de falar com alguém. O garoto então se corrigiu. Gritou “Adevolve!” Por alguma razão, achou que, colocando um “a” no início da palavra, o pedido ficava mais educado. Na crônica, eu dizia que, de certa maneira, a sociedade brasileira estava fazendo o contrário do garoto.

Todas as manifestações de inconformidade com a crise social brasileira, culminando com a eleição do Lula, tinham sido educados pedidos para que a minoria que nos domina adevolvesse o país à sua maioria excluída. E que não dava para imaginar como seria quando acabasse a boa educação, quando uma sociedade desesperada exigisse o fim da incompetência criminosa que lhe sonega saúde, segurança, educação e emprego há anos, para dar lucro a banco, garantia a especulador e boa vida a poucos. Quando “devolvam!” virasse um grito de guerra.

O Brasil sempre foi de uma minoria autoperpetuada, mas nunca, no passado, a maioria teve como agora uma noção tão nítida do seu banimento interno, do seu exílio sem sair do lugar. A eleição do Lula significou, entre outras coisas, isso. O neoliberalismo triunfante, além da revolução semântica que transformou insensibilidade social em virtude empresarial, tinha trazido uma espécie de redenção história para o nosso patriciado, que afinal só abolira a escravatura para imitar os outros e para não ser chamado de retrógrado. Como ser retrógrado passou a ser moderno, nos oito anos de governo Fernando Henrique, a distância entre minoria e maioria aumentou. E como Lula, frustrando esperanças, continuou a política econômica do governo anterior, o que eu poderia dizer ao arqueólogo do futuro é que talvez estejamos vivendo no Brasil os últimos anos de paciência. Embora ninguém pareça ter o menor temor de que o que não adevolverem por bem terão que devolver por mal.

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N.E.: Imagine-se endereçando uma mensagem a um arqueólogo do futuro, fornecendo-lhe dados sobre a realidade atual que lhe servissem de apontamentos para o entendimento de nossos dias. A Carta Maior apresenta espaço dedicado a esta inusitada empreitada, com a publicação mensal de textos de importantes intelectuais, cientistas e artistas endereçados ao Arqueólogo do Futuro.

O texto de estréia foi de Niéde Guidon, arqueóloga. Em seguida, tivemos o de Eduardo Gaelano, pensador e escritor uruguaio. Depois, o de Moacyr Scliar, médico, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras, o de Jorge Timossi, vice-presidente do Instituto Cubano do Livro e diretor da Agência Literária Latino-americana, o de Mirian Goldenberg, doutora em Antropologia Social e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o de Maurício de Sousa, o genial criador da Turma da Mônica, o de Emir Sader, sociólogo e professor da UERJ, o do Chico Anysio, humorista, escritor e pintor, o de Ferreira Gullar, poeta, o de Flávio Wolf Aguiar, escritor e professor de Literatura Brasileira da USP, o de Marcio Souza, escritor amazonense, o de Viviane Mosé, filósofa e divulgadora da filosofia. O segundo anos da publicação, estreou com um texto de Elizabeth Ginway, brasilianista e estudiosa de ficção brasileira, seguido pelo texto de Augusto Boal, teatrólogo criador do Teatro do Oprimido, depois o de Frei Betto, teólogo e escritor, o de Alfredo Bosi, escritor e professor de literatura brasileira, o de Jorge Furtado, cineasta, o de Bernardo Kucinski, jornalista e professor da ECA-USP, o de Soninha, radialista vereadora em São Paulo, o do escritor Ruy Castro, o do sociólogo Renato Ortiz, o da geneticista Mayana Zatz e o do cineasta chileno Miguel Littín. Todos estes textos podem ser visitados a partir do link abaixo:

NO PRÓXIMO MÊS:

NANDO REIS na primeira edição do terceiro ano de "Ao Arqueólogo do Futuro".



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