Mídia

Resistência armada

15/04/2005 00:00

Gérson Trajano

Thiago (Leonardo Medeiros), comandante de um grupo de ação de uma organização de ultra-esquerda brasileira, ferido à bala pela polícia, está escondido em um apartamento em São Paulo. Matheus (Jonas Bloch), um dos dirigentes da organização, luta incansavelmente para salvar o que restou dos seus quadros, desbaratados pelas forças de repressão. O ano é 1971, e com as baixas os principais dirigentes propõem ao grupo o fim da luta armada. Acreditando que a direção o traiu, Thiago não concorda com a resolução e firma posição de combater o regime militar, mesmo que sozinho.



É neste contexto histórico em que se desenrola Cabra-cega, novo filme de Toni Ventura. O filme é o terceiro longa-metragem do diretor, realizador do documentário O Velho, cinebiografia de Luiz Carlos Prestes, e de Latitude Zero, uma ficção.



Para compor sua história, Ventura entrevistou 11 ex-guerrilheiros, inclusive o ministro da Casa Civil, José Dirceu. Líder estudantil e integrante do Molipo – organização dissidente da ALN –, Dirceu foi preso, trocado pelo embaixador norte-americano seqüestrado, e enviado para o exterior.



“No Brasil, a guerrilha não crescia, pelo contrário, foi sendo reprimida e a sociedade foi sendo atemorizada pela ditadura e o terror oficial foi tomando conta e a guerrilha foi isolada e vista como terrorismo, não tinha saída. Isso não tem solução, é derrota na certa”, diz o ministro.





Pego em uma emboscada e ferido na altura do peito, Thiago é levado para o apartamento do arquiteto Pedro (Michel Bercovitch). Lá, recebe os cuidados da enfermeira Rosa (Débora Duboc), uma militante de base, filha de operário comunista.



Enquanto cresce o afeto entre o guerrilheiro e a militante, Thiago recebe noticias de companheiros mortos pela policia, de “aparelhos” estourados.



Numa metáfora da situação, toda vez que Thiago olha para o teto do quarto em que se esconde, vê aumentar suas rachaduras. São como veias abertas e expostas para que todos vejam.



“Meus personagens são de carne e osso, com fraquezas e virtudes, mas tudo, menos ingênuos. Sabiam o que estavam fazendo e foram muito corajosos. Pagaram caro pelas suas opções, mas sonhar não é pecado”, diz Ventura.



Fazer um homem obstinado pela luta armada, convicto de suas ações rendeu o prêmio de Melhor Ator a Leonardo Medeiros no 37º Festival de Brasília. Mas ele não é o único ator de destaque no filme. Débora Duboc também consegue dar brilho e equilíbrio ao seu personagem, juntamente com Jonas Bloch, que se apoiou em figuras de antigos líderes revolucionários.



Veja o trailer de Cabra-cega


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