Mídia

Um Berlusconi é demais. Seis, então...

Estreia no fim deste verão, em cadeia nacional, o filme 'O País dos seis Berlusconis', do jornalista e cineasta Pablo Guelli, que denuncia o oligopólio existente na imprensa brasileira e como operam os oligarcas da mídia: ''São pilares que sustentam a imensa fraude de informação que tem chegado para a população brasileira'', diz.

13/12/2018 10:56

Paulo César Pereio representa a mídia brasileira em 'O país dos seis Berlusconis' (Rogério Che/Divulgação)

Créditos da foto: Paulo César Pereio representa a mídia brasileira em 'O país dos seis Berlusconis' (Rogério Che/Divulgação)

 
Durante os dez anos em que morou e trabalhou na Europa, o jornalista paulista Pablo Guelli via ''os desmandos dos jornais e TVs do Berlusconi - ou seja, praticamente de todo noticiário vindo da Itália", ele diz. Começou então a pensar em fazer e escrever o roteiro de um documentário, um filme que mostrasse a absurda concentração dessa indústria da informação nas mãos de uma oligarquia restrita como ocorre no Brasil.

Agora, quatro anos depois, Guelli, de 43 anos, chega à finalização do seu documentário sobre esse tema com o título mais do que inquietante: O país dos seis Berlusconis. ''Me pareceu uma analogia pertinente'', ele ressalta durante a entrevista à Carta Maior, por email.

O filme estreia no fim deste verão em cadeia nacional. Será mostrado em escolas, empresas, universidades, centros culturais, cineclubes e outros ambientes alternativos às salas de cinemas convencionais. Para tal, Guelli, que finaliza o filme em São Paulo, está levantando um crowdfunding* para conseguir verba e divulgar o trabalho em todo o Brasil; o que é importante.

O país dos seis Berlusconis estará disponível também no VOD do canal CineBrasilTV para onde o cineasta está dirigindo atualmente o documentário Casa Grande & Senzala: a desigualdade social como opção política.



Realizado através da produtora Salamanca Filmes, desde já o doc atiça a curiosidade sobre a oligarquia da mídia brasileira vista por dentro de quem trabalhou em diversas grandes redações. Afinal, o filme remete, em versão tropical e através de meia dúzia de famílias, ao mitológico Cidadão Kane.

Confira a entrevista:

CM: Quem são seus personagens e como foram realizadas as entrevistas?

Pablo Guelli
: Todas elas foram feitas pessoalmente. Noam Chomsky, Luis Nassif, Laura Capriglione, Ricardo Melo, Xico Sá, Rodrigo Vianna, Glenn Greenwald, Jessé Souza, Ana Magalhães, Kiko Nogueira, entre outros. A trilha sonora é de André Abujamra.

CM: O ator gaúcho Paulo Cesar Pereio, uma das grandes estrelas do cinema novo, nos anos 60, faz que papel?

PG:
Pereio personifica a mídia brasileira. E os entrevistados comentam e analisam a sua atuação.

CM: E o que dizem seus entrevistados estrangeiros?

PG: Os entrevistados de outros países falam com assombro sobre o comportamento da mídia brasileira. Alegam nunca ter visto nada parecido, em nenhum lugar do mundo. Já os brasileiros dizem que a imprensa nacional é simplesmente a pior do mundo.

CM: Você, que já passou pela Globo, TV Cultura, Folha de S. Paulo, G1, Terra, Abril, CBN, Globo News, Media Pro, de Madri e TV NHK, do Japão, acha que o documentário brasileiro, no cinema, está ocupando, progressivamente, a posição que deveria ser da mídia, do jornalismo investigativo?

PG:
Sem dúvida. Como a chamada grande mídia abriu mão de fazer jornalismo por interesses econômicos, isso está abrindo espaço para que os documentários mostrem algo mais próximo da realidade.

CM: O jornalismo de hoje, então, está sendo pouco a pouco desvirtuado em relação ao que ele era no passado?

PG:
A chegada da internet e as transformações na comunicação agiram como o meteoro que provocou a extinção dos dinossauros. O modelo de negócio foi extinto e junto com ele a credibilidade de toda imprensa - salvo raras e honrosas exceções. No Brasil temos a Agência Pública, o site The Intercept, os sites Jornalistas Livres e Mídia Ninja e diversos blogueiros que estão fazendo o que a mídia costumava fazer, ou seja, jornalismo de qualidade.

CM: Tal como Carta Maior. Mas você enxerga responsabilidade também nos profissionais - editores, redatores, repórteres – que trabalham para os ''berlusconis'' em todo esse lamentável processo de desinformação e manipulação da mídia brasileira?

