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Pressão aumenta para Facebook controlar discurso de ódio

 

09/07/2020 15:02

Mark Zuckerberg (Getty Images)

Créditos da foto: Mark Zuckerberg (Getty Images)

 
O Facebook entrou em renovado escrutínio público na quarta-feira (8/7) com a publicação de uma auditoria independente que critica duramente o progresso da plataforma em questões de direitos civis, aumentando a pressão interna e externa sobre a empresa para controlar o discurso de ódio e a desinformação.

A auditoria foi o terceiro sapato a cair este mês, depois que um grupo de anunciantes de alto perfil lançou um boicote ao site e após um memorando do Comitê Nacional Democrata atacando a empresa, poucos meses antes de uma eleição crucial.

A revisão independente das políticas da empresa divulgada quarta-feira - a terceira em um conjunto de três comissionadas pela gigante das mídias sociais em 2018 - criticou o Facebook por falhar no desenvolvimento de um mecanismo de proteção aos direitos civis e por uma abordagem de não interferir quando se trata de liberdade de expressão, mesmo em casos de publicações violentas.

Críticos externos disseram que o relatório mostra que a empresa precisa dar um passo adiante e fazer mudanças. Se isso não funcionar, argumentaram, a intervenção do governo seria justificada.

"Se o Facebook não criar regras para a plataforma que protejam eleições livres e segurança pública, então o Congresso deve intervir para garantir que os direitos civis sejam protegidos", disse Rashad Robinson, chefe do movimento Color of Change. "Nosso trabalho continua com ou sem a colaboração do Facebook; não descansaremos até que a plataforma seja um lugar seguro e justo para os negros."

Os auditores tiveram um problema particular com o tratamento que o Facebook dispensa a postagens do presidente Trump. Uma das publicações, que eles destacaram, foi do presidente em resposta aos protestos em Minneapolis pela a morte, pela polícia, de George Floyd em que Trump escreveu "quando os saques disparam, o tiroteio começa".

A revisão pela auditoria disse que a decisão do Facebook, de deixar tais postagens intocadas, tem "consequências do mundo real".

O relatório reconheceu que o Facebook fez "algumas melhorias significativas na plataforma", mas a auditoria geral foi uma repreensão contundente.

O relatório aumenta a pressão crescente sobre o Facebook para endurecer suas políticas contra o discurso de ódio e a desinformação.

Vários grupos de direitos civis lançaram no mês passado uma campanha de boicote a anúncios chamada "Pare o ódio para obter lucro", pedindo às empresas que retirassem seus dólares de anúncios do Facebook durante o mês de julho até que medidas sejam tomadas para resolver essas questões. Centenas de empresas aderiram à campanha.

Na segunda-feira, os líderes desses grupos de direitos civis se reuniram com executivos do Facebook, incluindo o CEO Mark Zuckerberg e COO Sheryl Sandberg, por mais de uma hora. O encontro, organizado pelo Facebook, pouco fez para conquistar seus críticos.

"Terminamos a conversa exatamente onde começamos: outro diálogo, nenhuma ação", disse Derrick Johnson, CEO e presidente da NAACP [National Association for the Advancement of Colored People], em entrevista ao The Hill na segunda-feira.

Os organizadores apresentaram uma lista de 10 demandas destinadas a reduzir o ódio na plataforma, de acordo com Johnson, incluindo a contratação de um especialista em direitos civis para uma posição executiva de topo, submetendo-se a auditorias regulares e criando equipes de especialistas para analisar reivindicações de assédio.

As demandas deles não foram atendidas.

O Facebook disse em um comunicado após a reunião que está trabalhando para "manter o ódio fora de nossa plataforma" e que os líderes dos direitos civis "querem que o Facebook esteja livre de discursos de ódio e nós também".

Em uma chamada separada na terça-feira, executivos do Facebook se reuniram com outros líderes de direitos civis, incluindo Vanita Gupta da Leadership Conference on Civil and Human Rights e Sherrilyn Ifill, presidente do Fundo Legal de Defesa e Educação da NAACP.

"Os recentes anúncios da empresa foram incrementais, em vez do tipo de ação ousada necessária para abordar seriamente o impacto prejudicial da desinformação e do discurso de ódio dos eleitores na plataforma", disseram Gupta e Ifill em uma declaração conjunta. "Enquanto a plataforma for armada para espalhar o ódio e minar nossa democracia, uma comunidade unida de direitos civis continuará a lutar."

A plataforma tem procurado mostrar a auditoria de direitos civis como prova de seu compromisso com melhorias significativas. Sandberg disse na quarta-feira que ter "nossas deficiências expostas por especialistas" tem sido "sem dúvida um processo muito importante para nossa empresa".

Os críticos foram rápidos em apontar que o Facebook não adotou recomendações das duas auditorias anteriores.

"Eles nem sequer adaptaram as recomendações da auditoria anterior", disse Johnson ao The Hill. "O que aprendemos com os dois relatórios de auditoria anteriores é que as recomendações caem por terra."

As críticas ao Facebook não se limitaram aos círculos de direitos civis.

O Comitê Nacional Democrata condenou fortemente a empresa por não cumprir promessas em um memorando obtido pelo The Hill.

O memorando diz que a plataforma não conseguiu limitar conteúdo sensacionalista e ultrapartidário ou desenvolver uma equipe substantiva de verificação de fatos.

"Após a eleição de 2016, o Facebook fez uma série de promessas públicas de mudança", diz o memorando. "Como a empresa faz novos compromissos em resposta às críticas públicas renovadas, vale a pena rever cuidadosamente como as ações da empresa se comparam às suas palavras. Em muitos casos, como documentado abaixo, o Facebook não cumpriu suas promessas."

A abordagem da plataforma para o discurso de ódio também atraiu ira interna. No mês passado, dezenas de funcionários organizaram uma "greve digital", enquanto outros criticaram publicamente Zuckerberg online.

O fogo de todos os ângulos levou a algumas mudanças, no entanto.

Zuckerberg se comprometeu recentemente a marcar discursos políticos que violem as políticas da plataforma, uma mudança marcante em relação à abordagem anterior da empresa.

A empresa também se comprometeu com uma posição de direitos civis, embora não no nível solicitado pelos grupos de direitos civis.

No entanto, essas mudanças não correspondem aos passos tomados por outras empresas de mídia social. O Twitter começou a rotular e reduzir a disseminação das postagens de Trump, enquanto o Snapchat parou, inteiramente, de promover o presidente.

O compromisso do Facebook com a liberdade de expressão acima de tudo, uma posição descrita em um longo discurso que Zuckerberg fez na Universidade de Georgetown no ano passado, provavelmente atrairá mais críticas, especialmente à medida que o Dia da Eleição se aproximar.

"Elevar a liberdade de expressão é uma coisa boa, mas deve se aplicar a todos", escreveram os auditores em seu relatório.

"Quando isso significa que políticos poderosos não têm que respeitar as mesmas regras que todos os outros, uma hierarquia de discurso é criada e privilegia certas vozes sobre vozes menos poderosas", acrescentaram. "A priorização da liberdade de expressão sobre todos os outros valores, como igualdade e não discriminação, é profundamente preocupante para os auditores."

*Publicado originalmente em 'The Hill' | Tradução de César Locatelli



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