Mídia

Senta que o Leão É Manso

27/04/2002 00:00

O Serviço de Proteção aos Animais vai ter que montar uma operação complicada para salvar a vida do leão do Imposto de Renda. Apesar do que as autoridades financeiras prometem, está cada vez mais difícil colocar na cadeia os grandes sonegadores da receita. Com isso, o pobre bichano está num regime de dar dó, igual àquele que o Jô Soares fez lá pelos idos dos 70, quando perdeu o peso e a graça.



O leão foi mais feliz quando trabalhou para a Metro, época em que se alimentava de carne de primeira. Afinal, este era o royalty que ele recebia para cada rugido registrado nas telas. No auge da fama, chegou a fazer ponta nos filmes de Tarzan e lutou com Victor Mature numa das melhores cenas de "Sansão e Dalila". Mas, se um dia é da caça, o outro é do caçador. Lá se foram os tempos das vacas gordas e o jeito foi trabalhar como leão-de-chácara. A experiência durou pouco, pois o bom felino descobriu na prática que a função é mais bem exercida pelos gorilas, que por isso mesmo detêm o monopólio no mercado de trabalho. A saída foi aceitar o emprego oferecido pela receita federal brasileira.



No início, até que a profissão prometia muito. Tudo bem que, pela própria natureza, os felinos preferem carne vermelha. Mas, com a idade avançada, até que não seria tão mal trocar o prato predileto pela carne branca, levando-se em conta os perigos do colesterol. Com o passar dos anos, o leão foi ficando preguiçoso e subnutrido de tanto comer piabas. Afinal, o bicho descobriu o verdadeiro sentido da expressão "malha fina", rede apropriada para pegar peixes pequenos. Até porque, tubarões e baleias geralmente são pegos no arpão. E, pelo jeito, a pontaria dos fiscais da receita não é lá essas coisas. Nem se compara à dos caçadores que, durante muito tempo, infernizaram os leões nos safaris da África.



Assim, desde o dia em que trocou o glamour da Sétima Arte pela tarefa de engolir sonegadores brasileiros, o bicho vem perdendo o peso e a auto-estima. Pobre bichano, quem diria, acabou no divã do Dr. Carlos Alberto Jung, renomado psicanalista especializado em gazelas e peruas. A análise até que deu novo ânimo ao velho Leo, que chegou a solicitar transferência para o zoológico de BH. Ficou entusiasmado quando leu nos jornais que foram gastos R$ 200 mil na reforma da casa do Idi Amin. Ele também não descarta a possibilidade de pedir emprego à diretoria do Vila Nova, onde poderia servir de mascote.



A fera com alma de bela continua enjaulada em Brasília, alimentando o desejo de devorar um sonegador bem gordo, de preferência algum banqueiro beneficiado pelo Proer, ou um desses latifundiários improdutivos, que insistem em contrariar os ensinamentos de Pero Vaz de Caminha que, já em 1500, percebeu que Brasil é uma terra em que se plantando tudo dá.



Para alimentar a fé num futuro melhor, o bom bichano passa horas em devaneio, recordando o reinado de seus ancestrais na savana africana e o glorioso tempo em que seus semelhantes eram levados às arenas romanas para desespero dos cristãos e deleite dos imperadores. Agora, uma nova luz se acende no final do túnel. Se o Tigrão conseguiu fazer sucesso no hit-parade, por que Leo não poderia mostrar suas garras de cantor? Mordido pela mosca do otimismo, passa horas ensaiando o "Leãozinho", antigo sucesso de Caetano Veloso. Com toda a sua generosidade; com a qual tem dado o maior apoio a pagodeiros, cantores de rap, duplas sertanejas e vendedores de pamonha; o bom baiano com certeza vai achar seu rugido divino e maravilhoso.



27 abril 2002



O autor teve crônicas adotadas nos vestibulares da UFMG e da Uni-Centro Newton Paiva. Seu romance "Palmeira Seca", adaptado para uma minissérie na Rede Minas de Televisão, também foi adotado em vestibulares da Uni-BH e do Supletivo do Segundo Grau de Minas.


Conteúdo Relacionado