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Segundo análise, mídia corporativa dos EUA 'falha em conectar crise climática à mais forte tempestade atlântica a atingir o continente'

A devastação do Furacão Dorian provoca alertas para que repórteres reconheçam a conexão entre a emergência climática e o clima extremo

09/09/2019 12:23

(Scott Olson/Getty Images)

Créditos da foto: (Scott Olson/Getty Images)

 

Enquanto o Furacão Dorian marchou para a costa sudeste dos EUA depois de devastar o norte das Bahamas, defensores climáticos reiteraram a conexão entre a emergência global e o clima extremo – mesmo enquanto análises mostram que grandes veículos de imprensa estão falhando em reportar o mesmo.

Depois de chegar ao continente como um furacão de categoria 5, o Dorian passou pelas Bahamas deixando uma trilha de destruição total.

Uma organização de defesa da ciência explicou no início do ano como os experts acreditam que a crise climática causada pelo homem está causando furacões mais intensos:

“Enquanto os furacões são uma parte natural do nosso sistema climático, pesquisas recentes sugerem que houve um aumento em atividades intensas de furacões no Atlântico Norte desde os anos 70. No futuro, podem não haver necessariamente mais furacões, mas é provável que sejam mais intensos e que carreguem mais precipitações e ventos mais fortes como resultado do aquecimento global. Os impactos dessa tendência podem ser exacerbados pelo aumento do nível do mar e pelo crescente número de pessoas nas linhas costeiras.”

“Embora o furacão Dorian exemplifique o que muitos cientistas climáticos vêm alertando, muitos veículos de mídia dos EUA estão falhando em conectar a crise climática à tempestade atlântica mais forte que já atingiu o continente”, declarou o Public Citizen em uma análise.

O grupo descobriu que “entre sexta e segunda, o clima ou aquecimento global foram mencionados em apenas 7.2% das 167 matérias na ABC, CBS, NBC, CNN, MSNBC e Fox. Os principais 49 jornais em circulação não fizeram muito melhor. Deles, 32 cobriram o Dorian em suas edições impressas, mas somente oito jornais conectaram o Dorian ao clima. Dos 363 artigos sobre o furacão nessas edições impressas, apenas nove (2.5%) mencionaram a mudança climática”.

O Public Citizen salientou as descobertas da cobertura sobre o Dorian em um par de tuítes. “Pela última vez: a mudança climática torna os furacões piores”, e “a covardia da mídia torna a mudança climática pior”, escreveu o grupo.

No Twittter:

Pela última vez:

a mudança climática torna os furacões piores

E também:

A mudança climática piora as enchentes.

A mudança climática piora as secas.

A mudança climática piora os incêndios.

E finalmente:

A covardia da mídia torna a mudança climática pior. pic.twitter.com/FRbMjkGMgA

— Public Citizen (@Public_Citizen) 3 de setembro, 2019

“É surpreendente que os grandes veículos de imprensa reportem sobre uma tempestade de grandes proporções que é exatamente o que os cientistas climáticos alertam, mas ainda assim falhem em mencionar duas palavras chave: ‘mudança climática’, disse Allison Fisher, diretora do Programa de Energia do Public Citizen. “Não podemos abordar a catástrofe climática se não estivermos falando sobre ela.”

E o Public Citizen não estava sozinho nessa observação. Como escreveu o colunista do NYT, David Leonhardt, “muito da conversa sobre o furacão Dorian – incluindo a maior parte da cobertura midiática – ignora a mudança climática”. De acordo com ele, “isso é um erro. É semelhante a falar sobre câncer de pulmão e ter medo de mencionar o fumo, ou falar sobre mortes no trânsito e ter medo de mencionar as conduções sob o efeito do álcool”.

“A imprensa precisa fazer mais”, escreveu o comitê Justice Democrats em um e-mail aos seus apoiadores. “Esses desastres naturais estão aumentando por causa da mudança climática, mas poucos repórteres e intelectuais estão dispostos a tornar essa conexão clara para o público. Não importa se a crise climática é uma questão politizada – não damos conta de proteger os sentimentos dos conservadores e dos negacionistas climáticos em uma era na qual vemos temperaturas altas históricas, degelos massivos e desastres naturais mortais.”

Enquanto boa parte da mídia corporativa falhou em fazer a conexão climática na cobertura do Dorian, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez (D-N.Y.) reconheceu o fato no Twitter. Ao compartilhar um vídeo filmado de um helicóptero sobre as Bahamas, ela tuitou, “é assim que se parece a mudança climática: ataca comunidades vulneráveis primeiro”.

É assim que se parece a mudança climática: ataca comunidades vulneráveis primeiro.

Eu já consigo ouvir os negacionistas climáticos gritando: “Sempre foi assim! Você é imprecisa,” etc.

Não. Isso é sobre ciência e liderança. Ou nós cortamos emissões e descarbonizamos, ou não, e deixamos pessoas morrerem. https://t.co/paUHKAp03e

— Alexandria Ocasio-Cortez (@AOC) 3 de setembro, 2019

Ocasio-Cortez, a patrocinadora principal no Congresso do Novo Acordo Verde divulgado em fevereiro, adicionou que a comunidade global tem uma escolha clara: ou descarboniza e reduz dramaticamente as emissões que estão aquecendo o planeta – ou não, e “deixa as pessoas morrerem”.

Filmagens aéreas das Bahamas após o furacão também foram compartilhadas nas redes pela Greta Thunberg, a jovem de 16 anos cujos protestos no Parlamento Sueco no ano passado ajudaram a promover o movimento global de greve pelo clima. A ativista tuitou, “quantas nações em ruínas ainda precisaremos ver?”

O programa independente de notícias, Democracy Now! está entre os veículos que reconheceram como a crise climática está relacionada com o Dorian, incluindo uma reportagem com o título, “Essa é uma emergência climática: ilhas devastadas pelo Dorian estão na linha de frente de um planeta moribundo”.

“Enquanto a ciência ainda não entrou em detalhes sobre o quão pior se tornou o furacão devido à crise climática, já sabemos o suficiente para dizer que o aquecimento piorou os danos”, disseram Michael Mann, professor da Universidade Estadual da Pensilvânia, e Andrew Dessler, professor da Universidade A&M do Texas, em um artigo de opinião publicado no The Guardian.

Depois de delinear o que os cientistas sabem sobre o aquecimento planetário e os furacões – incluindo a teoria de que a mudança climática pode impedir tempestades, levando à mais enchentes e danos – o par concluiu que o Dorian é “um exemplo da crise climática que vem por aí. A única questão é se teremos a antecipação para abordá-la”.

“O aquecimento global tornou o furacão Dorian maior, mais molhado – e mais mortal” / Meu artigo de opinião com @AndrewDessler no The @Guardian: https://t.co/eWBHpB6Jgv

— Michael E. Mann (@MichaelEMann) 4 de setembro, 2019

Equipes de resposta emergencial e humanitária continuaram avaliando os danos nas Bahamas e fornecendo apoio aos moradores das ilhas enquanto o Dorian se moveu pela costa da Flórida enquanto categoria 2 com ventos de 105 mph. De acordo com o Centro Nacional de Furacões, na semana passada, vários alertas de furacões e tempestades tropicais estavam em efeito entre a Flórida e a Virgínia.

*Publicado originalmente no Common Dreams | Tradução de Isabela Palhares

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