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Quando as tecnologias de controle social se encontram: austeridade fiscal, Facebook e fascismo no início do século XXI

 

07/08/2019 12:27

(Netflix/Reprodução)

Créditos da foto: (Netflix/Reprodução)

 

O texto que segue trata da atual lógica de controle social e econômico estabelecido não somente no Brasil como multiplicado em todo planeta. A leitura resulta da análise e pontos de encontro de duas obras que julgo sejam vitais para entendermos e tratarmos a atual crise fascista e farsesca brasileira: o livro de Naomi Klein (A doutrina do choque: a ascensão do capitalismo de desastre. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, acessível em: https://yadi.sk/i/vavSBK-tuwOmBQ) e o documentário de Karim Amer e Jehane Noujaim (Privacidade Hackeada, acessível em: https://www.netflix.com/br/title/80117542).

O ponto de convergência principal, entre outros, das duas obras, refere-se ao encontro das lógicas doutrinárias de Milton Friedman e da Braitbart News (site de notícias, opiniões e comentários de extrema-direita), resumidas nos termos de Naomi Klein como “o capitalismo do desastre” ou na fala de um dos protagonistas mais controversos de Privacidade Hackeada, Christopher Wiley: “primeiramente tudo se destrói, para se recompor conforme a crença do controlador da destruição”.

Um breve resumo das duas obras se faz útil para o tratamento e análise da situação brasileira ao final. Primeiramente, a obra de Klein estabelece uma tese fundamental: à exemplo da psique individual, passível de ser submetida a “choques” e condicionamentos traumáticos que possibilitem soluções desejáveis a um terceiro individuo, geralmente uma força antagônica controladora e autoritária, algo muito próprio dos manuais de tortura da CIA, como nos revela a autora; as sociedades também podem ser coletivamente submetidas a tratamentos de choques e, a depender, da situação podem ser criadas situações limites de “desastres e traumas sociais” uteis a imposição de soluções sociológicas e econômicas somente possíveis em função daquelas situações impostas. Klein refere-se ao “gênio” por trás dessa compreensão e construção do “capitalismo de desastres” como um paciente arquiteto da contemporaneidade neoliberal: Milton Friedman.

Por trás das suas ilações de liberdade econômica, algo que Friedman estabeleceu como a construção de uma utopia liberal que se opunha as duas lógicas de intervenção do Estado que ele criticava (o Keynesianismo e o Socialismo), se impunha a absoluta condição do autoritarismo que, tal como se observou na experiência do Chile de Pinochet, se deu como regra fundamental para o “tratamento de choque” neoliberal. O trauma social pode ser produzido desde a intervenção política de um golpe de Estado como se fez no Chile, desorganizando a sociedade e produzindo um efeito de paralisia e incapacidade de reação, algo que naquela experiência custou vitimou mais de 40 mil chilenos (ver: encurtador.com.br/fxRV2).

O centro dos choques para construção da efeméride mercantil, onde o mercado tudo pode, definiu-se desde sempre a partir da “trindade política”: “eliminação da esfera pública, total liberdade para as corporações e gasto social mínimo”. Esses três componentes foram a partir da crença de Friedman, mantidos no conjunto de experimentos realizados em um número muito expressivo de países e ao longo das quatro últimas décadas, com variações e graus e radicalidade, como mostra a autora.

Vale aqui, por exemplo, lembrar os anos FHC no Brasil e sua adaptação a lógica do “Consenso de Washington”, sendo que naquela altura o neoliberalismo produziu uma primeira dissociação entre Estado e sociedade civil, aprofundando, no caso brasileiro e latino-americano, um crescente e maior nível de comprometimento com tudo o que é transnacional, mundial ou propriamente global, fortalecendo o predomínio econômico das corporações transnacionais e elevando o grau de desnacionalização das economias do continente.

A “doutrina do choque” condiz com uma visão extensamente defendida por Friedman em que toda intervenção estatal se reduziria a lógica do controle policial e militar, esvaziando todas as demais políticas públicas. A crença neoliberal no Estado policial e na solução meritocrática do mercado definiu os regramentos de conduta do capitalismo do final do século XX e do início deste XXI. Parafraseando Eduardo Galeano, escritor uruguaio citado por Klein, a produção de uma sociedade de gigantesca desigualdade e de extrema miséria somente seria possível com a tortura do “choque elétrico” utilizado pelas ditaduras latino-americanas.

Convém agora dar voz para o espetacular trabalho cinematográfico de Karim Amer e Jehane Noujaim, cujas repercussões das tecnologias de interatividade social desenvolvidas nas últimas duas décadas nos colocam muito próximos de uma visão “orweniana” de controle total. Como nos fala um dos protagonistas centrais da trama, David Carrol: “agora somos a mercadoria (...) e ficamos tão inebriados com esses mundo de interatividade que ninguém parou para ler os termos ou as condições (...). De outro modo o controle social passa a deter a partir das novas tecnologias de rede social a capacidade de produzir choques de ideias e produzindo crescentes defensores da efeméride mercantil a partir da manipulação das informações individuais.

Como definido no documentário os “persuasíveis” podem ser qualquer um de nós, cuja exposição no sistema de controle define um perfil (profile) que pode ser vendido, devidamente manipulado e submetido aos diversos tipos de coerção necessários ao tratamento de choque social friedminiano.