PG:
Na mídia brasileira existe um grupo de cães de guarda muito fiel aos donos. Merval Pereira, Josias de Souza, Miriam Leitão e por aí vai. A lista é longa. Sem dúvida, essas pessoas têm a parcela de responsabilidade nesse esgoto que é o jornalismo brasileiro atual. Mas é claro que a maioria dos profissionais são pessoas que têm contas para pagar e precisam trabalhar nesses conglomerados. Recentemente os jornalistas do portal R7 foram coagidos pela direção a fazer matérias pró-Bolsonaro. Alguns divulgaram textos na internet e fizeram o possível para mostrar o absurdo da situação. É o que conseguiram fazer. A maioria não pode se permitir o luxo de pedir demissão porque não concorda com a linha editorial da casa.

CM: E quais são as ''seis famílias''? Marinho, Mesquita, Frias, Civita...? Descreva algumas das características de cada grupo.

PG:
Rede Globo, Record, SBT, RBS e os grupos Folha e Bandeirantes detêm juntos mais de 90% da audiência nacional. Depois de trabalhar durante 15 anos nesses grupos e entrevistar mais de 20 jornalistas para o filme, eu diria que a principal característica da imprensa nacional é a canalhice. Os grupos são uma versão moderna dos senhores da casa grande, principal traço da cultura brasileira, em minha opinião.

CM: Vamos por partes.

PG: A Globo é um império midiático que nasceu de forma ilegal e foi um dos pilares da ditadura militar. A sua história mais se assemelha à ficha de um criminoso de alta periculosidade. A quantidade de barbaridades que essa empresa comete não cabe nesse texto. Em qualquer país sério ela já teria sido processada por crime lesa-pátria e fechado as portas. Como dizem alguns entrevistados: o que é bom para a Globo é ruim para o Brasil. O Grupo RBS é um filhote desse império mafiomidiático.

CM: Record e Folha?

PG: A Record é a imagem e semelhança da Globo, mas evangélica. Inclusive contrataram sabe Deus quantos ex-funcionários da Globo para que a imitação ficasse mais próxima do original. Talvez agora, com Bolsonaro, a Record tenha uma chance de se destacar, já que o país está a caminho de se tornar uma teocracia militar. O grupo Folha de São Paulo é o que mais tenta parecer neutro, "plural". Uma ilusão. O Sr. Frias costumava emprestar os carros da Folha para que os militares chegassem disfarçados de jornalistas para prender e matar pessoas durante a ditadura - aquela que um dos cães de guarda do jornal chamou de "Ditabranda" em editorial. Quando os militares estavam deixando o governo, a Folha mudou a bandeira e passou um verniz democrático na sua fachada oligárquica.

CM: E o SBT e Bandeirantes?

PG: Os dois são os mais pitorescos. O SBT é aquele canal que transmite o programa do Chaves há 25 anos e cujo dono costuma humilhar mulheres ao vivo. Bandeirantes pertence à família Saad e são ligados ao governo estadual de São Paulo.

CM: Em resumo?

PG:
Em resumidas contas: são grupos privados, cujos donos têm mentalidade de oligarcas e senhores de escravos do século retrasado, operando e fazendo negócios com uma concessão pública. Estão usando as concessões para ganhar muito dinheiro e amealhar mais poder. Não é ao acaso que a família Marinho é a mais rica do Brasil.

CM: Grupos restritos de ''berlusconis'' também operam controlando a mídia em outros países Mas aqui, os oligarcas são bem mais fortes e organizados, não?

PG:
As oligarquias são fortes na América Latina pela história da região. Por conta disso há problemas de concentração de mídia em outros países, como na Argentina, que chegou a fazer uma Ley de Medios. Mas, sem dúvida, a mistura da pior concentração de renda do mundo, com altos índices de analfabetismo e uma cultura escravocrata, fazem do Brasil um lugar especial. Aqui, esses oligarcas atuam sem freios. Fazem o que lhe dá na veneta, destroem quem quer que seja e sabem que não serão punidos.

CM: Qual é a sua percepção, depois de conversar com seus entrevistados?

PG:
Fica claro que deixamos de ser um país em desenvolvimento e nos convertemos oficialmente em uma república bananeira por conta desses oligarcas. Eles foram os pilares que sustentaram a imensa fraude de informação que tem chegado para a população.

Em 2012, Pablo Guelli e sua equipe ganharam o prêmio de Melhor Documentário no Festival de Castilla y León, na Espanha, com o filme Un instante en nuestras vidas, um doc que fala sobre a imigração espanhola na América Latina.


https://www.catarse.me/opaisdos6berlusconis



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