Mídia

Repórteres enfrentam novas ameaças dos governos que cobrem

Os casos contra Julian Assange e Glenn Greenwald podem ser modelos de repressão

29/01/2020 15:43

(Adriano Machado/Reuters)

Créditos da foto: (Adriano Machado/Reuters)

 
Quando Julian Assange, fundador do WikiLeaks, foi acusado, no ano passado, pelo governo Trump, de publicar documentos secretos do governo dos Estados Unidos quase uma década antes, muitos jornalistas expressaram profunda preocupação com o perigoso precedente que o caso poderia criar para reportagens investigativas nos Estados Unidos. .

Mas poucos pareciam considerar que o caso também poderia servir de modelo para outras nações ávidas para reprimir a liberdade de imprensa.

Na terça-feira, Glenn Greenwald, jornalista americano que mora e trabalha no Brasil, foi acusado, em uma queixa criminal apresentada por promotores brasileiros, de crimes cibernéticos relacionados às suas matérias sobre mensagens privadas entre autoridades brasileiras que revelaram corrupção e abusos nos mais altos níveis do governo.

Os promotores brasileiros afirmaram que Greenwald fazia parte de uma organização criminosa que invadiu os celulares de funcionários do governo. Ele negou as acusações.

(Esclarecimento: Greenwald é cofundador do The Intercept, onde trabalho como repórter; também administro o First Look Press Freedom Defense Fund, parte da organização sem fins lucrativos que inclui o The Intercept.)

O caso contra Greenwald é estranhamente semelhante ao caso do governo Trump contra Assange. Em abril passado, o Departamento de Justiça acusou Assange de ajudar uma fonte, a ex-analista de inteligência do Exército, Chelsea Manning, a obter acesso a um banco de dados militar de computadores dos Estados Unidos.

Em maio de 2019, as acusações contra ele foram ampliadas e ele foi indiciado sob a Lei de Espionagem em conexão com a publicação de documentos militares e diplomáticos americanos pelo WikiLeaks.

Ambos os casos se baseiam, em parte, em um novo conceito de acusação - que o jornalismo pode ser um crime através do foco nas interações entre repórteres e suas fontes. Os promotores agora estão examinando os processos pelos quais as fontes obtêm informações classificadas ou privadas e as fornecem aos jornalistas.

Como essas interações hoje são amplamente eletrônicas, os promotores buscam criminalizar o jornalismo, recorrendo às leis anti-hackers para implicar os repórteres na suposta atividade criminosa de suas fontes na obtenção de acesso a dados em computadores ou telefones celulares sem autorização.

Essa brusca abordagem dá ao governo uma enorme influência sobre os jornalistas e, nos Estados Unidos, fornece-lhes um meio de passar ao largo das preocupações da Primeira Emenda. Se esses casos se tornarem modelos que os promotores nos Estados Unidos e em outras nações venham a seguir, praticamente todo repórter investigativo ficará sujeito a acusações criminais e prisão.

Tanto o governo Trump quanto o governo brasileiro de direita do presidente Jair Bolsonaro parecem ter decidido experimentar essas táticas draconianas anti-imprensa, testando-as primeiro em figuras agressivas e desagradáveis.

De fato, na época de sua acusação no ano passado, ainda havia um debate em andamento na mídia sobre se Assange deveria mesmo ser considerado jornalista.

Em 2010, quando o WikiLeaks começou a publicar os enormes vazamentos de documentos do governo dos Estados Unidos que obteve de Manning, Assange, de repente, emergiu como um novo ator estranho no cenário jornalístico moderno.

Sob sua liderança, o WikiLeaks publicou os documentos em si e também compartilhou muitos dos documentos vazados com outras grandes organizações de notícias, o jornal The New York Times entre elas.

Assange era editor e intermediário entre fontes e repórteres, o que dificultava definir seu papel jornalístico. Seu envolvimento posterior no caso Trump-Rússia - em 2016, o WikiLeaks obteve e divulgou e-mails e outros documentos da campanha presidencial de Clinton e do Comitê Nacional Democrata de um hacker que se acredita ser a fachada da inteligência russa - transformou Assange em uma personalidade mais incendiária com pouco apoio público. (As acusações federais contra Assange não estão relacionadas ao seu envolvimento na campanha de 2016).