Como bem sabemos, os nossos históricos de acesso a sites, intervenções nas redes sociais, especialmente Facebook, Whatsapp, Twitter, contatos via e-mail, tudo compõe um quadro amplo e aterrador de controle social, um big brother que, como nos faz lembrar a jornalista Carole Cadwalladr, do The Guardian, os dados não evaporam, são devidamente coletados e usados para projetar nosso perfil, sendo essas informações mercadorias a serem negociadas em um conjunto variado de mercados, sendo o mercado político somente um deles, mas o central a ser considerado é que a lógica de controle social e de domínio se estendeu a uma interatividade da própria vida privada.

O documentário se desenvolve centrado em dois episódios internacionais centrais: o BREXIT, referente à saída da Grã Bretanha da União Europeia e a eleição de Trump para presidente dos EUA. O centro objetivo do documentário refere-se como a empresa Cambridge Analytica SCL operaram na mineração e manipulação de informações e dados dos cidadãos ingleses e estadunidenses, obtidos via Facebook e outras redes sociais. A analista-operadora da Cambridge que se torna a principal protagonista do vídeo-documentário, Brittany Kaiser, afirma que os "dados são os recursos mais valiosos da terra" (vide Facebook e Google), sendo que o que faz o Facebook senão monetizar os dados que recolhe de todos nós e a partir da operação de coleta e arquivamento de dados constrói bases estruturadas de perfis pessoais que podem ser utilizados comercialmente.

A operação internacional dirigida pelo Steve Bannon, até então vice-presidente da Cambridge Analytica, estabeleceu uma verdadeira “Internacional” de ultra-direita, conformando uma tecnologia política de controle social, como diz o documentário, uma “quadrilha digital” de imposição de uma ordem autoritária internacional e de recomposição das relações de poder estadunidense no mundo, uma verdadeira máquina de propaganda e controle internacional: um Goebbels global e contemporâneo.

A construção da ordem internacional recente passa como nos relata o documentário, pela intervenção das corporações digitais assumindo um projeto de controle social e de imposição das regras de Friedman. Como se assinala no filme tem uma “corrente sombria que nos conecta globalmente, via às redes sociais”. As intervenções localizadas foram muito variadas até aqui: Lituânia, Romênia, Malásia, Trinidade-Tobago, Nigéria, Inglaterra, EUA, Brasil, uma tática de comunicação estabelecida como arma de intervenção numa perspectiva de guerra psicológica.

Vale observar que a intervenção da SCL (Strategic Communication Laboratories, braço logístico e de indústria de guerra da Cambridge) se deu experimentalmente nos países periféricos, sendo que a consolidação do modelo de “guerra hibrida” com base no uso de fake news via redes sociais, especialmente Facebook e Whatsap (no caso brasileiro) se deu nos últimos três anos com a sequencia dos três episódios de fraudes e destruição dos sistemas de democracia representativa burguesa, cujo centro foi a eleição de Trump e Bolsonaro.

A doutrina de choque teorizada por Naomi Klein e o documentário de Karin Amer nos possibilita uma linha de interpretação rica para os movimentos de destruição da soberania brasileira e da completa entrega das fontes de petróleo e outras riquezas nacionais à exploração do capital internacional, inclusive e principalmente das tecnologias de prospecção em águas profundas, além do desmonte das regras institucionais democráticas. Deve-se observar, como já exposto em outro artigo aqui publicado (encurtador.com.br/oIV68), que a privatização e desnacionalização da Petrobrás, Eletrobrás e outros ativos nacionais são parte da reconstrução de uma periferia mais pujante para os EUA, significando para o Brasil sua completa subordinação e periferização, convertida a um modelo econômico ultraliberal centrado na produção agrominero-exportadora.

O centro do golpe de 2016 e a eleição de Bolsonaro evidenciou a conformação de um bloco de poder que busca estabelecer esta nova dinâmica neocolonial, reorganizando a economia brasileira conforme um perfil de centro periférico privilegiado, utilizando-se das bases naturais (matéria-prima, terra e commodities em geral) e dos baixos custos salariais (superexploração) como plataforma de estruturação de um regime de acumulação primário exportador e de nexo militarizado. A lógica aqui parece ser de uma nova corrida ao controle de recursos naturais estratégicos, assim a subordinação radical do Brasil ao controle dos estoques de recursos naturais como petróleo e minérios constitui o centro da nova escalada de dependência ao império norte-americano. Vale reforçar que a história nos mostra que a condição de crise mais radical do capitalismo e de decadência de sua potência hegemônica na época histórica se resolve sempre pela radical subordinação das sociedades periféricas, geralmente impondo formas autoritárias subservientes ao centro decadente.

Voltando ao texto de Klein que observa que algumas “das violações mais infames dos direitos humanos de nossa era (...) foram cometidas com a intenção clara de aterrorizar o público, ou ativamente empregadas a fim de preparar o terreno para a introdução das “reformas” radicais de livre mercado”. No caso brasileiro os usos das tecnologias de choques de fake news e de destruição institucional tiveram como objetivo a destruição da soberania nacional e o estabelecimento de uma Nigéria latina. Somente nos resta a resistência e superação desse estupido mundo novo de miséria e totalitarismo.

José Raimundo Trindade é Professor da Faculdade de Economia da UFPA

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