Mídia

Sem Justa Causa

09/05/2002 00:00

“Também entre os humanos não passa de um verniz o que permite o convívio. Por baixo desta fina capa, está a selvageria.”


Otto Lara Resende



O ser humano é descartável. Qual o invólucro do leite que por não mais conter o precioso líquido é deitado ao lixo, após ser sugado em sua essência, o ser humano é sumariamente descartado.



A primeira pergunta que fui inquirido a responder foi sobre o relacionamento com os colegas: já teve algum problema aqui dentro, digo, de relacionamento? Que me recordasse, não. Há aqui algumas normas que, bem, você me entende, não têm sido seguidas e na nova reestruturação, infelizmente, sabe como são essas coisas, você está fora. Quis saber quais eram os itens necessários à inclusão ou exclusão a tal reestruturação, para compreender melhor a minha inadequação ao novo status quo, mas nada de concreto me foi apresentado. Quis saber onde deveria assinar, a qual departamento deveria me dirigir e lá estava o papel já pronto, duas vias, meu nome sob a linha espessa e um pequeno "x": assine aqui. Nas duas folhas, viu?! Uma cópia é sua.



E fui descartado como a caixinha longa-vida do leite, como o saco de pão que não contém mais o alimento, como a lata que não mais abriga o óleo e a sardinha.



De uma certa forma, foram generosos comigo: não há justa causa. Constrangedor ser demitido por justa causa, não fariam isso comigo. Os direitos serão pagos, tudo como manda a lei, terei uns caraminguás a mais para segurar a onda enquanto não surge nada fixo para fazer, e ainda me dispensaram do aviso prévio, que maravilha, não ter que conviver com certas figuras por mais um mês, trabalhando para cumprir tabela, pois meu time já estaria rebaixado para a segunda divisão, e serei poupado de comentários e vôos rasantes das aves negras à espreita, loucas para abocanhar os preciosos horários que eu ocupava na casa. Palmas para a generosidade.



Surpreendeu-me a notícia, não pela notícia em si, todos estão sujeitos às intempéries do mercado, mas pela forma como foi transmitida: sem apelação. Fui julgado, condenado, primeira e segunda instância e estava lá pronto o documento: assine aqui. Engraçado que a carta, ao contrário de representar condenação em presídio de segurança máxima, como elaboraram mentalmente algumas criaturas de pequeníssima massa encefálica que me cercavam, trata-se de uma alforria: liberdade para alçar vôos mais dignificantes, mais criativos e menos reificadores – sugiro àqueles empregadores que não conhecem a palavra que se utilizem do catálogo de verbetes da língua portuguesa, vulgo dicionário, para um breve esclarecimento do que representa o novo vocábulo, pois desconhecer não é vergonha alguma, manter-se nas trevas da idiotia por opção é que pode causar danos graves, como costumam alertar os ministérios competentes.



O comunicado de minha saída, sem justa causa, o que me honra muito, foi evasivo e sem maiores detalhes. Eu queria nomes, não me foi informado nenhum. Quiseram saber o porquê de eu me afastar dos nobres colegas no saudável ambiente de trabalho. Justifiquei apenas que, por ter o defeito grave de registrar, no papel em branco, impressões e fatos do cotidiano, quando não estava fazendo meu trabalho, limitando-me a ficar dentro de minha sala, ocupando-me da leitura, da escrita e privando-me do agradável falar da vida alheia praticado por alguns - que, sinceramente, é problema particular de cada embalagem que um dia será também descartada - não sabia do que o loquaz inquisidor estava falando.



E como o lugar estava muito distante de ser uma Pasárgada, e de eu, ali, não ser amigo do rei, nem de nenhum outro membro da corte, ao contrário de outros que sempre fizeram questão de investir em futuros políticos além da labuta diária, a seleção dos inadequados à reestruturação começou com meu nome. Não pensem que estou aqui me fazendo de vítima, muito pelo contrário. Registro apenas os fatos, tentando o máximo de isenção. Um velho provérbio diz que para chegar onde deseja na vida, um homem sempre acaba fazendo mais inimigos do que amigos. Fiz inimigos justamente por não querer chegar a lugar algum.



Se pudesse pedir uma gentileza, e por já estar embalado nos sacos especiais do lixo hospitalar, rumo ao triturador, não cabem mais sugestões, mas se pudesse fazer o tal último pedido, como eram concedidos aos condenados prestes a perderem suas preciosas cabeças na guilhotina, sugeriria um levantamento amplo entre todos que trabalharam comigo sobre minha conduta. Não apenas junto aos conselheiros, seres de pouca inteligência, que historicamente são conhecidos pelas suas poucas qualidades e grandes influências. Um desses vermes históricos chegou a vetar uma ópera de Mozart junto ao imperador austro-húngaro porque o compositor utilizara “too many notes”. Notas demais para ouvidos medíocres. Gostaria sim de ver o que aqueles que realmente metem a mão na massa teriam a dizer a meu respeito, não apenas os ratos. Minha única alegria, póstuma, é certo, é saber que minha saída será muito mais lamentada do que festejada. Perguntarão tão incessantemente: mas por que doutor? Por que mandaram o rapaz embora? Que na consciência de alguns surgirá a dúvida: puxa, deveria tê-lo ouvido antes de tomar a decisão.



Não fui ouvido. Não me perguntaram nada. Apenas fui classificado como descartável, inadequado à nova realidade, dispensável simplesmente.



Deixo alguns poucos amigos, deixo pessoas com quem tive bons momentos de dificuldade e alegria. E não pude sequer me despedir. Muito provavelmente, a versão oficial dos fatos será a de que precisei sair sem motivo claro, simplesmente pedi as contas, o que a casa lamenta muito por tratar-se de um funcionário bastante exemplar. Evita bochicho. Evita explicações desnecessárias.



O dia lá fora está cinzento, uma brisa friorenta marca o início de maio. No dia do trabalho, quando todos descansam, vão aos parques e aos cinemas ou visitar os parentes, estou de folga justamente por não ter mais trabalho. E, por ser feriado, também não posso mobilizar-me para procurar outro emprego. Só amanhã. E depois. E para diminuir o complexo de culpa de alguns, deixo um lembrete encorajador: ao contrário de muitos que ao serem descartados têm seu fim inexorável destinado às chamas da incineração social, fico feliz de possuir uma versatilidade maior: não se preocupem, o material de que é feita esta embalagem que não mais interessa aos senhores, é feita de material 100% reciclável.



A primeira imagem da ilustração é uma charge do Zérramos


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