Mídia

Pássaro sem Asas

02/05/2002 00:00

Ligue as caixas e ouça o Berimbau de Ouro da Capoeira Angola 17 do Mestre Sílvio Acarajé



A Prefeitura de Ubatuba, em São Paulo, implantou, em suas praias, áreas reservadas à pratica de esportes. Estranhei quando vi pela primeira vez aquelas enormes placas, postas no canto da praia da Lagoinha, indicando que aquele trecho de areia destinava-se à pratica de esportes, e acompanhadas de traves de futebol e uma enorme rede, à guisa de alambrado para evitar que a bola atinja os banhistas.



Cresci freqüentando aquela praia e, desde menino, a questão sempre fora resolvida de maneira simples, com o uso de um pouco de bom senso. O canto, naturalmente, por ter areia mais compacta e rampa para barcos, sempre se destinou à prática de esportes. Não apenas os náuticos, mas também os de terra firme, como tênis e vôlei, além do clássico futebol.



A coisa já era tão incorporada aos costumes dos veranistas que o campo de futebol – um par de traves de bambu - tinha até apelido: Nestorzão, em homenagem ao seu Nestor, o vigia que emprestava para o juiz das partidas das tardes de domingo o apito que anunciava suas rondas noturnas.



Mas os tempos mudaram, o seu Nestor morreu de velhice e o número de veranistas elevou-se a um expoente difícil de calcular. O espaço ficou pequeno e as pessoas mais rudes, menos habituadas a dividir áreas comuns. O decreto municipal parece ter resolvido o problema da falta de educação dos banhistas, conduzindo todos os interessados em praticar esportes a um curralzinho bem delimitado, garantindo o direito dos demais freqüentadores da praia de tomarem sol sem levarem uma bola de futebol na cara ou, pior, uma de tênis em lugar mais delicado!



Estava ainda às voltas com as novas sensações trazidas pela percepção do redimensionamento que o espaço sofrera, quando vi um garoto dando piruetas de arrepiar. Vinha correndo, lançava-se ao ar como um pássaro sem asas e voava por rápidos instantes, pousando com suavidade e firmeza no chão. Repetia a manobra com variantes que desafiavam a lei da gravidade, visivelmente num crescente grau de dificuldade.



Aproximei-me para registrar a cena com mais acuidade, pensando que se tratasse de algum atleta olímpico. Logo percebi que havia um grupo de assistentes, todos moradores locais, e o tal rapaz que descobri ser um dos principais capoeiristas do litoral norte paulista: Renato Mariano de Araújo, 17 anos, do Grupo Guelê, discípulo do contra-mestre Portes, estava dando aula de capoeira para garotos, ali na área reservada para prática de esportes.



Depois de sua curta exibição, contou-me que ele foi escolhido para ser fotografado por uma revista especializada e que leciona no lugar do mestre, quando este tem suas crises de hérnia. Perguntei se ele estudava. Disse que não. Acredita mais na capoeira do que no banco de escola para lhe dar algum futuro, se não de prestígio, pelo menos de respeito.



O garoto, apelidado Japonês – pelos olhos rasgados de caiçara com fortes traços indígenas -, mas com nome de batismo Voador – logicamente devido à sua habilidade -, lamentou a falta de apoio de quem quer que fosse. “Quem sabe se alguém desse alguma ajuda... Talvez alguém dê. A área reservada para prática de esporte já existe”.



Depois, voltou a dar suas piruetas sem asas. Sem asas no sentido literal e no figurado, pois as emprestava à minha imaginação que, àquelas alturas, já voava a vê-lo no alto de pódios internacionais, cheio de medalhas, no foco de câmeras, ídolo nacional... se alguém der alguma ajuda!








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