Greenwald tem prazer em sua dissensão e seu desdém pela grande mídia. Ele e eu discutimos publicamente nossas opiniões diferentes sobre o caso Trump-Rússia. Mas ele também é um jornalista zeloso que ganhou destaque em 2013 por sua cobertura ganhadora do Prêmio Pulitzer de um enorme acervo de documentos da Agência de Segurança Nacional que foram vazados pelo ex-contratado da NSA, Edward Snowden.

No ano passado, Greenwald obteve outro grande vazamento, as mensagens privadas de funcionários do governo brasileiro sobre um grande caso de corrupção no Brasil que levou à condenação do ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.

As reportagens de Greenwald revelaram que a investigação que levou à condenação de Lula foi profundamente politizada e corrupta. As matérias foram explosivas no Brasil e, no final das contas, ajudaram a levar à libertação de Lula da prisão em novembro.

Mas as reportagens de Greenwald enfureceram o presidente Bolsonaro, que vinha fazendo ameaças contra o jornalista meses antes da denúncia apresentada na terça-feira.

Em uma entrevista comigo na quinta-feira, Greenwald concordou que há paralelos entre o caso dele e o de Assange e acrescentou que ele não acredita que Bolsonaro teria entrado em ação contra um jornalista americano se ele pensasse que o presidente Trump se oporia a isso.

"Bolsonaro adora Trump, e o governo Bolsonaro está recebendo o sinal de Trump de que esse tipo de comportamento é aceitável", disse ele.

O Departamento de Estado não divulgou nenhuma declaração de preocupação sobre o caso do Brasil contra Greenwald, que em administrações anteriores teria sido uma prática comum.

"Trata-se de atacar repórteres que publicam informações embaraçosas, e não os 90% dos vazamentos que saem de Washington que são vazamentos oficiais projetados para apoiar as pessoas no poder", disse Joshua Dratel, advogado de defesa criminal em Nova York, que representou proeminentes denunciantes e que também representou o WikiLeaks em uma ação civil movida pelo Comitê Nacional Democrata.

De fato, a retórica e as ações anti-imprensa de Trump incentivaram regimes autoritários em todo o mundo a processar e prender jornalistas e a impor novas leis anti-imprensa e outras medidas destinadas a reduzir a cobertura negativa.

Joel Simon, diretor executivo do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, disse em uma entrevista que uma das mais recentes táticas espalhadas pelo mundo é a criação de leis de “fake news” vagamente formuladas que criminalizam as notícias que os funcionários do governo consideram erradas. "Fake news" é, obviamente, uma expressão que Trump ajudou a popularizar.

“O Catar acabou de promulgar uma lei de fake news esta semana", disse Simon, observando que Cingapura também tem uma. “Essas leis de fake news estão absolutamente correlacionadas com o governo Trump".

A evidência mais trágica de que Trump está possibilitando uma repressão global à imprensa foi seu erro em não responsabilizar o líder da Arábia Saudita, príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, pelo brutal assassinato em 2018 do jornalista do Washington Post, Jamal Khashoggi. “O governo Trump é cúmplice após o fato do assassinato de Khashoggi", disse Simon.

Enquanto os governos Bush e Obama eram “inconsistentes" em questões de imprensa, “eles ainda estavam dispostos a discutir preocupações sobre a liberdade de imprensa com outro país no âmbito do relacionamento bilateral", acrescentou. "Isso acabou agora com Trump".

Será trágico se os jornalistas se encolherem com o ataque ao seu opositor, Greenwald, e não entenderem seu caso por aquilo que realmente é - que ataques à imprensa do tipo Trump estão se espalhando como um vírus pelo mundo.

James Risen é o correspondente sênior de segurança nacional do The Intercept. Como repórter do The New York Times, ele e outro ex-repórter do Times, Eric Lichtblau, receberam o Prêmio Pulitzer de 2006 por reportagem sobre escutas domésticas secretas pelo governo federal.

*Publicado originalmente no The New York Times






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