Mídia

Peça de Museu

31/03/2004 00:00

- Tio, quem é que foi Garrastazu Médici?

Era minha sobrinha, de treze anos, que está passando uns dias em casa. Estava fazendo a lição de casa. Uma palavra feia assim, saída da boca de uma inocente criancinha, assustou-me um pouco.

- O quê? - eu falei, arrumando-me na poltrona.

- Médici. Quem é que foi o general Emílio Garrastazu Médici?

- O Médici? Mas... o que é que você está querendo com o Médici?

- A professora de História mandou fazer um trabalho sobre o Golpe de 64.

Puxa vida. Quer dizer que as crianças já estavam estudando o Golpe de 64 como se fosse história? Eu devo estar ficando velho mesmo. Porque eu me lembro muito bem de ver o Médici na televisão, com um radinho de pilha na orelha, torcendo pela seleção de 70, campeã no México. Lembro de outras coisas também.

- E então, tio?

- O quê?

- O Médici!

- Ah, bem... O Médici ele foi um, um... um general!

- Isso eu já sei, tio. Mas ele foi o quê do Brasil?

Bem, e agora? O Médici foi Presidente da República? Será que a gente pode chamar aqueles generais todos de Presidente? Bem, para uma simples lição de História, eu acho que pode.

- O Médici foi presidente. Presidente da República. Mas ele não foi eleito assim, como o Fernando Henrique e o Lula, sabe? Naquele tempo, era de outro jeito.

- De que jeito?

- Bem, eles... eles... Eles elegiam eles mesmos.

- Elegiam eles mesmos?

- É. Foi uma espécie de guerra. Os generais não gostavam de umas pessoas que tinham sido eleitas, assim, nas eleições normais. Então, como eles mandavam no exército, eles pegaram as armas e os tanques de guerra e invadiram Brasília. E tomaram o poder!

- Puxa vida, tio! De verdade?

- É, simplificando bastante, foi mais ou menos assim.

- E os que tinham sido eleitos, não fizeram nada?

- Fizeram. Quer dizer, eles tentaram fazer. Mas os generais mandaram quase todos eles embora do Brasil. E, nos que ficaram, eles bateram bastante. Alguns eles até mataram. Como eu disse, foi uma guerra. Só depois de muitos anos é que aqueles sujeitos que tinham sido eleitos começaram a voltar.

- E os generais deixaram?

- Bem, teve um movimento no Brasil, chamado “Anistia”. De repente, a imprensa, os políticos, a igreja, todo mundo começou a pedir para que deixassem os caras voltarem. Até os estudantes participaram.

- Estudantes assim, que nem eu? - minha sobrinha sorriu.

- É, um pouco mais velhos, mas estudantes sim. Naquele tempo, eu era estudante também. Teve até um dia que a gente estava pedindo anistia numa praça, e o exército chegou e começou a bater em todo mundo. Veio até a cavalaria. Eu fiquei com uma cicatriz, nesse dia. Um soldado passou por cima de mim com um cavalo. Olha aqui ó, onde o cavalo pisou.

E eu mostrei a minha perna. Estava lá, ainda, a cicatriz. Fazia tempo que eu não me lembrava dela. Quantas vezes eu já não tinha mostrado, orgulhoso, para os amigos. Era uma espécie de medalha de honra. Minha sobrinha arregalou os olhos. Até passou o dedo em cima e perguntou se doía.

- Às vezes - eu respondi - Só às vezes...

No dia seguinte, umas quinze amigas dela vieram ver a cicatriz. Uma delas até tirou fotografia.

- Pra colocar no trabalho de História - ela explicou.


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