Mídia

Promotores brasileiros acusam jornalista Glenn Greenwald de crimes cibernéticos

Greenwald acusado de ajudar hackers que obtiveram mensagens de celular trocadas entre as principais figuras de investigação anticorrupção

23/01/2020 16:56

(Evaristo Sa/AFP/Getty Images)

Créditos da foto: (Evaristo Sa/AFP/Getty Images)

 
Os promotores federais brasileiros acusaram o jornalista norte-americano Glenn Greenwald por crimes cibernéticos em uma decisão que provocou indignação entre os ativistas da liberdade de imprensa - e comemoração pelos aliados do presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro.

Os promotores disseram que Greenwald "ajudou, incentivou e guiou" um grupo de hackers que obteve mensagens de celular trocadas entre personalidades importantes na gigantesca investigação anticorrupção no Brasil, chamada operação Lava Jato.

Os vazamentos, publicados posteriormente em várias matérias no site investigativo, The Intercept Brasil, que Greenwald cofundou, pareciam mostrar conluio entre o então juiz Sérgio Moro e os promotores e exacerbaram as questões de viés político das investigações da operação Lava Jato. Moro foi posteriormente nomeado ministro da Justiça por Bolsonaro.

"Não é apenas a segurança de Glenn e sua família que está ameaçada por isso, mas todos os jornalistas e a liberdade de expressão no Brasil. Trata-se de uma tentativa de intimidar a imprensa em geral”, afirmou Rogério Sottili, diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, uma organização não-governamental que defende a democracia, os direitos humanos e a liberdade de imprensa.

Greenwald, que mora no Rio de Janeiro, ganhou um prêmio Pulitzer por liderar a reportagem do jornal The Guardian sobre espionagem da Agência de Segurança Nacional (NSA) revelada por Edward Snowden.

Após os vazamentos no ano passado, o presidente sugeriu que Greenwald poderia "cumprir pena de prisão" e pareceu fazer chacota sobre as acusações na terça-feira.

“Onde está esse cara? Ele está no Brasil?” Respondeu Bolsonaro a repórteres na capital Brasília.

Aliados de Greenwald condenaram as acusações contra ele como um ataque à imprensa, observando que em dezembro, a Polícia Federal do Brasil disse que "não é possível identificar a participação moral ou material do jornalista".

Manuela d'Ávila, uma política de esquerda, tuitou: “A Polícia Federal após uma longa investigação declarou que Glenn não cometeu nenhum crime e que ele agiu com muita cautela. Estamos enfrentando um forte ataque à liberdade de imprensa!”

Políticos de partidos de direita também se juntaram ao coro de indignação.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia - membro do partido Democrata de direita, terceiro na fila da presidência - tuitou: “Jornalismo não é crime. Sem jornalismo livre, não há democracia.”

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo disse: "É ridículo que o Ministério Público abuse de suas funções de perseguir um jornalista e, portanto, viole o direito dos brasileiros de viver em um país com uma imprensa livre para expor irregularidades de autoridades públicas".

A suprema corte do Brasil emitiu uma liminar no ano passado que proibia Greenwald de ser investigado no caso dos supostos hackers, citando leis de liberdade de imprensa.

Os promotores disseram que, embora Greenwald não estivesse sendo investigado, as evidências obtidas nos computadores de um dos hackers acusados mostraram trocas de mensagens com o jornalista, que provavam que ele havia participado de uma ação ilegal.

Em um deles, Greenwald disse que "não poderia dar nenhum conselho" ao hacker acusado Luiz Henrique Molição.

As acusações terão que ser aceitas por um juiz antes que Greenwald seja julgado.

Os apoiadores do jornalista observaram que o mesmo promotor, Wellington Oliveira, também acusou o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz, de difamação depois que ele descreveu Moro como um "chefe de gangue" para o jornal Folha de S. Paulo.

As acusações foram rejeitadas por um juiz na capital Brasília na semana passada.

Greenwald respondeu ao anúncio de terça-feira em um tuíte:

"Em relação às acusações criminais apresentadas pelo governo Bolsonaro: é um ataque grave e óbvio à imprensa livre, apresentada por um juiz de extrema-direita.

Vamos defender uma imprensa livre, não seremos intimidados por autoridades que abusam de seu poder. As reportagens continuarão.”

Aliados de Bolsonaro celebraram as acusações.

Eduardo, filho do congressista de Bolsonaro, tuitou: “Glenn Greenwald sempre dizia que amava o Brasil e queria conhecer o país em profundidade. Quem sabe, talvez ele até conheça a prisão…"

O próprio presidente recentemente aumentou seu ataque a jornalistas, descrevendo-os recentemente como "uma espécie em extinção" e dizendo que os jornais "envenenam" seus leitores.

Em um comunicado, The Intercept disse: "Estamos chocados que o Ministério Público do Brasil tenha decidido registrar uma acusação com motivação tão flagrantemente política contra Greenwald, em visível retaliação pelas reportagens críticas do site The Intercept sobre abusos cometidos pelo Ministro da Justiça Moro e vários promotores federais ....

Não há democracia sem imprensa livre, e os defensores da imprensa em todos os lugares devem estar profundamente preocupados com a última ação autoritária de Bolsonaro.”

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de César Locatelli

Conteúdo Relacionado