Mídia

Prestadores de serviço do Facebook enfrentaram ultimato de Natal: ou aceitavam oferta de salário ou perderiam os empregos

Uma disputa entre uma empresa de terceirização e seus contratados, que exigiam melhores condiçõe, provocou protestos internos no Facebook

23/12/2018 19:31

 

 
Após exigirem melhores condições de trabalho, 20 empregados terceirizados do Facebook foram aconselhados a aceitar uma contraproposta de sua empresa até a tarde de sexta-feira – ou perderiam seus empregos.

A disputa trabalhista provocou protestos internos de alguns funcionários em tempo integral do Facebook, que vêm compartilhando atualizações sobre a situação no Facebook interno da empresa, o chamado Workplace, de acordo com postagens vistas pelo Guardian.

"Ameaçar demissões no Natal é repugnante", disse um engenheiro de software do Facebook que viu os posts e falou ao Guardian por telefone, sob a condição de anonimato.

A disputa envolve um grupo de assistentes de pesquisa e um coordenador de programa que trabalha para a Filter Digital, uma empresa contratada pelo Facebook Reality Labs. É neste local, na área de Seattle-Redmond, anteriormente chamado de Oculus Research, que a empresa faz pesquisa e desenvolve produtos de realidade virtual e realidade aumentada.

No dia 6 de dezembro, os 20 trabalhadores assinaram uma carta à administração da Filter Digital pedindo melhores condições de trabalho.

"Decidimos ter coragem e exigir mudanças, e nos unimos para propor melhores condições de trabalho", dizia a carta. "Muitos de nós temos dois empregos, temos baixos padrões de vida e/ou não podemos pagar os cuidados médicos necessários para nós e nossas famílias... Em caso de alguma situação de emergência, muitos terão que viver nas ruas".

A carta abordava as discrepâncias nas condições de trabalho entre os funcionários da Filter e outros funcionários que trabalham nas instalações do Facebook, inclusive terceirizados contratados por outras empresas. O Facebook fecha sua sede 11 feriados por ano, de acordo com a carta, enquanto o Filter só prevê folga em cinco desses feriados. Mas como o escritório do Facebook está fechado nestes dias, impossibilitando que os funcionários da Filter possam trabalhar, eles são obrigados a usar seis de seus 10 dias de férias pagas para cobrir os outros feriados - ou não são pagos.

Os trabalhadores também pediam licenças médicas pagas, benefício para transporte público equivalente ao de outros prestadores de serviço do Facebook, e um aumento salarial significativo (de um salário inicial de 22 dólares/ hora para assistentes de pesquisa para um salário inicial de 30 dólares/ hora).

A carta solicitava que a Filter respondesse às demandas do grupo "coletivamente". A negociação coletiva é regulada pela Lei Nacional de Relações Trabalhistas nos Estados Unidos, e os trabalhadores são amparados por algumas proteções legais quando organizam “atividades concertadas protegidas”, pertencendo ou não a um sindicato reconhecido.

Um empregado em tempo integral do Facebook compartilhou uma cópia da carta no Workplace e “recebeu muitas reações positivas de funcionários em tempo integral e de trabalhadores temporários”, explicou o engenheiro de software do Facebook.

Na quinta-feira, um funcionário em tempo integral do Facebook publicou uma atualização sobre a situação, afirmando que a Filter havia respondido à carta de trabalho com uma série de reuniões individuais com os trabalhadores antes de enviar um e-mail para o grupo na noite de quarta-feira.

O e-mail, ao qual o Guardian teve acesso, afirmava que os trabalhadores tinham que aceitar os termos da Filter para 2019 ou deixar a empresa: “Como discutimos em nossas reuniões, o contrato do Facebook é renovado em janeiro. Portanto, para fins de planejamento de negócios, precisamos saber se cada um de vocês deseja continuar trabalhando para a Filter nessas condições... Se a carta com a proposta não for devolvida assinada até essa data, presumiremos que você não deseja continuar em seu trabalho para a Filter”.

No post no Workplace, um funcionário do Facebook que disse ter estado em contato com os terceirizados da Filter descreveu as contrapropostas como “migalhas”.

