Mídia

Um Dedo de Prosa Sobre Marilene Felinto

15/02/2002 00:00

Achei um tanto maçantes os artigos de jornal sobre o final do ano com aquelas frases de efeito sem muita graça nem novidade: 2001 o ano que não quer terminar, o ano em que vivemos em perigo, o ano que mudou a história do mundo. Uma série de conjecturas sobre os atentados terroristas de NY e Washington, as conseqüências para o mundo dito civilizado, os massacres aos miseráveis, de que sempre se descobre uma desculpa besta para justificá-los.



Belas fotos mostraram as comemorações ao redor do globo, cascatas de fogos na Harbour Bridge, em Sydney, os bombeiros correndo de um lado a outro para debelar focos de incêndio, num país que já vinha sendo assolado por este problema; bolas de futebol gigantes lembrando a Copa do Mundo, em Seul; milhares de pessoas dançando diante do Memorial de Ching Kai-Shek, em Taipei; outros milhares de pessoas em Times Square, em Nova York e em Hong Kong – a capital chinesa tem praça de mesmo nome onde também se comemora tradicionalmente a passagem do ano; uma árvore de Natal gigantesca e pessoas friorentas ao lado do Kremlin, aquelas construções que parecem os castelos da Disneylândia cobertos de neve, um lugar muito bonito.



De toda as notícias e observações e opiniões sobre o Ano Bom, impressionou-me sobremaneira o artigo de Marilene Felinto publicado justamente no dia primeiro de janeiro. Interessante o fato de Mangabeira Unger ter escrito que se tratava de um dia em que só os jornalistas leriam jornal e fez um sucinto, claríssimo e muito bem articulado texto – uma constante em seus escritos – em que fala do papel da imprensa no Brasil e lá aponta um dos principais defeitos do nosso jornalismo: pessoas demais dando opiniões sobre assuntos demais, muitas vezes se pretere o fato à opinião, o que causa certa incoerência pela função cantada em verso e prosa que a imprensa tem de informar. O artigo é uma aula de coesão e coerência textuais, vale conferir (na internet, arquivos da Folha de São Paulo, primeiro caderno, 01/01/02).



Mas falava de Marilene Felinto e seu texto - um mês e meio depois de sua publicação, o que talvez leve as pessoas a lê-lo com mais interesse, sem as ressacas do réveillon. Além disso, agora que o carnaval já passou, o ano começou! - Nesse mar bravio de opiniões soprado com violência por muitos de seu colegas, a escritora prefere contar uma história, autobiográfica, de um radinho de pilha que ganhou da mãe para economizar energia em tempos de apagão. Conta que foi incentivada a substituir o rádio-relógio, e apesar de justificar que o utilizava muito mais para acordar que para ouvir música, o argumento não foi muito considerado. O título do artigo é sugestivo: “No escuro do ano”. Usa uma frase marcante para justificar o presente recebido: “sabe como são os mais velhos que já experimentaram a pobreza extrema – apresentam para o resto de suas vidas o comportamento dos traumatizados, dos precavidos, dos extraordinariamente econômicos”. Continua contando que o radinho de pilha lhe trouxe recordações de uma avó, muito silenciosa, amarga e que sempre andara com um aparelhinho parecido com o que ganhara. O texto fica denso, enevoado pela tristeza da autora ao revelar a origem muito humilde desta parente, que morara em condições muito precárias, numa favela, provavelmente. Aquela situação a revoltava, a deixava ainda mais entristecida na infância, e pelo que parece, até hoje. Refere-se à origem de sua família como vinda das “profundezas da África”, uma expressão que no texto soa belíssima, carregada de história, significados ocultos e sofrimento.



No final do texto, Marilene Felinto conclui: “Esta é uma coluna ridícula de fim-de-ano. Mas este é um país ridículo, desde sempre”.



Há cronistas que nos fazem rir mesmo das situações mais absurdas ou catastróficas, como Veríssimo e, muitas vezes o Mário Prata. Há outros de um humor sarcástico, às vezes beirando a melancolia, o que se configura em certo charme, apesar de tudo, como Cony e Loyola. E há os que nos trazem à crueza da realidade, à pungência de nossa desgraça como país subdesenvolvido, indivíduos subnutridos e misturados sem pitadas medidas, sem colheres ou recipientes graduados na borda para mensurar quinhões de inteligência, cultura, respeito, civilidade e alegria, por que não? A tolerância à felicidade, ou o jeito para tal, entidade tão aparentemente distante do nosso alcance, é também geneticamente adquirida. E Marilene Felinto põe o dedo na ferida, invariavelmente.



A autora é excepcional ficcionista, com dois romances publicados “No Lago Encantado de Grongonzo” e “As Mulheres de Tijucopapo” além de um livro de contos “Postcard”, e tem importância assegurada no perfil da literatura brasileira dos últimos anos. Recentemente teve compilados seus artigos de jornal também em livro. A escritora tem posturas polêmicas, às vezes radicais. Mas é a sua coragem, sua falta de meias-palavras que faz dela esta grande porta-voz das nossas penas. Muitos sabem e se omitem, alguns falam veladamente: Marilene não deixa nas entrelinhas suas mensagens. Em recente entrevista à revista Caros Amigos, mostrou posições e opiniões que causariam estranheza a muitos leitores. Ela reflete uma certa amargura no viver que transparece em seus relatos semanais. Discordei de algumas coisas que disse e penso que o normal é que seja mesmo assim: os que expõe sem máscaras suas posições e sentimentos, muitas vezes, estabelecem conflitos com os que pensam e sentem diferente, nada mais humano, mais intrinsecamente humano. A divergência é que cria a discussão e muitas vezes deságua em soluções interessantes. A concordância eterna só leva à estagnação do pensamento.



Mas tenho a visão irremediavelmente pessimista da autora, mas concordo quando diz: mas este é um país ridículo desde sempre. Revoltam-se os ufanista e enaltecedores de nossas belezas naturais. Problema deles. Mas dentro deste ridículo, que possamos enxergar verdadeiramente os elementos que o compõem, lutar por uma melhoria e não eleger mais figuras tão nefastas para nos comandar. Apesar de as opções vigentes remeterem à falta de esperança mais que um radiante alvorecer.



Discordo de Marlene Felinto quando encerra seus dizeres com: esta é uma coluna ridícula de final-de-ano. São sopros de lucidez como seus textos que nos soerguem à flor-da-pele do que nos desagrada, sensibiliza-nos para a podridão que passa despercebida, alerta-nos para um caos que se estabelece e nos engole, conclamando, mesmo que indiretamente, para que reajamos a estas mazelas infinitas que são o resumo do nosso país. Ridículo é não se mobilizar diante de tanta luminosidade jornalístico-literária.


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