Mídia

Um novo milênio

01/07/2005 00:00

Márcio Souza

A mais radical e decisiva mudança no campo da cultura ainda está em processo e só podemos vislumbrar algumas de suas possibilidades magníficas. Ela é seqüência do espírito de democratização da cultura, que teve início no final do século XVIII, com o advento do ensino público e do sistema de alfabetização de massas. Neste momento, assistimos ao surgimento da tecnologia ideal para esse fim, que é a informática. Por meio de máquinas inteligentes, a humanidade não apenas vai ficar livre do trabalho repetitivo que embrutece, como terá acesso instantâneo a todo tipo de informação. Como em informática mostra-se impossível a construção de muros e barreiras, a censura e as políticas restritivas sofrerão grandes revezes.

É irônico que esta tenho sido a primeira passagem de milênio em que não se previu o fim do mundo, mas apenas o temor de que os sistemas de computadores fossem incapazes de passar de número 1999 para o número 2000. No lugar do fanatismo que levou populações inteiras a esperar pelo fim, rezando nas catedrais ou a entregar-se aos prazeres do pecado, esta passagem de milênio foi celebrada em cadeia mundial de televisão. Há mil anos atrás, visionários afirmaram que o fim estava próximo, jogando populações inteiras no desespero, autoflagelação e orgias. O mundo não acabou e, mil anos depois, ainda temos estreitos parentescos políticos e culturais com aqueles homens crédulos de um tempo em que Roma já não era mais a capital do mundo e era governada por reis visigodos. Dentro de mil anos, a humanidade será tão diferente de nós, estará culturalmente tão distante de nós que, por certo, o nosso mundo será considerado extinto.

Novas possibilidades da tecnologia geraram, no começo do século XX, profecias que não se confirmaram; como a invenção do gramofone e do disco, que fariam com que os poetas não mais publicassem seus poemas em livro, pois poderiam tê-los gravados de viva voz; o Clavilux (uma espécie de piano que possibilitava compor sinfonias com cores em lugar de som) que acabaria com a pintura; a televisão que acabaria com o jornal e o cinema; a energia atômica que substituiria o petróleo e o tornaria obsoleto; e com o desenvolvimento da cibernética, o homem se tornaria escravo da máquina. Hoje se diz que o computador portátil substituirá o livro e que a engenharia genética permitirá a reprodução programada de gênios.

É interessante constatar como as profecias mais pessimistas em relação às artes tradicionais não aconteceram e, creio, jamais se cumprirão. A dança, o teatro e a música, manifestações que se perdem no tempo, são formas de expressão que dependem do corpo, dos cinco sentidos. É possível manter o registro, em fotografia, filme ou vídeo, dessas artes, mas tais registros jamais se compararão com a experiência vivida, com o encontro do público com uma orquestra, com um corpo de baile ou uma encenação teatral. A verdade é que cada uma das artes, ou veículos de transmissão de conhecimentos, tem suas próprias peculiaridades insubstituíveis. Assim, a televisão, em vez de acabar com o cinema e o jornal, trouxe maior exigência de densidade informacional para os jornais e revistas, além de ter revitalizado o cinema lançando-lhe diversos desafios artísticos e comerciais. Até o Clavilux, mesmo que não tenha tido a chance de acabar com a pintura, conseguiu escapar com vida e hoje pode ser manipulado, não mais como um piano, mas como um software para transformar os computadores em palhetas de milhões de tonalidades, como só Michelangelo ou Van Gogh talvez tenham sonhado. Já o livro, bem, sobre ele os poetas não mais perdem o sono. É claro que suas vozes podem ser perpetuadas em disco, como a de Vinicius de Morais. Mas o livro é um suporte que beira a perfeição. Ele é pequeno, leve, feito de papel, não estraga se você deixar cair no chão, necessita de pouca manutenção, e, o que é mais importante, não precisa ligar na tomada ou usar pilhas para funcionar. Apenas estes atributos já garantem a vida do livro no próximo milênio. Talvez ele mude um pouco, talvez o livro que nós conhecemos, com o qual estamos familiarizados, não seja mais um produto feito em série. Isto é, o livro pode ser impresso como um objeto único, ao gosto do leitor. Como assim? Fácil: os terminais de uma máquina inteligente, instalados em diversos pontos da cidade e que pode também ser acessada de sua própria casa, aceitam as encomendas de livros. Você escolhe e dá a receita: quero um exemplar de "Grande Sertão, Veredas", fac-símile da primeira edição, com ilustrações de Poty, papel da marca tal, e capa encadernada em couro com douração, mais fortuna crítica até o ano de 2400. E você recebe o volume pedido, exclusivo, feito para você em casa, com a despesas debitadas diretamente na sua conta bancária. De outro lado, haverá o livro virtual, interativo, com software capaz de guardar na memória as obras completas de Dostoiewski, todas as críticas e ensaios publicados no mundo, iconografia completa e transcrições digitais de todos os filmes baseados em obra do famoso autor russo. Um software desses, e você tem na ponta do dedo o acervo do Louvre, as obras completas de Picasso ou as ruas de Nova Iorque. Em verdade, você não precisa esperar pelo próximo milênio. Já há diversos tipos de livro eletrônicos. Alguns fazem parte de seu hend-held, de seu computador de mão. Outros, funcionam em CD-Rom diretamente em seu computador. Esses livros virtuais apresentam capacidade de resolução de som e imagem de excelente categoria, e oferecem uma biblioteca completa que vai das Artes às Ciências.

Agora, a única coisa que vai estar igual daqui a mil anos será esse negócio de fabricar gênios em série através da engenharia genética. Como o gênio é uma complexa mistura de estoque genético e ambiente, a engenharia genética acabaria fabricando em série o que a humanidade já vem fazendo há séculos: a reprodução de imbecis. E convenhamos, para fazer um imbecil, é mais barato e agradável pelo método antigo, conforme aprovaria o Padre Mendel.

Embora os homens inteligentes do século XIX tenham imaginado o século seguinte como um tempo de progressos científicos, políticos e éticos, a verdade é que o nosso tempo não satisfez esses augúrios. Os progressos científicos avançaram muito, de uma forma inigualável e, neste ponto, o século XX será incomparável. O conhecimento do homem sobre a natureza fez com que crescesse a sua capacidade de dominá-la e modificá-la. Mas a política e a moral não acompanharam a ciência com a mesma desenvoltura e, em alguns casos, ficaram muito aquém. Daí as agressões contra a própria natureza e, num século de grandes conquistas sociais, vimos os surtos de irracionalismos políticos, guerras brutais, campos de concentração ditaduras, o extermínio de indefesos, a fome endêmica de metade da população, a miséria, o desemprego e o exílio forçado. Gostaria que as pessoas no futuro lembrassem do nosso tempo, como o tempo de Charles Chaplin, de James Joyce, de Heitor Villa-Lobos. Provavelmente eles o lembrarão, mas não esquecerão a menina em chamas, coberta de napalm, numa estrada do Vietnã, ou as imagens fantasmagóricas da cidade Bagdá sob bombardeio.

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