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Tim Berners-Lee lança campanha por "Magna Carta" para salvar a internet de abusos

"A Web está num ponto crucial", disseo criador da WWW em discurso durante a conferência Web Summit, em Londres, nesta segunda-feira (5)

07/11/2018 12:34

 

 
O inventor da internet (World Wide Web), o cientista britânico de computação Tim Berners-Lee, lançou uma campanha para persuadir governos, companhias e indivíduos a assinarem um "contrato" – ou como ele chama: a "Magna Carta" para a Web –, com um conjunto de princípios criados para defender a liberdade e abertura da internet. "A Web está num ponto crucial", disse, em discurso durante a conferência Web Summit, em Londres, nesta segunda-feira (5). O senso de otimismo sobre a internet tem, segundo ele, prejudicado por abusos como uso indevido de dados pessoais, discurso de ódio, manipulação política e centralização do poder entre um pequeno grupo de grandes empresas de tecnologia.

"Precisamos de um novo contrato para a Web, com responsabilidades claras e rígidas para aqueles que têm o poder possam agir melhor", afirmou Berners-Lee, que criou a Web em 1989, segundo o jornal Folha de S.Paulo. Ele disse que quer reconstruir a confiança na rede mundial de computadores e ampliar o acesso à internet em bases justas e acessíveis por meio do trabalho conjunto de governos, companhias e indivíduos. Berners-Lee afirmou que governos, companhias e indivíduos têm um papel a desempenhar.

"Algumas questões de regulamentação como neutralidade de rede têm que envolver governos, algumas coisas claramente envolvem companhias – grandes, pequenas e startups", disse em entrevista antes do lançamento. "Quem é provedor de acesso à internet precisa se comprometer a entregar neutralidade de rede. Se é uma companhia de rede social, você precisa garantir que as pessoas tenham controle sobre seus dados." Nesse último caso, trata-se de outra batalha travada pelo cientista, contrário à decisão dos Estados Unidos, sob o comando de Donald Trump, que reverteu as regras de neutralidade estabelecidas no governo de Barack Obama, segundo as quais os provedores de internet devem tratar o conteúdo online com igualdade.

Os princípios do contrato receberam apoio de mais de 50 organizações, incluindo o governo francês, o grupo Internet Sans Frontieres e companhias que incluem Google e Facebook. A Amazon não assinou. Procurada pelo jornal britânico Financial Times, a empresa não se pronunciou. Berners-Lee afirmou que todos os termos do contrato serão acertados nos próximos meses. O objetivo é finalizá-los em maio do próximo ano, quando metade ou mais da população global estará conectada à internet pela primeira vez.

Regulamentação para controlar arma de grande escala

Na semana passada, ao destacar que os gigantes de tecnologia do Vale do Silício têm hoje um poder financeiro e cultural combinado maior que boa parte dos Estados soberanos e ao mesmo tempo estão soterrados em escândalos sobre o abuso de dados pessoais, ódio e desinformação, Berners-Lee disse que talvez essas empresas tenham de ser desmembradas, a menos que os concorrentes ou mudanças no mercado reduzam sua influência. “O que acontece naturalmente é que você acaba com uma empresa dominando o campo, então, através da história, não há alternativa para realmente entrar e dividr as coisas”, disse Berners-Lee. “Há um perigo de concentração.”

Um dos principais críticos dessa concentração, o inventor da internet pediu, em março deste ano, a regulamentação das empresas de tecnologia para evitar que web seja transformada em perigosa ferramenta bélica. O fato de o poder está concentrado entre tão poucas empresas, insistiu o cientista, tornou possível transformar a web em “uma arma de grande escala", escreveu na ocasião. "Nos últimos anos, vimos teorias de conspiração virarem tendência em plataformas de redes sociais, contas falsas no Twitter e no Facebook acumularem tensões sociais, atores externos interferirem em eleições e criminosos roubarem dados pessoais".

Berners-Lee salientou que, diante do desafio, as sociedades têm procurado incentivar que as próprias plataformas obtenham respostas, mas isso não tem garantido avanços. “As empresas estão cientes dos problemas e esforçando-se para resolvê-los – e afetando milhões de pessoas nesses movimentos. [Nesse modelo] A responsabilidade de tomar essas decisões recai sobre empresas que foram criadas para maximizar o lucro mais do que o bem social”. Uma estrutura legal ou reguladora que considere os objetivos sociais, disse, pode ajudar em estabelecer mais equilíbrio, capaz de levar a soluções palpáveis.

Ao mesmo tempo, Berners-Lee lembrou que, em 2016, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou que o acesso à internet é um direito humano, como água potável, por exemplo. Em seguida ressaltou que, no atual ambiente de negócios do meio digital, a meta está longe de ser alcançada. “Esse direito básico segue sendo negado a milhões de pessoas”, afirmou.

*Publicado o originalmente no site da ANJ - Associação Nacional de Jornais



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