"Devido aos eventos recentes, atualmente estamos trabalhando em um ambiente realmente assustador", disseram os contratados da Filter em uma declaração conjunta endereçada aos funcionários do Facebook e fornecida ao Guardian. "Falar em 'incerteza' é pouco para descrever como nos sentimos sobre o nosso futuro... Passamos pelos canais apropriados e tudo o que conseguimos como resposta foram ameaças, coerção e retaliação".

O The Guardian entrou em contato com o Facebook e a Filter Digital sobre as reivindicações dos trabalhadores na tarde de quinta-feira.

Joe Melanson, CEO da Filter Digital, disse por e-mail que a empresa forneceria “mais informações em 24 horas”.

“Estamos trabalhando juntamente com nosso conselho e nossa equipe de Recursos Humanos para avaliar essas demandas”, escreveu. “Valorizamos muito nosso relacionamento com nossos funcionários”.

Após a publicação desta matéria, um porta-voz do Facebook disse que a empresa interveio junto à Filter Digital.

"Exigimos um alto padrão de nossos fornecedores e analisamos a situação logo que essas questões foram levantadas", disse a porta-voz Andrea Schubert em um comunicado. “Assim que soubemos desse e-mail para os funcionários da Filter Digital e sobre as possíveis preocupações com o prazo, discutimos com a Filter Digital e eles tomaram providências para voltar a se comunicar com seus funcionários”.

Melanson também contatou o Guardian após a publicação, para afirmar que o e-mail com o prazo de cinco horas da tarde não era um ultimato. Melanson disse que a empresa havia entrado em contato os empregados na tarde de quinta-feira para "esclarecer qualquer confusão".

"Dissemos aos nossos funcionários que não se tratava de um ultimato", disse Melanson por telefone.

Posteriormente, a empresa enviou uma declaração por escrito: “A carta enviada aos nossos funcionários no Facebook Reality Labs pelo gerente de RH da Filter não pretendia fazer um ultimato de trabalho. Ao saber que nossa mensagem não foi recebida como planejado, enviamos um e-mail de acompanhamento para os funcionários na tarde de hoje, esclarecendo que seu contrato com a Filter e os contratos de terceirização com o Facebook continuarão válidos com seus novos salários e benefícios em 2019”.

A empresa também disse que planejava começar a sincronizar a agenda de feriados do Facebook em 2019 e estava fazendo mudanças nos salários e benefícios.

O engenheiro do Facebook disse que nos últimos meses os funcionários em tempo integral do Facebook vêm discutindo frequentemente as condições de trabalho dos exércitos de trabalhadores temporários no Facebook, que incluem zeladores, trabalhadores de cafeterias, moderadores de conteúdo, entre outros.

“O Facebook tem essa cultura interna de 'Tratamos nossos funcionários tão bem; todo mundo está feliz’, e acho que isso até seja relativamente verdadeiro para os funcionários em tempo integral", disse o engenheiro de software. "Mas há outra parte enorme do ambiente de trabalho com a qual não nos envolvemos muito, e as coisas são realmente diferentes para eles."

O engenheiro disse que os trabalhadores temporários raramente postam sobre as condições de trabalho no Workplace, apesar de terem acesso aos mesmos fóruns internos, mas que, nos últimos meses, alguns funcionários em tempo integral começaram a postar relatos anônimos com as preocupações destes prestadores de serviços.

Em sua declaração, os funcionários da Filter agradeceram aos empregados do Facebook pelo apoio.

"Estamos orgulhosos do trabalho que fazemos no Facebook Reality Labs e queremos continuar a fazer esse trabalho", escreveram. "Por favor, não se esqueçam de nós durante os feriados, continuem compartilhando uns com os outros o que acontece em nossos trabalhos, façam perguntas e nos ajudem a continuar nosso trabalho "Estamos orgulhosos do trabalho que estamos fazendo no Facebook Reality Labs e queremos continuar fazendo esse trabalho", escreveram eles. "Por favor, não se esqueça de nós durante as férias, continue compartilhando uns com os outros sobre o que está acontecendo com nossos trabalhos, faça perguntas e nos ajudem a continuar nosso trabalho com segurança no ano que vem".

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de Clarisse Meireles



Conteúdo Relacionado