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Um boicote poderia matar o Facebook?

Boicotes podem ser extremamente eficazes - como o Facebook está descobrindo

30/06/2020 14:28

(Reuters)

Créditos da foto: (Reuters)

 
No final do século 18, o movimento abolicionista encorajou o povo britânico a ficar longe dos bens produzidos pelos escravos. Funcionou. Cerca de 300.000 pararam de comprar açúcar - aumentando a pressão para abolir a escravidão.

A campanha Stop Hate for Profit [Pare de permitir o ódio para obter lucros] é o mais recente movimento a usar o boicote como ferramenta política. A campanha alega que o Facebook não faz o suficiente para remover conteúdo racista e odioso de sua plataforma.

O movimento já convenceu uma série de grandes empresas a interromper sua publicidade no Facebook e em outras empresas de mídia social.

Entre as mais recentes, estão Ford, Adidas e HP. Eles se juntam a participantes anteriores, incluindo Coca-Cola, Unilever e Starbucks.

O site de notícias Axios também informou que a Microsoft suspendeu a publicidade no Facebook e Instagram, em maio, devido a preocupações com "conteúdo inapropriado" não especificado - uma decisão que a BBC pode confirmar.

Enquanto isso, outras plataformas on-line, incluindo Reddit e Twitch, aumentaram a pressão, tomando suas próprias medidas antiódio.

Perda de confiança

Esse boicote pode prejudicar o Facebook? A resposta curta é sim - a grande maioria da receita do Facebook vem de anúncios.

David Cumming, da Aviva Investors, disse ao programa Today da BBC que a perda de confiança e a ausência aparente de um código moral podem "destruir o negócio".

Na sexta-feira, o preço das ações do Facebook caiu 8% - tornando o executivo-chefe Mark Zuckerberg, teoricamente pelo menos, 6 bilhões de libras mais pobre.

Mas não está claro se isso pode se tornar maior - uma ameaça existencial para o futuro a longo prazo do Facebook.

Primeiro de tudo, este não é o primeiro boicote a uma empresa de mídia social.

Em 2017, uma após a outra, as grandes marcas anunciaram que parariam de anunciar no YouTube - depois que os anúncios foram colocados ao lado de vídeos racistas e homofóbicos.

Esse boicote em particular agora está quase totalmente esquecido. O YouTube ajustou suas políticas de anúncios e, três anos como empresa controladora do YouTube, o Google está indo muito bem.

E há mais razões para acreditar que esse boicote não é tão prejudicial ao Facebook quanto você imagina.

Muitos anunciantes pequenos

Em primeiro lugar, muitas empresas se comprometeram com apenas um mês de boicote, em julho.

Em segundo lugar, e talvez mais significativamente, grande parte da receita de publicidade do Facebook vem de milhares e milhares de pequenas e médias empresas.

A CNN relata que as 100 marcas que mais gastaram foram responsáveis por US$ 4,2 bilhões em publicidade no Facebook no ano passado - ou cerca de 6% da receita de publicidade da plataforma.

Até agora, a grande maioria das empresas de médio porte não aderiu ao boicote.

Mat Morrison, chefe de estratégia da agência de publicidade Digital Whisky, me disse que há um grande número de empresas menores que "não podem se dar ao luxo de não anunciar".

Ele diz que, para empresas menores – que, pelo preço, são impedidas de fazer publicidade na TV - anúncios mais baratos e mais concentrados em plataformas como o Facebook são essenciais.

"A única maneira pela qual nossa empresa funciona é ter acesso a esses públicos altamente segmentados, que não são públicos de mídia de massa, por isso continuaremos anunciando", diz Morrison.

De certa forma, o Facebook parece ser uma boa escolha de empresa para se fazer lobby. A estrutura do Facebook dá a Mark Zuckerberg uma enorme quantidade de poder para afetar as mudanças. Se ele quer alguma coisa, ele vai conseguir.

Você só precisa mudar a mente de um homem.

Mas o contrário também é verdadeiro. Os acionistas não conseguem pressionar Zuckerberg da mesma maneira que outras empresas. Se ele não quiser, não agirá.

Até agora, porém, ele mostrou sinais de que está preparado para se mudar. Na sexta-feira, o Facebook anunciou que começaria a marcar conteúdo odioso - e espere por mais anúncios nesta semana.

Essas mudanças não serão suficientes para fazer com que o Stop Hate for Profit desapareça.

E em outros lugares, outros estão agindo por conta própria.

Nesta segunda-feira (29), o Reddit baniu o fórum The_Donald, como parte de uma repressão mais ampla a "subreddits", cujos membros se envolveram em assédio e comportamento ameaçador. A comunidade não estava oficialmente vinculada ao presidente, mas havia ajudado a espalhar memes que o apoiavam, antes que o Reddit tomasse medidas anteriores para limitar o alcance dos posts.

Além disso, o Twitch baniu temporariamente uma conta gerida pela campanha de Trump.

O site de streaming de vídeo da Amazon disse que dois vídeos dos comícios de Trump que foram mostrados em sua plataforma violaram suas regras de conduta odiosa.

Um datado de 2015, antes de ser eleito, no qual ele havia dito que o México estava enviando estupradores para os EUA. O outro foi do início deste mês, no qual o presidente havia descrito um "hombre duro" fictício invadindo a casa de uma norte-americana.

"Não abrimos exceções para conteúdo político ou de interesse jornalístico", disse o Twitch em comunicado.

Este ano será um ano difícil para todas as empresas de mídia social.

O Facebook não é de modo algum a exceção. Mas as empresas sempre serão guiadas por seus balanços.

Se o boicote se prolongar até o outono - e se mais e mais empresas aderirem - este pode ser um ano decisivo para a rede social.

*Publicado originalmente em 'BBC' | Tradução de César Locatelli

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