Mídia

Pesadelos Noturnos

10/04/2002 00:00

- Nem vem.


- O que foi dessa vez, querida?


- Você fala quando dorme, sabia?


- Falo nada.


- Fala sim.


- Bem, e daí que eu falo?


- Daí que essa noite você chamou uma tal de Beatriz.


- Beatriz?


- É. Beatriz.


- Puxa vida...


- Só isso que você tem pra dizer? “Puxa vida”?


- O que mais você quer que eu diga?


- Você pode me dizer, por exemplo, quem é essa tal de Beatriz.


- A Beatriz? Não é ninguém, amor. Vem cá, vem...


- Sai pra lá. E vê se fala a verdade: você tem um caso com essa tal de Beatriz?


- Se eu tenho um caso com a Beatr... Ah, querida, você tá é ficando maluca...


- Maluca? Você me acorda no meio da noite com gritos de “Olha a Beatriz!”, e sou eu quem está ficando louca?


- Tá bom. Outro dia você acordou no meio da noite gritando “Olha o caminhão!”, e isto por um acaso quer dizer que você está tendo um caso com um caminhão?


- É diferente. Eu sonhei que estava sendo atropelada.


- Atropelada?


- É. Atropelada por um caminhão. E você? Estava sendo atropelado pela Beatriz?


- Beatriz é a minha sobrinha.


- Não tá perdoando nem as sobrinhas, é?


- De dois anos.


- O quê?


- Minha sobrinha. Tem dois anos.


- Mentira.


- Mentira nada. Tenho até a fotografia dela na carteira. Quer ver?


- Pois quero.


- Pega ali a carteira na minha calça. Aqui, ó. Tá vendo? Essa é a Beatriz. Filha da minha irmã.


- Ai, que gracinha. Olha só que loirinha. E como é que eu não conheço?


- Ela mora em São Paulo. Satisfeita agora?


- Desculpa, benzinho... Você nunca tinha falado dela... Vem cá, vem...


- Não. Agora sou eu que não quero.


- Ah, querido... Ficou bravo? Você fica tão lindinho quando fica bravo...


PI- PI- PI- PI- PI


- Olha o celular.


- É o meu ou é o seu?


- Alô? Alô?


- Ei... Esse é o meu celular! Dá aqui!


- Alô? Quem? É, esse é o celular da Izildinha. Se a Izildinha está? Está. Quem quer falar?


- Me dá aqui meu celular!


- Toma.


- Qu... qu... quem é?


- Disse que é o Jorge. Jorge do Mercedão. Conhece?


A Izildinha pegou o celular. Pensou um pouco e desligou.


- Deve ser engano.



A ilustração desta crônica também foi feita pelo autor.



10/04/02



LEIA, DO AUTOR, O Incrível Homem de Quatro Olhos








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