Mídia

Três assaltos à mão armada

03/10/2005 00:00

Augusto Boal

Caro arqueólogo do futuro,

Para deixar indícios certos de nossas aflições presentes, falo de violência, esta marca de nossos dias. Violência em três vertentes:

Nas últimas semanas, os jornais esbugalharam nossos olhos com notícias sobre multifários assaltos à bolsa e à vida, ao dinheiro e à razão.

Tantos atropelos simultâneos podem ser sistematizados, no entanto, em três grandes famílias de aleivosias, para nossa melhor compreensão.

A primeira família inclui variantes dos antigos ladrões de galinha, que roubavam galetos na calada da noite, antes do primo canto, modalidade hoje caída em desuso, não por falta de vontade dos ladrões mas pela extinção dos galinheiros.

As armas que usava o ladrão eram a perseverança, a coragem e os movimentos silenciosos; sua cúmplice, a noite sem lua.

As variantes surgidas nesta vertente vão desde o assalto com caco de vidro no semáforo vermelho, até ao espetacular roubo de cento e cinqüenta milhões em Fortaleza. Ontem eram galináceos; hoje celulares e sacos de dinheiro.

A segunda família dos sub-reptícios envolve malícia e traição – sem risco, sem coragem nem surpresa. Seus melhores exemplos estão na TV: mensalões, caixas dois e três, doleiros, Paraísos Fiscais e Ilhas Tropicais. Suas armas são o segredo e o respeito mafioso à palavra dada – palavra sagrada, hoje quebrada. Seus cúmplices são seus colegas de rapina legislativa.

Este é um crime maior que o roubo plumário porque envolve a quebra de confiança: os que o praticam são justamente aqueles a quem confiamos esperança e voto.

Existe uma terceira forma de assalto, mais devastadora, que também imita formas arcaicas. Durante o domínio português, contrabandistas inventaram os santinhos de pau oco, figuras piedosas, seríssimas, em madeira, que tinham o vazio por dentro. Minto: estavam repletas de ouro e diamantes. No porto, os guardas alfandegários se ajoelhavam, contritos, ao verem tais figuras santas e sofridas, sem suspeitar da carga que deixavam embarcar para as terras de além-mar.

Da mesma forma que o ladrão de galinhas evoluiu para as destemidas quadrilhas, também os santinhos de pau oco evoluíram para o sistema bancário e para a Divida Externa, que é a mais avançada de todas as formas de assalto: faz-se à luz do dia, sol a pino, é anunciada pelos jornais e perpetrada pelos próprios brasileiros que mandam para o exterior bilhões de dólares de uma dívida que nunca foi examinada com o rigor a que são submetidos os livros de contabilidade do padeiro da esquina. As armas deste assalto são os computadores e alguns economistas de reputação ilibada. Seu maior cúmplice: o silêncio e o rosto sério, confiável, como o dos santinhos de pau oco.

Para pagar essa dívida, tira-se dinheiro da Educação e da Saúde, da Cultura e das estradas, da Reforma Agrária e do Saneamento.

No entanto, a Constituição manda que se faça auditoria, porque temos a certeza de que estamos pagando juros sobre o que não entrou, dívidas que não contraímos, além das que foram feitas pelos ditadores, em segredo.

Por que não se faz auditoria? Porque a Constituição manda que se faça... mas não determina quando. Esta não é uma forma correta de se ler o espírito da Lei Maior. O que emudece na letra, grita o seu espírito: que se faça logo! Estamos cometendo o crime de pagar o que não devemos.

Como os antigos santinhos de madeira, os economistas governamentais, os que mandam o dinheiro para fora, podem até não ficar com nada para si próprios, nem um diamantezinho no fundo da estátua. Mas essa inocência não os absolve: com sua anuência, o crime é cometido.

Esta é a moderna forma de assalto – vínculo escravatício! - que a todos nós, brasileiros, nos condena à escravidão econômica. Somos todos escravos!

Além de um assalto ao nosso povo, este é um assalto à Razão!

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