Mídia

Um Dia de Cão

03/05/2002 00:00

Tenho um amigo hipocondríaco, chamado Marcelo, que tem verdadeiro pavor só de pensar em ficar gripado. Nesses tempos de epidemias medievais, não é difícil imaginar o seu pânico, principalmente quando tem algum mosquito zumbindo por perto. Para complicar seu estado psicológico, dia desses ele andou lendo uma reportagem sobre leishmaniose visceral, essa doença cujo protozoário se hospeda no cachorro sem pagar diária. Marcelo, que já não gostava muito da espécie canina, passou a evitar até mesmo cachorrinhos de pelúcia.



Acontece que existem aqueles que, quanto mais rezam, mais atraem assombração. Na semana passada, ele vinha caminhando descontraidamente por uma rua da Savassi quando sentiu uma substância escorregadia sob a sola do sapato. Havia pisado num montinho de cocô e começou a esbravejar contra todos os cães do mundo. Aliás, ele já dizia que um animal considerado o melhor amigo do homem não podia mesmo ser grande coisa, principalmente levando-se em conta que a espécie humana raramente é amiga dos animais. O homem nada mais faz do que explorá-los o máximo possível.



Marcelo só conseguiu se livrar da titica depois de esfregar várias vezes a sola do sapato no meio fio e num matinho que crescia numa falha do asfalto. Sapato limpo, mas ainda ruminando impropérios contra os cães e seus respectivos donos, ele seguiu seu caminho contando os montinhos de cocô que ia encontrando pela frente. Havia titica de todos os tipos: mole, dura, marrom, amarela, pisada, redonda, curta, comprida... Dava até para montar um museu de fezes nos moldes daquele que existe em Amsterdã. "A prefeitura devia tomar providências", resmungou, ao constatar uma dúzia de cacas em apenas três quarteirões da Savassi. Lembrou-se que certa vez ligara para a Secretaria de Saúde, pedindo providências quanto aos cachorros vadios que transitavam pelas ruas do seu bairro, na região Noroeste da capital. Fora informado que o serviço de zoonoses dispunha apenas de uma viatura, e que esta estava na oficina.



Distraído em suas divagações sobre a displicência dos políticos, principalmente no que diz respeito à saúde pública, Marcelo não percebeu que uma velhinha acabara de atravessar a rua, puxando numa corrente um minúsculo pincher de pêlo marrom. Como diz o ditado, quando o urubu é azarado, o debaixo suja no de cima. Pois com tanta gente trançando pelo passeio, provavelmente atraído pelo cheiro de cocô pisado, o pequeno monstrinho livrou-se da coleira e cismou de morder justamente o sapato do meu amigo. Este foi pego de surpresa e recordou seus tempos de artilheiro do futebol de várzea. Num gesto instintivo, deu um pontapé no pequeno animal, que soltou um ganido e voou sobre o asfalto feito um pombo sem asas, indo aterrissar num jardim do outro lado da rua.



A dona do cachorro ficou histérica. Começou a gritar e atravessou a rua aos prantos, sendo quase atropelada por um carro, cujo motorista brecou bem a tempo de evitar o pior. As pessoas que passavam pelo quarteirão naquele exato momento ficaram atônitas, sem acreditar no que estava acontecendo. Meu amigo não perdeu tempo. Antes que a multidão o linchasse, dobrou a esquina e saiu correndo quarteirão abaixo, degustando o amargo sabor da vingança.



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