Mídia

Preconceito às avessas sustenta o Closet

25/05/2002 00:00

Camila Agustini

O que outrora era tuberculose, hoje é desemprego. O desemprego é o grande mal do século, assusta até mesmo as grandes nações. É na França dos dias de hoje que Francis Veber ambienta a sua recente comédia "O Closet" que sintetiza alguns dos mais importantes problemas da modernidade.



Um contador eficiente, mas, insípido, descobre que perderá o emprego no próximo mês. Abandonado pela mulher, repelido pelo filho, Pignon não tem mais a que se apegar na inutilidade de uma vida regrada.



É em um momento de desespero que ele encontra apoio do seu novo vizinho. É o vizinho que lhe sugere a homossexualidade necessária à manutenção de seu emprego. A não-discriminação seria o elemento de conservação do seu ganha-pão.




A premissa interessante motiva uma revolução na vida do contador. É pelos olhos dos outros que ele aprende a enxergar a vida. É graças à mudança dos outros que ele muda a si próprio, conquistando amigos, amores e respeito.



"Saí de um armário em que nunca entrei", confessa Pignon ante às novidades. Revelar-se, aqui, significa impor aos seus colegas uma reflexão e a necessidade de novos hábitos. E, neste processo, destaca-se a reação do homofóbico Felix, em mais uma decente interpretação de Gerard Depardieu, que, por pressão dos colegas, "esquece" seu preconceito e tenta se aproximar de Pignon.




A película, engraçada e despretensiosa - como não poderia deixar de ser -, dá um tapa, com luva de pelica, na questão do preconceito. Se os homossexuais vêm, gradativamente, conquistando direitos em algumas partes do mundo, ainda são, contudo, alvo de inúmeras violências e desrespeito. Para Veber, conhecido em seu país como "sociólogo do riso", porém, ainda há esperança.



Não é nenhuma obra-prima, é verdade, mas, nos arranca um sorriso sincero.




Todos os dias eram o mesmo dia



Todos os dias eram o mesmo dia. Acordar, ir ao trabalho, tomar café, fazer contas, conversar com a secretária eletrônica da ex-mulher, pensar no filho e ir dormir. Não há sonhos, anseios, beleza ou esperança. A incolor simplicidade do dia-a-dia.



É o medo de perder o emprego que o tira do armário. Não, ele não assume uma sexualidade reprimida. Não é tão simples assim. Ele veste o personagem homossexual, sem adotar maneirismos ou trejeitos típicos. O homossexualismo o prende à empresa que fabrica camisinhas. Não por uma razão humanitária, mas o mercado é implacável e aqui não perdoa o preconceito.



Sair do armário é aqui entendido como aceitar o sopro da vida e enxergar ângulos novos no cotidiano. Sair do armário é inovar, não ter medo do diferente e, mesmo apanhando, ter coragem de despertar.




Engraçada a coletividade que reage ao piscar de um indivíduo. Feito o jogo de dominó, o primeiro que se mexe acorda todos os demais. Feito dominó, a queda é inevitável, e só podemos nos render.



Abençoado Pignon, precisou de uma fantasia para se encontrar!




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